Whisner Fraga - O que devíamos ter feito

Literatura brasileira contemporânea
Whisner Fraga - O que devíamos ter feito - 164 Páginas - Editora Patuá - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

O mais recente livro de Whisner Fraga marca o seu retorno às narrativas curtas – depois do romance O privilégio dos mortos – com uma antologia de contos que demonstra o amadurecimento de uma técnica refinada e original, tanto na forma quanto no conteúdo dos textos, construídos com base em uma prosa poética e reflexões instigantes dos personagens ao serem confrontados com os impasses existenciais, morais e políticos da atualidade, fazendo pensar em nossas próprias escolhas ao longo da vida, principalmente se considerarmos o título como um questionamento, ainda que possa ser interpretado também como afirmação. Contudo, em ambos os casos, a sensação é de um amargo arrependimento.

Whisner lança mão de um procedimento já utilizado no seu romance anterior, espécie de falso diálogo entre o narrador-personagem e uma misteriosa e constante interlocutora e confidente chamada Helena, funcionando ao longo da narrativa como um longo fluxo de consciência que posssibilita a criação de um clima íntimo e confessional com o leitor. O primeiro conto, que empresta o título ao livro, é um bom exemplo dessa técnica. Inspirado pela crueldade de um vírus do qual muito pouco se sabia, ainda no início da pandemia, demonstra a inexorável rotina da morte contra a qual nada pode ser feito, ou poderia ter sido feito? Este é o drama do protagonista em uma sequência de questionamentos para os quais não há resposta possível.

"e se tivéssemos transferido a menina para a outra clínica, helena, já que sabíamos (e os exames foram conclusivos) o diagnóstico?, aquela, especializada no surto, aquela que não teríamos como bancar?: era nossa filha e ela devia ter mais valor do que uma mentira, do que um cheque sem fundo, do que uma promessa avalizada por uma assinatura, 

e se não aceitássemos a internação, helena? – ela não estaria melhor em casa com a família, no amparo dos objetos dela, na cama, com o pijama de personagens disney, a televisão permanentemente sintonizada no discovery kids, o tigre de pelúcia, os livros?, devíamos ter levado a menina para outro hospital, mais organizado, saneado, evitando, assim, o risco de uma infecção, aliás, houve uma contaminação qualquer?, como ela foi cedendo, se entregando?, quais os passos não acompanhados?, os revides da febre?, as investidas, os recuos?, a queda?, 

devíamos ter questionado o atestado, o laudo, o relatório, tudo vago, protocolar, 

e lá asseguram: o que nos levou a filha não foi uma infecção, helena, 

e sim o vírus, três dias depois,

digito no meu perfil do facebook: bia morreu," 

O autor volta também a utilizar a fictícia cidade de Tijuco para explorar as relações familiares em um contexto que representa muito bem o patriarcado mineiro, como ocorre no conto Ambição, no qual a religião e a moral não são obstáculos para a carreira de um jovem craque de futebol que irá compartilhar com o pai um vergonhoso segredo a ser esquecido. Em Jardins, uma novidade na obra de Whisner Fraga quando descreve a sequência de eventos violentos que sofre um casal ao, inadvertidamente, tomar parte em uma manifestação política; uma crítica sobre a nossa (confortável) apatia social que cobra o seu preço, cedo ou tarde.

"ela aponta o celular para o oficial e, gravando, lhe pede que repita o nome e a patente e ele quase engasga com a própria gargalhada e avisa que pode dar o fim que desejar ao filme, que o divulgue na internet, nas redes sociais e a cara se contorce num ríctus inesperado, o aparelho ainda mira o homem e ela argumenta que como cidadã tem o direito de ir e vir e que naquele momento regressaríamos para casa se ele permitisse e o homem da lei e da justiça e também da ordem nos provoca: o feminismo o enoja; vocês, meninas, tinham de estar em casa cozinhando ou lavando roupas; é preciso dar um cala-a-boca nas garotas mimadas a se achar com os mesmos direitos que nós; o erro da ditadura foi ter apenas torturado quando podia ter matado; merece uma lição a gentinha que incentiva os bichas; o grande problema da mulher é a gravidez;

ele rouba o telefone e o lança ao asfalto e o pisoteia até se transformar em algo inútil para denunciar a realidade,

ela ainda tenta compreender aquele atrevimento, quando recebe uma cotovelada no nariz e eu me paraliso ao presenciar o lamaçal de sangue se esgueirando pelos dedos que cobrem o rosto, uma crepitação veste meu punho e logo estou despachando o homem para a lona e escuto um flash, dois flashes, e não quero me virar e notar que me converti em notícia do dia seguinte,"

Em Você é mulher a narrativa é conduzida em primeira pessoa por uma mulher que se arrepende de não ter gritado, de ter aceitado participar de uma viagem de negócios com o colega de trabalho que a assediava, de não ter percebido o estupro que se aproximava, será que tudo poderia ter sido diferente? Será que ela é culpada por ter sido agredida? "A memória é essa autoridade cautelosa que nos atraiçoa furtivamente, é a presença terrível de uma dor iminente", uma frase como esta, na abertura do conto Ela se lembrava, nos mostra a força da literatura brasileira contemporânea que sempre encontra o seu espaço, apesar dos tempos sombrios.

Sobre o autor: Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba, autor dos livros As espirais de outubro, romance, Nankin, 2007, Abismo poente, romance, Ficções, 2009, Lúcifer e outros subprodutos do medo, contos, Penalux, 2017, O privilégio dos mortos, romance, Patuá, 2019, entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, organizada por Nelson de Oliveira. Foi traduzido para o inglês, alemão e árabe. O que devíamos ter feito é sua décima-primeira obra publicada.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar O que devíamos ter feito de Whisner Fraga

Comentários

sonia ferreira da silva disse…
Só pela degustação de um conto já se tem vontade de dar as mãos a esse escritor e sair em disparada Brasil afora gritando sobre a violência contra a mulher. Como ele consegue se distanciar do fato de ser homem e saber definir tão bem a impotência feminina contra o machismo, inclusive o machista uniformizado de autoridade policial?
Alexandre Kovacs disse…
Sonia, acho que é uma característica de todo grande autor essa capacidade de entender e dar voz a personagens tão diferentes, inclusive mulheres. Obrigado pela visita e comentário.
sonia disse…
Talves porque a alma não tem sexo...rsrsrs
Abraço
sonia disse…
corrigindo: talvez

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