Diego Ruas - A fome é a mãe de todas as bombas

Poseia brasileira contemporânea
Diego Ruas - A fome é a mãe de todas as bombas - Editora Penalux - 100 Páginas 
Capa e Diagramação de Talita Almeida - Lançamento: 2020.

Como fica claro a partir do título – A fome é a mãe de todas as bombas – não falta engajamento político ao livro de Diego Ruas, afinal o poeta não pode ignorar a realidade que o cerca, já gritam os versos iniciais: "Como ser neutro, se a realidade / é uma lâmina que atravessa meu peito / e recorta meu país em classes?" ou no aviso que cala fundo em nossa alma: "Se a gente não toma cuidado, / a vida se torna morte / cotidiana, do melhor / que a gente tem / dentro / de / nós.", não podemos deixar que isso aconteça e para nos alertar serve também a poesia.

A declaração está feita no melhor estilo de Paulo Leminski: "[...] Quero todas as coisas ao mesmo tempo. / Eu sou uma parte do mundo no mundo / a perder à vista. / Quero jogar uma bomba na rotina / e incendiar o mundo / de borboletas. //  Eu sou uma bomba atônita / em estado de poesia.", contudo, como não poderia deixar de ser, também de amor fala o poeta: "Meu coração é um banco de praça pública, onde todos os romances acontecem." e de solidão nas grandes cidades, quem nunca se sentiu assim: "Solidão é / um trem abarrotado de gente / desconhecida"

O poema Refugiado é dedicado à Mahmoud Darwish, considerado o poeta nacional da Palestina, mas uma homenagem também para todos que sofrem no exílio sem ter tido outra opção do que viver com a dor de abandonar a pátria, escolha que certamente nenhuma pessoa faria por vontade própria, sentimento resumido nos lindos versos: "A terra da qual migrei está longe, / mas ainda vive dentro de mim. / Meu endereço? / Todos os corações que ficaram / e os que se perderam. / Minha pátria, agora, / é só o que posso carregar / no peito e nas costas."

"Por ora, / a felicidade poderia se chamar / agora." Deixo com vocês três exemplos da poesia política de Diego Ruas, inspiração para lutar contra tempos sombrios:

REFUGIADO
à Mahmoud Darwish

Quero, antes de tudo, que registrem-me
EM LETRAS GARRAFAIS:
não sou um número, tenho um nome.
Minha identidade não é documento.
As árvores me conhecem desde a tenra infância.
Não sou bárbaro.
Não matei, não roubei, não oprimi.
Fugi de uma guerra que não era minha.
O terror que te preocupas,
tirou de mim, minha família.

A terra da qual migrei está longe,
mas ainda vive dentro de mim.
Meu endereço?
Todos os corações que ficaram
e os que se perderam.
Minha pátria, agora,
é só o que posso carregar
no peito e nas costas.

Meu coração está aberto,
mas o porto está fechado para nós.
Tem piedade, ó Senhor dos Cáucasos.
O oriente é invenção do ocidente.
Nossa história de privação e dispersão
já atravessa os séculos.
Não pregue na cruz nossa liberdade
de viver e trabalhar.

Quero abraçar este cinturão de terra,
como quem encontra a amada,
como se fosse minha
esta terra que me foi negada.
Não quero, nem quis ser exilado.

Perdoem-me se minhas palavras são amargas
o estampido de uma guerra ensurdecente 
ainda explode minha voz
em estilhaços.

ENTRE O FALAR E O FAZER

Este abismo cavado
entre o falar e o fazer 
esconde um silêncio no fundo
do coração,
um silêncio muiro parecido
com a vergonha.
No fundo somos todos 
                        humanos,
vergonhosamente humanos,
vivendo na angústia do desejo inesgotável
sempre insatisfeito,
                        sempre insaciável.

É o desassossego de querer ser
aquilo que se foi,
de querer ser aquilo que se é,
de ser aquilo que ainda não se é,
de ser além,
                    de ser alguém
a erguer a ponte
                entre aquilo que se fala
e aquilo que se faz.


A fome

            da alma

                        é a mãe do poema.


Sobre o autor: Diego Ruas nasceu em Brasília, no início do outono de 1991. Estudou na Universidade de Brasília. É engenheiro florestal, escritor, autor de Toda Poesia tem um Pouco de Chão (AVÁ, 2019).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar A fome é a mãe de todas as bombas de Diego Ruas

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