José Petrola - Insônia tropical

Literatura brasileira contemporânea
José Petrola - Insônia tropical - Editora Patuá - 200 Páginas
Capa, projeto gráfico e diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2021

A política promete mudar a realidade distópica na qual vivemos mas, assim como as estações do ano nos trópicos, continua sempre igual: "Os trópicos não têm suspense. Com isto, ficamos acostumados à permanência, aos climas imutáveis. Quando todos os dias são de sol e calor, nos assusta a ideia de que exista outro lugar onde um dia o tempo possa virar." Os contos de José Petrola refletem a hipocrisia de uma sociedade que prefere ignorar os sinais de corrosão, não apenas de suas representações políticas de esquerda ou de direira, mas também das instituições oficiais como a igreja e a escola. O leitor logo irá perceber que a própria ideia de tropicalismo que o título possa induzir é mais uma das ironias do autor.

Cada uma das quatro partes do livro representa uma região do Brasil com suas particularidades locais, contudo sempre descrevendo situações que alternam realidade e delírio. Por exemplo, no bloco inicial, "Na terra das palmeiras", o Rio de Janeiro é o cenário para as grandes manifestações políticas e personagens sem esperança, como o protagonista de "Rua Buenos Aires", um homem que busca uma possível fuga da realidade no sexo com prostitutas e no álcool, resumindo a sua descrença em qualquer mudança no país com a seguinte reflexão: "Só o puteiro não finge mudar, assume que continua igual como sempre foi."

"Dia carregado no trabalho, penso, boa hora pra dar um perdido na zona. Tô com saudade de comer um cu. Desligo o celular e pego uma dessas ruas estreitas que saem da Rio Branco. O centro da cidade está tomado por protestos contra o presidente. No ano passado eram protestos contra outro presidente e continuou tudo a mesma merda. Agora é quase julho e o calor ainda é insuportável. Num país sem verão e sem inverno, sem perspectivas e sem carreira, será tudo sempre igual. Três presidentes atrás, passei em concurso público. Dois presidentes atrás, fui obrigado a trabalhar em desvio de função, ajudando a acobertar contratos corruptos. Um presidente atrás, consegui mudar de função, para ficar sem nenhuma. O presidente atual não fez porra nenhuma pra melhorar minha situação. Cansei de política, cansei de gritar na rua pra correr de bala de borracha. Não vim protestar na Rio Branco, tomo a Buenos Aires e vou direto pra termas. [...]" - Trecho do conto Rua Buenos Aires (p. 29)

Na segunda parte, "Não é mais sertão", o foco do autor muda para as regiões do interior do país com uma abordagem mais intimista dos personagens ou melhor, sobreviventes, que perderam suas raízes como o médico do claustrofóbico "Casa trancada" que retorna à fazenda da família, depois de um casamento fracassado, em uma trajetória de autodestruição. Neste conto, notamos um interesante contraste entre a decadência do médico e a inocência do menino que testemunha todo o processo. Uma experiência ficcional bem sucedida ao comparar a felicidade artifical prometida nos grandes centros urbanos com a pureza e simplicidade da vida no campo.

"Barulho de vidros se estilhaçando no chão. Pela fresta entre as duas metades da porta-balcão, o menino observa Antônio derrubar tudo o que vê pela frente. Faz uma semana que ele se trancou na casa da fazenda para beber. O menino se esconde atrás da parede, com medo de ser visto. Depois espia, rápido, por um buraco da madeira carcomida da janela. Todas as portas e janelas estão trancadas por dentro. Antônio está nu, gritando e fazendo indecências no chão da sala. Garrafas espalhadas por cima dos móveis, até mesmo o oratório, com os santos de gesso estilhaçados. De longe se ouve ele gritar o nome de Teresa, e depois nomes feios que o menino nunca tinha ouvido." - Trecho do conto Casa trancada (p. 91)

Já no terceiro bloco, "Jogo de guerra", novamente o cenário é urbano para expor a violência da sociedade representada na exploração sexual da menor que vive em cárcere privado no conto "Quarto do medo": "O tio me acorda, não sei nem se é de dia ou de noite. Vai começar tudo outra vez. É hora de ir pro quartinho do medo." ou no assédio sexual em "Miguel, que não existiu", no qual um aluno decide se vingar dos abusos impostos pelo padre Augusto em um colégio pretensamente religioso, promovendo uma cena de possessão demoníaca em plena missa. 

"Na pracinha atrás da igreja tem outra menina parecida comigo. A única pessoa que não correu de mim quando me viu. Chama Jennifer. Me deixa ficar ali do lado, brincamos de correr na praça. Igual quando era antes, quando tinha mãe. Vamos até a porta da igreja pedir dinheiro. Não sei mais pra quê. Mas quem sabe com esse dinheiro eu pego um ônibus pra bem longe, pra onde ninguém vai me achar. Os sinos da igreja tocam, vamos embora. Jennifer me leva na entrada da favela. Ela comprou uma coisa, chamou de pedra. Eu nunca tinha fumado, Jennifer me ensina. Parece que finalmente eu saí daquele lugar horrível. Agora eu tenho uma casa. Será que Deus é uma pedra de crack? Preciso correr. Eles estão atrás de mim, vão me buscar. Onde está Jennifer? Onde está Deus? Preciso fugir." - Trecho do conto Quarto do medo (p. 141)

Na quarta e última parte, "Ensaio medroso sobre o precipício", sonho e realidade, cidade e floresta, são confrontados, por exemplo, na narrativa lírica de "Cruce del Campo" ou em situações-limite como a descrita no conto "Parceiro" no qual uma doença incurável faz com que aconteça um pedido inusitado entre amigos de longa data: "Preciso que você me mate". Um livro provocador que lida com as nossas mazelas políticas e sociais contemporâneas, assim como o eterno e incômodo exercício de encontrar algum sentido para a existência. 

Sobre o autor: José Petrola nasceu em São Paulo em 1988. Formado em Jornalismo e doutor em Ciências Sociais da Comunicação pela USP, começou sua carreira como repórter na Folha de São Paulo. Desde 2012, mora no Rio de Janeiro e trabalha na Petrobras, tendo atuado nas áreas de comunicação e responsabilidade social. Surdo oralizado, busca na palavra escrita o som do mundo. Foi aluno da Oficina Literária Ivan Proença por três anos e integra o coletivo Clube da Leitura. Estreou com o livro O Beco do Rato (Ed. Jaguatirica, 2018) e tem diversos contos e poemas publicados em revistas e antologias.

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