Abdulrazak Gurnah - Sobrevidas

Prêmio Nobel de Literatura 2021
Abdulrazak Gurnah - Sobrevidas - Editora Companhia das Letras - 336 Páginas - Tradução de Caetano W. Galindo - Capa de Oga Mendonça - Lançamento: 2022.

Em 2021 o romancista Abdulrazak Gurnah da Tanzânia foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura "por sua compreensão intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes", na definição da Academia Sueca. Gurnah nasceu em 1948 e cresceu na ilha de Zanzibar, chegando na Inglaterra na década de 1960 como refugiado. Ele começou a escrever aos 21 anos de idade em inglês sobre o tema cada vez mais atual, infelizmente, dos refugiados. Entre seus dez romances publicados, os mais famosos são Paradise e Desertion, ambos ainda sem edições em português.

Este seu mais recente lançamento, publicado originalmente em 2020, é o primeiro livro do autor traduzido no Brasil e tem como pano de fundo a história da colonização europeia ao longo do século XX na África Oriental: "Assim era essa parte do mundo na época. Cada pedacinho pertencia aos europeus, ao menos no mapa: British East Africa, Deutsch-Ostafrika, África Oriental Portuguesa, Congo Belge." Em Sobrevidas, o foco está nos efeitos da colonização alemã sobre a população local, sejam eles soldados africanos mercenários, voluntários ou sequestrados, lutando ao lado dos colonizadores ou simplesmente pessoas comuns tentando sobreviver.

A colonização alemã na região conhecida hoje como Tanzânia, Burundi e Ruanda, contou com o apoio da Schutztruppe, um exército de mercenários africanos conhecidos também como askaris, para levar a cabo a missão de "trazer ordem e civilização para este canto do mundo" e preservar a integridade da Deutsch-Ostafrika. Uma tarefa que os askaris cumpriram com extremo rigor, ferozes e impiedosos, aniquilando as populações rebeladas e incendiando seus vilarejos. Outros conflitos foram provocados devido ao início da Primeira Guerra Mundial na Europa, aumentando a tensão entre as tropas coloniais e resultando em maior destruição local.

"A firmeza com que aquelas pessoas se recusavam a se tornar súditos do império da Deutsch-Ostafrika tinha surpreendido os alemães, sobretudo depois do que estes fizeram aos wahehes no sul e aos wachagga e wameru nas montanhas do nordeste. A vitória sobre os maji-majis deixou centenas de milhares de mortos pela fome e muitas outras centenas por ferimentos recebidos em batalha ou por execução pública. Para alguns administradores da Deutsch-Ostafrika o resultado foi considerado inevitável. Essas mortes ocorreriam mais cedo ou mais tarde. Enquanto isso, o império tinha que fazer os africanos sentirem o punho cerrado do poderio alemão para aprenderem a se dobrar obedientes ao jugo da servidão. A cada dia que passava o poderio alemão ia firmando mais aquele jugo no pescoço de seus relutantes súditos. [...] Os alemães eram retardatários na corrida do imperialismo naqueles cantos do mundo mas faziam questão de se estabelecer por um longo tempo e queriam conforto enquanto estivessem por ali. Suas igrejas e seus escritórios com colunatas e fortalezas com ameias eram construídos tanto para possibilitar a vida civilizada quanto para aturdir seus novos súditos e impressionar seus rivais." (pp. 23-4)

A narrativa se divide entre alguns protagonistas, cada um afetado a seu modo pelas guerras coloniais. O fio condutor é Khalifa, um contador contratado pelo mercador Amur Biashara, que "tocava seus negócios como se fossem uma conspiração" em meio aos conflitos e rebeliões; Khalifa "escrevia as cartas, pagava as propinas e ia recolhendo as migalhas de informações que o mercador deixasse cair". Como prêmio por sua atuação, recebe como esposa a sobrinha de Biashara que havia se tornada orfã, Asha Fuadi. Khalifa e Asha se casam em 1907 e ele, desde então, "tentou fazer com que ela o desejasse como ele a desejava".

Já Ilyas, "de risada fácil e modos humildes", chega à cidade com uma carta de apresentação, indicado para trabalhar em uma grande fazenda alemã de sisal, ele fugiu de casa ainda criança e havia perdido totalmente o contato com a família. Ilyas logo se torna amigo de Khalifa e, aconselhado por ele, viaja até o interior somente para descobrir que os pais já haviam morrido há algum tempo e a irmã Afiya vivia em condições de escravidão, decide então trazê-la para a cidade para morar com ele. Tudo parece correr bem para os irmãos Ilya e Afiya, quando ele decide, para surpresa de todos, se alistar na Schutztruppe, por algum tipo de idealismo às avessas.

"Enquanto se vangloriavam com suas histórias e marchavam pelas planícies onde a grande montanha não deixava chover, eles não sabiam que passariam anos lutando em pântanos e montanhas e florestas e savanas, com chuva pesada e estiagens, matando e sendo mortos por exércitos de pessoas sobre as quais nada sabiam: punjabis e sikhs, fantes e acãs e hauçás e iorubás, congos e lubas, todos mercenários que lutavam nas guerras europeias pelos europeus, os alemães com sua Schutztruppe, os ingleses com seus King's African Rifles e Royal West African Frontier Force e batalhões indianos, os belgas com sua Force Publique. Além deles havia sul-africanos, belgas e uma multidão de voluntários de outras nações europeias que achavam que matar era uma aventura e que se sentiam felizes de estar a serviço da grande máquina de conquista do imperialismo. Era um espanto para os askaris ver a grande diversidade de povos de cuja existência nem suspeitavam. A magnitude do que viria não estava clara naqueles primeiros dias da guerra quando eles marchavam para a fronteira, seus oficiais alemães na frente, montados em mulas, suas esposas e filhos alegres atrás da coluna, e de algum modo todos encontravam maneiras de cantar e rir e de participar de demosntrações animadas." (pp. 107-8)

Um dos protagonistas mais interessantes na trama é Hamza, que chega à cidade com um segredo em seu passado, em busca de emprego e segurança, e lá acaba se apaixonando por Afiya que, após a partida do irmão Ilyas para a guerra, morava com o casal Khalifa e Asha. Hamza lembra de sua fase como combatente voluntário na Schutztruppe e sua estranha relação com um oficial alemão do qual era ordenança e que o ensinou a língua alemã para que pudesse ler Schiller, esse interesse e simpatia do oficial por Hamza despertou o ódio de outros oficiais alemães e o tornou alvo de perseguições dos colegas askaris: "Esses alemães, eles gostam de brincar com rapazinhos bonitos, especialmente com os bem-educados como você".

"Naquelas centenas de quilômetros de pesadelo que enfrentaram, Hamza executou toda e qualquer ordem que seu oficial achou possível dar nas circunstâncias limitadas em que viviam, e até onde pôde tentou atender às necessidades dele. Fazia o melhor para não chamar atenção para si próprio. Marchava com a tropa e corria agachado como foi treinado a fazer e disparava sua arma quando precisava mas nunca soube direito se alguma vez acertou alguém. Ele se abaixava e fazia zigue-zagues e berrava como os outros askaris mas disparava contra sombras, evitando os alvos. Por uma sorte milagrosa não teve que se envolver em combates corpo a corpo, e conseguiu não fuzilar nenhum habitante dos vilarejos que eles por vezes recebiam ordens de punir por traição ou por tentar enganá-los. Ele comia a comida roubada como qualquer um deles, via a destruição da terra e se afastava apressado como todos faziam. Vivia aterrorizado desde o momento em que abria os olhos até o nascer do sol, mas às vezes chegava a um estado de exaustão em que não sentia mais medo, e isso sem bravata, sem pose, desconectado do momento e aberto a tudo o que lhe pudesse acontecer. Às vezes caía em desepero." (pp.114-5)

Sobrevidas é, antes de mais nada, um romance em estilo clássico e muito bem escrito que vem ajudar a remediar uma das consequências mais tristes da violência do colonialismo, a falta de memória na perspectiva dos que foram colonizados ou dizimados pelo imperialismo.

Sobre o autor: Abdulrazak Gurnah nasceu em 1948, na atual Zanzibar, na costa da Tanzânia. Nos anos 1960, devido à perseguição a cidadãos árabes durante a Revolução de Zanzibar, refugiou-se no Reino Unido, onde vive atualmente. Autor de dez romances – incluindo Paradise (1994), finalista do Booker Prize e do Whitbread Award – e de um livro de contos, foi professor na Universidade de Kent até sua aposentadoria. Em 2021, recebeu o prêmio Nobel de literatura.

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