Marcelo Conde - Amanhã vai ser pior

Literatura brasileira contemporânea
Marcelo Conde - Amanhã vai ser pior - Editora Patuá - 476 Páginas - Capa de Eiji Kozaka - Lançamento: 2021

O romance de Marcelo Conde é uma das obras recentes que melhor define o impasse da nossa sociedade atual, a qual nos impõe uma escolha absurda entre o isolamento ou a polarização política. De um lado o conformismo, do outro o ódio. Pedro decide abandonar o país após brigar com a família e amigos nos grupos de WhatsApp, além de ter sofrido ameaças físicas e ser demitido por questões políticas, após a eleição de Bolsonaro no final de 2018. Em Barcelona, ele se torna um "lixeiro virtual" trabalhando para uma famosa rede social como analista de conteúdo, ou seja, censurando postagens com vídeos de assassinatos, pedofilia, canibalismo e outras atrocidades, uma atividade que logo cobra o seu preço, começando a afetar a sua sanidade mental e comportamento, assim como a de outros colegas de trabaho, fazendo Pedro pensar como "a humanidade vive na Idade Média, mas com um celular na mão".

O pai de Pedro é um verdadeiro achado ficcional, preso na época dos governos militares apesar de nunca ter participado de nenhum grupo armado ou atuado em qualquer organização clandestina, foi salvo da prisão pela influência do avô de Pedro, um rico empresário do ramo da mineração, e sempre utilizou este histórico como marketing pessoal. Contudo, na prática, exerce uma postura política de extrema-direita: "Sua história era uma verdade no limite da mentira, um azar que ele transformou em sorte e no qual ele passou a acreditar para sempre."

"Não deveria estar em Barcelona. Na verdade, não sei se há algum lugar no mundo em que eu deveria estar. Mas o fato é que cheguei aqui há alguns meses, meio por acaso, e acabei ficando. Tem sido bom e estranho. Mais estranho do que bom, acho. Ainda assim, melhor do que estava no Brasil. / Trabalho numa empresa terceirizada da maior rede social do mundo e passo oito horas por dia, ou da noite, apertando delete, ignore, delete, ignore, ignore, ignore, delete, delete. Acho engraçado quando escuto alguém dizendo que as pessoas são doentes porque postam tudo que fazem nas redes sociais: viagem para sei lá onde, aniversário do filho do irmão, selfie na beira do penhasco, foto tomando soro no hospital, declaração de dia dos namorados, comunicado de morte do próprio pai, autopromoções profissionais. Mas posso garantir que o que não se vê é muito pior." (p. 13)

O texto apresenta um ritmo veloz, de roteiro cinematográfico com ótimas descrições da cidade de Barcelona, extremamente envolvente, daquele tipo difícil de interromper a leitura, com narrativa nao linear que oscila entre a rotina de trabalho na Espanha e o passado no Brasil, reproduzindo as conversas no WhatsApp com grupos de amigos da faculdade e de familiares. É difícil não se identificar com algumas dessas conversas e situações que vivenciamos há tão pouco tempo, mas já fazem parte da nossa história, uma ferida que precisa ser cicatrizada nos próximos anos.

"O último vídeo que vi foi de uma cobra comendo uma criança. Inteira. Delete, delete, delete. Esse é o tipo de coisa a que preciso assistir para que ninguém mais no mundo corra o risco de vê-la. Sou um analista de conteúdo, um lixeiro virtual que varre algo pior do que lixo para o limbo, pelo menos até ser republicado. Quando aperto delete, o vídeo some das redes sociais na hora, embora ainda fique para sempre na minha cabeça. Não há ainda uma profissão, uma pessoa ou um remédio que façam com meu cérebro o mesmo que eu faço com as redes sociais. Psicólogo, psiquiatra, Espram, Rivotril, Zanax. quando vejo esse tipo de vídeo, ele fica guardado em mim, não importa a quantos eu já tenha assistido antes, como se o cérebro se expandisse infinitamente para conseguir armazenar tudo que não presta. Tenho até certa dificuldade para decorar números de telefone, nomes de amigos, datas de aniversário, passagens de livros ou filmes que gosto, mas lembro, em detalhes, os posts que deleto. E vejo muitos deles, o tempo todo." (pp. 13-14)

Cada vez mais afetado pela rotina do trabalho que o obriga a assistir às postagens violentas diariamente, Pedro precisa decidir entre continuar em Barcelona com os novos amigos e a namorada ou retornar para o Brasil e os problemas que abandonou. Um romance que sintetiza bem a divisão política atual do país e o lado doentio que presenciamos nas redes sociais e nos grupos do famigerado aplicativo WhatsApp, ferramentas que foram criadas pretensamente com o objetivo de aproximar as pessoas e atingem resultado totalmente oposto na prática. 

"Os posts seguintes que analisei no primeiro dia foram de acusações políticas. Nada muito grave, pelo menos no sentido gráfico da coisa. Havia as opiniões políticas com as quais eu não concordava e que já conhecia antes mesmo de sair do Brasil. Os posts eram muito parecidos, dentro de seu espectro político mais à direita. Por mais que eu fosse claramente contra esses posts, aqueles que foram denunciados e apareceram para mim não me pareciam sair do limite que precisavam cruzar para que eu pudesse deletá-los. Não que eu não  quisesse apertar o delete, mas acabaria prejudicando mais o meu emprego do que os perfis que haviam publicado o post. Os xingamentos eram genéricos, voltados aos comunistas, aos esquerdistas, aos petistas, vai para Cuba, vamos virar a nova Venezuela. Meu dedo tremia, mas eu deixava passar. Nada de política para mim, nada mais de política para mim." (p. 35)

Literatura brasileira contemporânea

Sobre o autor: Marcelo Conde nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Morou em São Paulo por 13 anos. E, desde 2019, vive em Barcelona. Publicou o romance Apneia e teve contos selecionados para as antologias Granja, Contos de Quarentena 1 e Contos de Quarentena 2. Marcelo é ex-diretor de criação da agência de publicidade WMcCann e atualmente na C14torce.

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