Victoria Schechter - Prismas

Literatura brasileira contemporânea
Victoria Schechter - Prismas - Editora Patuá - 288 Páginas - Capa e Diagrmação de Fernando Campos
Lançamento: 2023.

A visão na literatura é normalmente metáfora para o conhecimento, sendo a cegueira, em contrapartida, um destino trágico de escuridão e ignorância; em alguns casos até mesmo representação para a falta de humanidade que se torna barbárie, como na alegoria de José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira. Já Victoria Schechter, ela própria uma deficiente visual, nos apresenta em seu romance de estreia uma abordagem mais realista. A protagonista-narradora é Isabel Leone, uma cantora e professora de música cega de nascença que tem a sua rotina alterada por uma gravidez indesejada. Durante uma longa viagem de avião, ela relembra passagens de sua vida desde a infância, o preconceito social contra a deficiência, as experiências amorosas e a descoberta de seu próprio corpo. 

A autora destaca em seus comentários finais que a deficiência visual é ainda mais cruel com as mulheres que, obviamente, apresentam uma maior vulnerabilidade para sofrerem abusos físicos, sexuais ou psicológicos, assim como a angústia provocada pela perda da posse da própria imagem, uma matéria sensível ao universo feminino: "Uma questão que também tem a ver com o sexismo da nossa sociedade, que cria desconfiança entre mulheres, objetifica seus corpos, quer para tomá-los quer para descartá-los como não adequados ao seu desejo. [...] O feminismo e a deficiência parecem não combinar, a beleza, categoria há tempos tão associada ao feminino, parece não combinar com a deficiência; uma condição parece anular a possibilidade da outra."

"A Isabel entende tudo tão rápido! Aprende tudo tão fácil, resolve qualquer coisa em dois segundos. Ela é tão guerreira! – Perdi a conta de quantas vezes ouvi frases assim. De professores, dos amigos de amigos que queriam me elogiar ao acabar de me conhecer, de minha mãe quando tentava me animar – você é uma lutadora, sou mãe de uma lutadora! Até da mulher da farmácia ouvi admiração uma vez, apenas por fazer o que se espera de qualquer adulto. E eu não me permitia não fazer o que era esperado de qualquer adulto – ou criança, adolescente, aluno, amigo, profissional, artista. Para ter direito a viver no mundo, eu precisava ser tão eficiente quanto todos eles, mesmo que isso não fosse assim tão fácil quanto é para a maioria. Porque eu tinha que ser perfeita, fazer tudo tão bem quanto as outras pessoas – melhor, se possível, para não restarem dúvidas da minha capacidade, para não deixar nada flutuando no limbo dos elogios piedosos." (p. 15)

A estrutura polifônica destaca os múltiplos pontos de vista sobre a protagonista a partir de suas relações familiares, amorosas e com os amigos, por meio de passagens que são intercaladas em terceira pessoa à narrativa principal do romance, de forma não linear no tempo. Assim, novas combinações surgem a partir de cada experiência vivenciada, formando uma espécie de caleidoscópio, representado tão bem na capa do livro. Destaque para a "trilha sonora" de extremo bom gosto que pontua algumas músicas do repertório de Isabel em suas apresentações, fragmentos de letras de Chico Buarque, Bob Dylan, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, entre outros.

"No primeiro dia de escola nova, cheguei meia hora mais cedo para ninguém presenciar minha entrada escoltada por uma funcionária da secretaria. Devia ter comparecido a uma visita guiada à escola, para começar a me acostumar com os prédios antes do início das aulas, mas tudo foi resolvido na correria  e ninguém teve tempo de me levar. Pretendia sentar na frente e no canto, meu lugar de sempre na outra escola. Quando a funcionária já tinha ido embora e alguns alunos chegaram, percebi tarde demais que a carteira escolhida ficava no meio da primeira fila, o ponto exposto dos CDFs, não o canto defensivo dos que preferem passar despercebidos. Chamaria atenção demais ao me levantar, desdobrar a bengala já escondida na bolsa e fazer o metal tinir contra os pés das carteiras enfileiradas para escolher outro lugar. Além disso, e se já tivesse alguém sentado? Vexame na certa. Melhor ficar onde estava e abaixar a cabeça." (p. 51)

Um livro sensível e muito bem escrito, no qual a protagonista aprende a superar a solidão da deficiência visual para encontrar o seu próprio lugar no mundo, essa tarefa que já é tão difícil para as pessoas ditas normais: "Não há ninguém como Isabel. O lugar dela é um nicho solitário aonde ninguém mais é mandado, uma categoria separada de ser humano." Isabel precisa lutar contra o estereótipo de "desumanização e a presunção de desamparo e sofrimento" que a sociedade normalmente associa à sua condição, uma "cegueira que há em todos nós"

"Naquela noite, as suas mãos por toda parte. O seu corpo apertado no meu, meio-vestido, meio não; a sua voz no meu ouvido: o que eu queria, do que eu gostava. O meu silêncio. Ele insistente. O vazio na minha cabeça. Ninguém nunca tinha me feito aquelas perguntas, apenas faziam o que queriam. A sua boca entre as minhas pernas naquela noite. Ninguém nunca tinha feito isso antes também. Eu nunca tinha dado um gemido real de prazer como dei naquela noite. Não sabia que era possível me sentir daquela maneira: mulher inteira, bonita por mim mesma." (p. 162)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Victoria Schechter nasceu em 1992 em Santos (SP). Vinda de uma família de músicos amadores e leitores vorazes, aprendeu a paixão pelo narrar desde pequena. É bacharela em Letras pela USP, pós-graduada em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz e tem mestrado em Escrita Modernista e Contemporânea pela University of East Anglia, em Norwich, Inglaterra, onde reside atualmente. Sua dissertação de mestrado explorou as maneiras como a cegueira é empregada na literatura, analisando obras de Jorge Luís Borges, Clarice Lispector e Raymond Carver, autores que tem como modelos, ao lado de Virginia Woolf, Sylvia Plath e contemporâneos como Toni Morrison, Donna Tartt e Elena Ferrante. É deficiente visual de nascença e Prismas é seu primeiro romance. Escreve para abafar o silêncio.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Prismas de Victoria Schechter

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