Humberto Conzo Junior - As sete mortes do meu pai

Literatura brasileira contemporânea
Humberto Conzo Junior - As sete mortes do meu pai - Editora Mondru - 228 Páginas - Projeto gráfico: Jeferson Barbosa - Lançamento: 2022.

O romance de estreia de Humberto Conzo Junior é uma corajosa e sensível autoficção que resgata em detalhes a sua relação ao longo de toda a vida com o pai falecido recentemente. O resultado é um texto verdadeiro que, sem ocultar os problemas familiares decorrentes dos vários casamentos, crises financeiras e demais confusões provocadas pela personalidade irresponsável do pai, emociona e provoca a identificação imediata no leitor. Nas palavras do próprio Humberto, que sempre teve um comportamento oposto, tímido e sensato, trata-se de um livro de (des)formação e (re)formação no qual o narrador/autor pratica um processo de desconstrução para se reconstruir. O título é uma referência aos afastamentos impostos após cada separação: "Todas as pessoas morrem só uma vez. Quantas vezes terei que perder meu pai? A primeira vez foi com a separação da minha mãe. Eu tinha sete anos."

A ação tem início no velório do pai em um ambiente confuso e rancoroso no qual Humberto precisa lidar com a última esposa, que exige todos os pertences do falecido e nega acesso à família aos documentos, apesar de um casamento de apenas quarenta dias e separação total de bens. Esta situação é semelhante a tantas outras que Humberto sempre precisou resolver devido aos desatinos do pai: "Desde pequeno tive que mediar crises". No entanto, dessa vez há um agravante, a declaração pouco confiável da sua última mulher: "Sabia que você não é filho do Humberto?", uma outra morte que querem lhe impor, como se não fossem suficientes todas as outras. A partir do álbum de família a narrativa avança em ordem cronológica inversa, como um balanço de erros e acertos entre pai e filho.

"Ao separar-se da minha mãe, não sei se meu pai trocava mais de endereço ou de mulher. Em um primeiro momento, continuou morando perto da gente, entre a Mooca e o Tatuapé, mas, ainda assim, atrasava sempre que ia nos buscar nos fins de semana. Eu, que nunca fui de acordar cedo, sábado sim, sábado não, ficava arrumado e de mala feita, uma meia hora antes do horário combinado, normalmente por volta das dez. Sentava no sofá e ficava esperando, sem nem ligar a televisão, atento aos barulhos da rua, para onde eu espiava de tempos em tempos pela janela do apartamento. Mesmo ele atrasando quase todas as vezes, eu insistia em manter o ritual. / O problema é que muitas vezes chegava a hora do almoço e nada do meu pai aparecer. e eu, que nunca tomava café da manhã, começava a sentir um vazio na barriga muito maior do que o provocado pela falta de comida. / Quando ele aparecia, como se nada tivesse acontecido, já me encontrava com raiva e de mau humor. E eu nem sempre conseguia disfarçar." (p. 99)

Aos poucos, com base nas lembranças da infância e adolescência de Humberto, vamos conhecendo um lado mais humano desse pai. Um homem que, apesar de seus muitos erros, foi capaz de guardar todas as poesias do filho e publicar um livro escondido para presenteá-lo, um fato que influenciou definitivamente a futura carreira de Humberto como escritor. Assim, após a morte do pai, o filho que sempre se achou e quis ser diferente, vai percebendo as semelhanças que somente a passagem do tempo poderia revelar, até mesmo na sua relação com os próprios filhos. Uma história, como tantas outras, que nos mostra como não somos perfeitos, mas, no final, o amor é o que conta.

"Abro a porta que dá para o corredor e antes de ir para a cozinha buscar o que precisava, eu tinha que fazer outra coisa. Quer conhecer o meu quarto? Para todo adolescente seu quarto é seu refúgio, mas para mim era mais do que isso. O meu canto, o local onde eu podia me isolar. Fechava a porta e deixava as preocupações para fora. O quarto que refletia quem eu era ou o que eu queria ser. Meus livros, minha coleção de latinhas de cerveja, minha TV, meu aparelho de som, minha cama, meu guarda-roupa, onde eu guardava também meus chocolates. Abri meu mundo para o meu pai e fiquei olhando seu rosto. Foi como no dia em que lhe entreguei minha poesia, me abria sem dizer palavra, é assim que vivo sem você , esse sou eu, é aqui que sinto sua falta, que me conformo com o que não tem mais jeito, que tento crescer. Pude perceber que ele estava feliz em ver onde eu levava a vida, mas acho que vi nele também a frustração de ter passado todos aqueles anos sem conhecer o meu espaço, o mundo que eu construíra para mim. Eu também sentia alegria e dor por me abrir, por pedir ajuda, me mostrar frágil, por dizer que e sofria por nossa trajetória, por descobrir o que me faltava, por perceber que meu pai entrou no meu quarto pela primeira e única vez quando eu tinha dezenove anos." (p. 126)

Nesta bem-cuidada edição, foram inseridas fotos do álbum de família de Humberto, assim como a transcrição de uma carta do pai para uma das ex-esposas. Curiosamente, algumas das fotos foram recortadas, faltam pedaços de pessoas removidas, algo parecido com a nossa memória que edita de alguma forma tudo o que vivemos de acordo com a nossa versão dos fatos: "Formas de tentar reescrever, de recontar o que se viveu, ou de esquecer mesmo. Em várias delas foi minha mãe quem sumiu, restando meu pai com roupa de noivo ou dançando com alguém sem cabeça. Em outras, falta ele." Um livro muito recomendado, que faz pensar nas coisas importantes da vida.

"A morte do outro não rouba nada da gente. Acaba apenas com a expectativa de viver aquilo que ainda não tinha sido. Pausa a ideia de relações futuras. O passado, o que ficou para trás, o que foi realmente vivido, a morte não leva embora dos que ficam. Leva apenas do morto, que é quem mais se lamentaria se pudesse. A foto de um morto congela a ação do tempo sobre algo que já não é mais e que irá se desfazer. E as fotos do passado são só lembretes, pontos de marcação que usamos durante toda a vida para alimentar a ilha de edição que é nossa cabeça. Nada e ninguém, nem a morte, tiram dos que ficam as lembranças, aquilo que se viveu. E cada um guardará isso do seu jeito, de uma forma particular, reconstruindo as imagens e as modificando com o passar dos anos. Continuamos sempre recontando o passado para nós mesmos e para os que nos cercam. A verdade é efêmera. Ela não existe mais a partir do instante em que aconteceu. Logo após o flash da máquina ela já está sendo processada e recontada de formas diferentes por cada um. A morte tira da gente apenas a possibilidade de comparar nossa versão do que já foi vivido com a versão do ente que se foi." (p. 198)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Humberto Conzo Junior é formado em biologia e história pela USP. Publicou livros infantis como Bichos Sinistros e Descobrindo os Bichos do Jardim. Em 2015 criou o Primeira Prateleira, canal de divulgação literária. Idealizou o Clube de Literatura Brasileira Contemporânea, clube de assinatura e leitura conjunta. Em 2019 integrou a turma do CLIPE da Casa das Rosas. Participou da coletânea Retratos da Vida em Quarentena. Em 2021 foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura.

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