Adriana Vieira Lomar - Ébano sobre os canaviais

Literatura brasileira contemporânea
Adriana Vieira Lomar - Ébano sobre os canaviais
Editora Record / José Olympio - 240 Páginas - Lançamento: 2023.

Vencedor do Prêmio Kindle de Literatura 2022, Ébano sobre os canaviais é um romance histórico que demonstra o processo desumano da escravidão, origem do racismo estrutural e a consequente desigualdade social no Brasil. A obra retrata o final do século XIX, quando o tráfico negreiro já havia sido proibido em nosso país por meio da Lei Eusébio de Queirós de 1850, contudo a entrada de cativos africanos continuava ocorrendo de forma ilegal, mesmo com a pressão da campanha abolicionista por parte da sociedade na época. Na ficção de Adriana Vieira Lomar, Ébano é uma mulher negra alforriada que luta contra os preconceitos para ficar com José, imigrante português em busca de melhores condições de vida em nosso país.

A autora conduz a narrativa de forma dinâmica, mantendo o interesse do leitor do início ao final da obra ao alternar o protagonismo entre os personagens principais: José, desde sua difícil chegada clandestina no Brasil até se estabelecer como comerciante, Ébano, filha da escravizada Shakina e, finalmente, Maria Antonieta, mulher branca e preconceituosa já em nosso tempo que, após se separar do marido, descobre a verdade sobre a sua ancestralidade. No decorrer do romance essas três histórias se conectam, mostrando como a amizade e o amor, apesar de todas as dificulades, podem suplantar o racismo e viabilizar a justiça social.

"Atravessaram o oceano com pouca ração. Viram muitos serem jogados ao mar. Queriam somente uma coisa: ficar juntos. Não sabiam o que iriam enfrentar na tal colônia de nome difícil de pronunciar. / Vindos da bacia do Congo, onde a mata e os bichos vivem, e alguns poucos homens reinam nas aldeias, desembarcaram no porto de Penedo. Avistaram o mar, de um verde só visto nas palmeiras gigantes da floresta. Com as pernas bambas e fracos, suplicaram por comida. Shakina exibia uma barriga, e logo o carrasco percebeu que ela estava grávida. Separada dos demais, foi-lhe dada uma ração. Seria levada para um engenho de cana-de-açúcar – poderia dar uma boa lavadeira, ou, quem sabe, uma mucama. Chisulo foi levado ao pregão. Havia comerciantes no cais, muitos deles ávidos por revender escravizados para o Sudeste da colônia. / Apesar de extenuado, Chisulo realmente tinha boa estatura e dentes fortes. De longe, Shakina torcia para que o futuro marido fosse para o tal genho. Não sabia sequer o que se fazia nesse lugar." (p.59)

Shakina e Chisulo são capturados no Congo e separados à força, durante este processo Shakina é violentada pelo chefe dos traficantes e engravida de Ébano. O casal se reencontra em um engenho de cana-de-açúcar no interior de Pernambuco, mas eles logo percebem devido à rotina de violências – tanto na casa grande quanto na senzala –, que as dificuldades estão apenas começando. Uma obra importante para entendermos a origem de muitos dos problemas sociais brasileiros na atualidade, promovidos pela discriminação e o racismo estrutural que fazem com que a disponibilidade dos serviços públicos seja diferenciada a partir das ações (ou falta de ações) do Estado e das instituições, principalmente o acesso à segurança e à justiça.

"O senhor estava no campo checando o desempenho dos escravizados e veio com as botas meladas de barro. Quando ele chegava acompanhado de Manuel, as escravizadas da casa-grande gelavam. Ficavam enfileiradas para cumprimentá-lo. Ele entrava e elas iam atrás. Sentava-se na cadeira de balanço e, sem dizer palavra alguma, posicionava a bota na altura da coxa de Kina, a primeira da fila, que, a todo custo, tentava tirá-la. Sem o apoio de outra criada , a tarefa era impossível. As botas eram pesadas pela quantidade de barro, tinham um aspecto cimentado. Retiradas as botas, ele acenava como quem enxota mosquitos e moscas. Com o olhar voltado para o chão, elas saíam caladas. entre elas, Kina permanecia no mesmo lugar, continuava no raio de visão do senhor e era a única que ele pedia para ficar." (p. 87)

Literatura brasileira contemporânea

Sobre a autora: Adriana Vieira Lomar nasceu em 1968. Carioca de família alagoana, considera Ébano sobre os canaviais a possibilidade de conferir à sua trisavó um nome, uma história, uma lápide e uma memória. O livro, vencedor do Prêmio Kindle de Literatura 2022, com o qual estreia na Editora José Olympio, é dedicado à sua ancestralidade multirracial. Também é autora de Aldeia dos mortos, Corredor do tempo (ambos da Editora Patuá) e Ambiguidades (Editora Penalux).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Ébano sobre os canaviais de Adriana Vieira Lomar

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

20 grandes escritoras brasileiras

As 20 obras mais importantes da literatura dos Estados Unidos

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira