Ralph Ellison - Voando para casa e outras histórias

Literatura norte-americana
Ralph Ellison - Voando para casa e outras histórias - Editora Record / José Olympio - 240 Páginas - Tradução de André Capilé - Lançamento: 2024.

Alguns autores se tornaram consagrados escrevendo um único romance. É o caso de Ralph Ellison (1914-1994) com Homem invisível, vencedor do National Book Award de 1953, uma obra sobre um jovem negro que relembra passagens da sua vida no sul racista dos EUA e no Harlem, Nova York, no início do século XX: "Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível – compreende? – simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. [...]" O valor de Ellison não se limita ao campo da sociologia e denúncia sobre o racismo, podendo ser incluído no seleto grupo formado por: James Baldwin, Toni Morrison e Maya Angelou, expoentes da literatura norte-americana.

Contudo, esta resenha não é sobre o aclamado romance Homem invisível, mas sim sobre a coletânea Voando para casa e outras histórias, lançada postumamente em 1996 e inédita no Brasil, na qual foram reunidos catorze contos de Ellison, escritos entre 1937 e 1954, a maioria deles já publicados pela imprensa nos Estados Unidos, juntamente com outros seis inéditos, organizados por sua esposa e por John F. Callahan, editor e amigo do marido. O conto de abertura, Uma farra no parque, descreve o linchamento de um homem negro em uma noite fria de tempestade com requintes de crueldade por uma multidão fora de controle, sendo que a sequência se torna ainda mais brutal devido à narrativa ser feita por um jovem adolescente branco que visitava seu tio no Alabama, impressionado com a resistência da vítima, mas sem demonstrar qualquer questionamento moral sobre o horror do ato.

"Eu não sei como aquilo começou. Um bando de caras passou na casa do meu tio Ed dizendo que ia ter uma farra no parque, meu tio me deu um pito pra eu chegar junto, daí marchei com eles no meio da escuridão e da chuva, então lá fomos nós pro parque. Quando a gente chegou lá, todo mundo ao redor tava agitado, quieto e parado de pé sacando o crioulo. Alguns dos homens tinham armas, e um cara ficava cutucando a calça do crioulo com o cano duma espingarda, falando que devia era apertar o gatilho, mas ele nem fez. Era bem em frente ao tribunal, daí o antigo relógio da torre bateu à meia-noite. Caía a chuva fria e, enquanto caía, era gelada. Todo mundo tava com frio, e o crioulo se abraçava todo encolhido tentando parar os calafrios. / Aí um dos garotos abriu passagem no meio da roda e arrancou a camisa do crioulo, e lá ficou ele, com sua pele preta toda tiritando sob a luz do fogo, olhando pra gente com um olhar de susto na cara e botando as mãos nos bolsos da calça. O pessoal começou a berrar pra que matassem logo o crioulo. Alguém berrou: "Tira a mão do bolso, crioulo; a gente vai esquentar teu tamborim daqui um cadinho."  Mas o crioulo não escutou ele e ficou com as mãos no mesmo lugar." (pp. 13-4) - Trecho do conto Uma farra no parque

O livo continua com cinco contos protagonizados por crianças. E o que torna essas narrativas, conduzidas na forma de diálogos, praticamente intraduzíveis é a oralidade apoiada na musicalidade das gírias locais. As notas do tradutor André Capilé explicam bem essa difiuldade: "Aqui as particularidades do uso da linguagem se tornam interessantes, por um lado, e um tormento tradutório, de outro. Tomem-se, por exemplo, as narrativas que têm como centralidade, estruturas dialógicas de dois gatrotos, Buster e Riley. Uma primeira implicação é o modelo da conversa, pois há um grande torneio, entre eles, na condução das falas por meio de uma estrutura muito afeita às rhymes, algo que soa da seguinte maneira: o primeiro da ação duz uma coisa, o sgundo dobra a aposta para entrar no jogo, e assim sucessivamante. Ellison tem formação musical, no que se pode apontar a presença do jazz nessa dinâmica [...]"

O narrador protagonista de O rei do bingo é um negro não nomeado da Carolina do Norte que mora no Harlem e entrou no cinema na esperança de ganhar o prêmio para pagar um médico para sua esposa. Ele consegue ganhar o direito de girar a roda da fortuna com um prêmio de US$ 36,90 se a mesma parasse no duplo zero, mas as coisas fogem do controle quando percebe que não perderá enquanto mantiver a roda girando e, assim, se recusa a acionar o controle, provocando uma confusão no local e a entrada dos seguranças. O conto marca uma espécie de alternância do realismo com um potencial surrealismo, característica do estilo de Ellison, que evidencia a solidão do protagonista em uma sociedade na qual é ignorado pelos brancos e criticado pelos negros.

"A mulher na sua frente comia um amendoim torrado que cheirava tão bem que ele mal conseguia segurar a fome. Ele nem pestanejava, só queria que se apressassem e começassem o bingo. Ali, à sua direita, dois sujeitos bebiam vinho numa garrafa dentro dum saco de papel, e ele ouvia um gorgolejar suave no escuro. Seu estômago roncou baixinho, dando aquele engulho feito nó. Se estivesse no Sul, ele pensou, só precisaria inclinar-se e dizer: 'Moça, a senhorita poderia me ceder alguns desses amendoins, por favor?', ela entregaria o saquinho e esqueceria de pensar naquilo até nunca mais. Ou poderia, da mesma forma, pedir um gole daquela birita pros carinhas. O povo lá das bandas do Sul era muito unido por conta disso; lá não precisavam nem saber quem era você. Mas aqui em cima era diferente. Peça alguma coisa a qualquer um e logo imaginam que você é um maluco. Bom, maluco eu não sou. Eu só tô meio quebrado porque não tenho documentos pra conseguir um trampo, e Laura tá prestes a morrer porque a gente não tem grana pro médico. Mas eu não sou maluco. [...]" (pp. 163-4) - Trecho do conto O rei do bingo

Já em Voando para casa, um dos contos mais complexos e simbólicos, o protagonista é Todd, um jovem negro cujo sonho de se tornar piloto parece ter terminado quando sofre um acidente com seu avião ao colidir com um urubu em um vôo de treinamento. Ele está seriamente ferido, mas só consegue pensar que o pouso forçado significa que não terá outra chance de voar e, em sua opinião, se tornará um homem negro comum como o velho Jefferson que tenta resgatá-lo. Apesar da hostilidade do jovem ferido, Jefferson conta uma história para ajudá-lo a suportar a chegada do médico, na qual é expulso do paraíso e perde suas asas por voar rápido demais, sendo enviado de volta à terra com um paraquedas e um mapa do Alabama. O conto foi inspirado no grupo de pilotos negros da Segunda Guerra Mundial que treinaram no Instituto Tuskegee, nas imediações da cidade do mesmo nome no Alabama.

"A primeira vez que vi um avião, eu era muito pequeno e aviões eram novidades no mundo. Eu tinha quatro anos e meio, o único avião que já tinha visto era um modelo suspenso no teto da exposição de automóveis da feira estadual. Mas eu nem sabia que era só um modelo. Eu não sabia o quão grande era um avião de verdade, nem o quão caro. Pra mim era um brinquedo fascinante, com tudo que tem direito, no que minha mãe me dizia que pra ter um, só se eu fosse um garotinho branco e rico. Fiquei estupefato de admiração, com a cabeça inclinada pra trás, enquanto observava o pequeno avião cinza traçando arcos acima dos automóveis reluzentes. Jurei que, rico ou pobre, um dia eu ia ter um brinquedo daqueles. Minha mãe teve que me arrastar para fora da exposição, e nem mesmo o carrossel, a roda gigante ou os cavalos de corrida conseguiram prender minha atenção pelo resto da feira. Eu estava muito ocupado imitando o pequeno zunido do avião com a boca e fingindo, com minhas mãos, o movimento rápido e circular que aquilo fazia durante o voo." (p. 227) - Trecho do conto Voando para casa

Literatura Norte-americana
Sobre o autor: Ralph Ellison (1914–1994) foi um romancista estadunidense nascido na cidade de Oklahoma. Neto de escravizados e filho de empregada, perdeu o pai logo cedo. Na juventude, estudou música clássica e era apaixonado por jazz, mas, contrariando seus planos iniciais, não se tornou músico. Em 1936, foi para Nova York e ingressou em um programa para escritores financiado pelo governo; em pouco tempo, passou a ser publicado em jornais e revistas. Com o início da Segunda Guerra Mundial, foi admitido na marinha mercante, trabalhando como cozinheiro. Nesse período, idealizou Homem invisível, que foi escrito após a guerra e com o qual recebeu o Prêmio Pulitzer. 

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