Enrique Vila-Matas - Suicídios Exemplares

Literatura Espanhola
Enrique Vila-Matas - Suicídios Exemplares - Editora Cosac Naify - 205 páginas - Tradução Carla Branco - Publicação 2009 (lançamento original 1991).

É preciso coragem para publicar um livro de contos com o título de "Suicídios Exemplares", mesmo se tratando de contos onde os protagonistas nunca conseguem ser bem sucedidos em suas intenções suicidas e a maioria das situações seja francamente cômica. O espanhol Enrique VIla-Matas acabou, paradoxalmente, escrevendo uma apologia à vida como ele mesmo declarou em entrevista por ocasião do lançamento da Cosac Naify: "Tinha medo que fosse um livro que conduzisse ao suicídio, e temia até mesmo ser acusado judicialmente por incitar as pessoas a tirar a vida com as próprias mãos. Mas aconteceu o contrário. Comecei a receber cartas de leitores que eram suicidas em potencial, e que adiaram a decisão de se matar depois de terem lido o livro e terem caído na risada com algumas das histórias, ou com alguns dos finais dessas histórias."

Colocados os esclarecimentos iniciais acima, ou seja, que não estamos tratando de um manual para suicidas ou fazendo a apologia do suicídio, como pensaram alguns preocupados amigos ao me verem circulando com este volume, vale ressaltar a imaginação e a prosa com sabor surrealista de Enrique Vila-Matas. Seus contos são atemporais e nunca sabemos exatamente onde ou como irão terminar, sendo a leitura sempre uma surpresa e normalmente pautada pela ironia. A própria literatura é sempre um pano de fundo de seus contos, desde o conto-introdução que cita Fernando Pessoa ("Viajar, perder países") até o derradeiro capítulo que reproduz um trecho da carta de despedida de Mario de Sá-Carneiro para o mesmo Pessoa, passando por Herman Melville, Walter Benjamin e Sêneca, entre outros mais ou menos explícitos.

A orelha desta edição é assinada pelo escritor argentino Alan Pauls que elimina qualquer necessidade de uma resenha, resumindo este livro de maneira perfeita: "De fato, só são exemplares – ou seja: dignos de serem narrados – os suicídios impossíveis, os indefinidamente adiados, os mal-sucedidos, os esquecidos. Na verdade, o que se revela a Vila-Matas é a ideia do suicídio, ou melhor: sua possibilidade, essa faísca de mistério regozijante com a qual o projeto de um morrer original, ou tortuoso, ou sofisticado, ou cruel, acende uma vida apagada e a faz reviver, tornando-a tensa de energia, excepcional, apaixonante, como a corda de aço de onde os equilibristas nos fazem perder o fôlego."

Comentários

Mi Müller disse…
Báh só o título já me levaria a pesquisar mais sobre o livro, mas teu texto me deixou com vontade de ler o livro agora :)
Acredito que vou adorar esta narrativa.
estrelinhas coloridas...
Iêda disse…
Eu também fiquei morrendo de vontade de ler o livro. Já está na minha lista.
Abraços,
Iêda
Djabal disse…
“Viajo para conhecer minha geografia”, escreveu um louco, no começo do século, nos muros de um manicômio francês. E isso me leva a pensar em Pessoa (“Viajar, perder países”) e a parafraseá-lo: Viajar, perder suicídios; perdê-los todos."

Tomei a liberdade de pegar um belo trecho para ilustrar, alargando a sua resenha, já que melhor é impossível. Abraços e obrigado.
Alex disse…
Como disse Mi Müller, somente o título do livro já é suficiente para aguçar nossa curiosidade, afinal, esse tema ainda é um grande tabu. E realmente, os títulos que passam pelo “Mundo de Cá” da cultura, da arte, da literatura... Merecem ser lidos. Mais uma vez obrigado pela dica, Kovacs.

Abraços.
Raquel disse…
Oi. Indiquei você para o Selo Prêmio Sunshine Award. Passa lá no Reflexos para ver. Abraços. :o)
Cláudia Charão disse…
Esse já estava na minha lista por indicação, essa é a 1ª resenha que leio sobre ele, fiquei com ainda mais vontade.
Eu tive o mesmo "problema" de julgarem o assunto quando comprei o livro - Quando a noite cai - Entendendo o suícidio, esse é tecnico - foca nas pessoas que perderam alguém assim, aproveitei bastante a leitura afinal é um assunto que ninguém quer conversar.
Bento Moura disse…
Oi K,
(Adoro esta sonoridade, dá uma idéia de junto, ao lado...)

Se me permite, adoro a idéia de suicído. Claro, enquanto idéia e fomento, enquanto prêambulo de uma ação. Ou ponto de inflexão. Creio que seja o momento da berlinda, a areia que despenca sob o pé no precipício, o vento que roça antes da queda. E portanto, como força propulsora face o viver.

Acho que Hervé Guibert comentou de uma forma muito lúcida e cáustica a respeito (entre tantos outros autores), em "Protocolo da Compaixão" ou em "Para o amigo que não me salvou a vida"... quando ele se perguntava o que faria, depois de ter tomado um remédio tal e enquanto a morte não chegava... Se pensaria sobre a vida, se se masturbaria, mas e se o telefone tocasse? ... Etc.

O que me chama muito a atenção sobre este assunto é uma determinada questão e patente em vários testemunhos de suicidas (nem tão exemplares assim), é que o desejo original não é dar cabo da vida, mas exterminar aspectos que atormentam suas existências. E por não o conseguirem só vislumbram tal opção.

Certo, não li o livro e sei que você não está aventando a temática. Eu tomei a liberdade de falar porque sou intrometido mesmo (perdoe-me)... Da mesma forma que a idéia da loucura especificamente quando vinculada a arte tem sua aura digamos romântica, o suicídio também assim o é.

Então, teoricamente seduz e até nos dá uma idéia de poder sobre a vida, quando podemos disecernir se ela é ou não satisfatória. Mas o mais cruel é que, ao executar a bendita coisa - S - (digamos assim), não se pode e não se tem a oportunidade de continuar a existência num outro patamar do viver. Claro, é estranho dizer isso, porque se alguém deseja o auto-extermínio não pretenderia nenhuma forma de continuidade [mas aí é outra discussão] . Mas voltando aos bugalhos...

Pensando suicído e loucura não como forma de aniquilação mas talvez tangenciamento da vida. Certo, aí você me diria que S. seria fruto de uma escolha, enquanto a loucura algo externo e independente de vontade própria [não estou falando clinicamente].

Assim, e para não te cansar mais ainda, falo sobre essa coisa do que seria exemplar: do libelo da vida, do halo que não se sabe donde provém mesmo e apesar das chamas feéricas que incendiam o ser, Mmas são capazes de impulsionar a vida até o instante seguinte - passo por passo, suspiro por suspiro. Porque, sem dúvida alguma, é catastrófico para os que partem e atroz para suas famílias.

Ademais, a mais veemente negação não deixa de ser igualmente, uma potente afirmação - ainda que às avessas.
Kovacs disse…
Mi, Ótimo adoro quando consigo motivar uma leitura, ainda não conheço bem o seu gosto, mas acredito que você irá gostar. Obrigado mais uma vez pela citação e comentário gentil lá no seu Bibliophile.
Kovacs disse…
Iêda, quanto tempo que não aparecia por aqui, fiquei contente com a visita!
Kovacs disse…
Caro Djabal, Por muito pouco mesmo não postei esta citação completa como você bem comentou. Difícil escolher uns poucos destaques deste livro.
Tais Luso disse…
O título não deixa de ser hilário... E deu vontade de ler.
Olhe só como o título é importante... Esse, aguçou a minha curiosidade. Vou procurar.

Grande abraço.
Kovacs disse…
Alex, um tema cercado de tabu, preconceito e medo. O autor se saiu muito bem com este desafio. Obrigado pelo comentário.
Kovacs disse…
Raquel, muito obrigado vou lá no seu blog para conhecer o prêmio.
Kovacs disse…
Claudia, obrigado pela visita e seja muito bem-vinda por aqui. O tema do suicídio é muito difícil e geralmente ninguém quer conversar ou escrever sobre. Não conhecia o livro que você citou, vou me informar.
Kovacs disse…
Bento, obrigado pelo comentário abrangente e que abordou vários aspectos deste tema (fuga, continuidade, a dor de quem fica, romantismo na arte). Eu acrescentaria um ponto ainda não levantado nos comentários: o lento suicídio de viver quando abandonamos os nossos próprios sonhos.

Curioso você mencionar o vento, o autor também utiliza esta imagem em algumas partes do texto (o vento antes do salto). Obrigado pela participação importante!
Kovacs disse…
Tais, você tem razão acho que o título e também os primeiros parágrafos são importantíssimos para o sucesso do livro.
Gerana Damulakis disse…
Gostei muito dos contos de Suicídios Exemplares, ainda que não seja o melhor Enrique Vila-Matas. Valeu a pena, qualquer livro dele vale a leitura.
myra disse…
eu tbem como diz Mi Muller com este titulo iria ler imediatamente!
obrigada pelo comentario no blog de meu irmao, ja la te respondi...um abraço,nao vim antes pqe hoje nao estive mto bem...
Kovacs disse…
Gerana, fiquei com vontade de conhecer outros livros dele, pois esta foi a minha estréia com Enrique Vila-Matas.
Kovacs disse…
Myra, obrigado pela visita e espero que o clima esteja mais ameno agora na Itália.
Gerana Damulakis disse…
K: eu li todos e minha dica (isso é muito pessoal) é A viagem vertical, uma história que me envolveu.
Mas, Bartleby e companhia é uma ótima idéia, dialoga com Bartleby, o escrivão, de Herman Melville.
O mal de Montano e Paris não tem fim são ótimos.
O mais recente, Doutor Pasavento, foi o que menos gostei; claro, há o estilo do autor, contudo, talvez ele tenha perdido a hora de parar.
Kovacs disse…
Gerana, acho que o próximo será: "Bartleby e companhia" pela admiração que tenho por Herman Melville. Obrigado pelas dicas!
.raphael. disse…
Este foi um dos melhores livro que li este ano! E foi o primeiro do Vila-Matas! Grata surpresa pra mim!

abs
Kovacs disse…
Raphael, também fiquei bem impressionado com o estilo de Enrique Vila-Matas. Obrigado pela visita e seja bem-vindo no Mundo de K.
olá meu caro, como vais?
concordo contigo.
vila-matas é mesmo um grande autor e seus livros instigantes (eu tenho uma queda na verdade pelos livros do javier marías, mas esta é outra história).
vou acompanhar teus posts.
vamos manter contato.
um abraço
aguinaldo
Kovacs disse…
Aguinaldo, obrigado pelo comentário!
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