André Nigri - Paralisia

Literatura brasileira contemporânea
André Nigri - Paralisia - Editora Reformatório - 184 Páginas - Design e editoração eletrônica: Negrito Produção Editorial - Lançamento: 2018

O escritor e jornalista mineiro André Nigri marca a sua estreia na literatura com Paralisia, um romance forte, com múltiplas técnicas narrativas e um texto que vai direto ao ponto, sem retoques. Solidão e sofrimento são as matérias-primas trabalhadas pelo autor a partir da história de vida do protagonista Jofre Monteiro, que chega à meia idade com contradições e fragilidades, acumulando fracassos e casamentos, em um estado permanente de paralisia moral. 

Filho único de um advogado de forte personalidade, que fez fortuna ao defender políticos e empresários corruptos, e uma mãe ausente, Jofre, desde cedo, aprendeu a conviver com a infelicidade matrimonial dos pais e herdou uma fortuna que o ajudou a manter a sua postura de imobilidade, uma pessoa que se deixou levar pela vida, sem dar continuidade a qualquer projeto ou carreira profissional, "amputado de vontade" conforme definição da sua primeira mulher. Após o final de mais um casamento, uma crise existencial é agravada pela crescente dependência do álcool.

O livro é dividido em quatro partes, cada uma composta por uma técnica narrativa diferente. Na parte inicial, o autor explora um recurso pouco usual, mas eficiente, por meio de um discurso narrativo em segunda pessoa e da repetição do pronome pessoal "você"; uma fórmula que se revela adequada para descrever de perto o estado de transtorno mental do protagonista após o final do terceiro casamento. Ao analisar o inventário de suas derrotas, Jofre Monteiro entra em rota de autodestruição, em um processo impulsionado pelo álcool. Neste momento, conhece uma garota de programa e sua filha de cinco anos, uma chance de rompimento com o passado e uma nova perspectiva de futuro para a improvável família.
"À noite, exausto de tanta autocomiseração e encorajado por três copos de conhaque, você escolhe em um site de acompanhantes de luxo, pelo qual você pagou com seu cartão de crédito para ter acesso, uma mulher chamada Kali. Você não gosta dos seios fartos dela, certamente silicone, mas fica curioso para tocá-los, e o conjunto, nas quatro fotografias disponíveis, é atraente. Paga pelo serviço completo: oral, vaginal, anal. O michê aumenta porque você a quer por três horas. Há uma observação frisada em vermelho na página de Kali: 'Não aceito violência'" (Pág. 13)
A segunda parte da narrativa apresenta um intervalo na continuidade do romance para apresentação de fatos do passado de Jofre que ajudaram, ou melhor, prejudicaram a sua formação, levando-o até o colapso emocional no qual o encontramos no início do livro. O leitor fica sabendo da existência de uma amante na vida do pai, Santiago Monteiro, por meio de seu diário, assim como o desprezo pelo próprio filho, que considerava um fraco; o segredo de um amor adolescente no passado da mãe, Clarice, em relato que ela faz à empregada e, principalmente, depoimentos das ex-mulheres de Jofre que explicam as separações.

Na terceira parte, após um salto de dez anos, encontramos Jofre em um relacionamento estável com Míriam/Kali, a ex-garota de programa e sua filha Lisa, agora com quinze anos. Eles vivem em um sítio, isolados da cidade e gerenciando um hotel para cachorros. A paralisia moral do protagonista não deixa de ser também uma espécie de representação da sociedade brasileira, perplexa com a violência e decadência do Estado, decorrente das desigualdades sociais que testemunhamos em todo o país, exceto em alguns condomínios luxuosos e áreas pretensamente protegidas. A opção deles de se isolarem no sítio foi decorrente da necessidade de fugir do passado, mas também um afastamento dos grandes centros urbanos em busca de uma existência centrada em valores mais básicos.
"Medo por toda parte, pensa Jofre. As cidades de seu país transformaram-se em praças de guerra, em terra de ninguém. O país afundou e os que podem vão embora ou se entocam em condomínios de segurança máxima, como esse. No entorno desses condomínios há bairros pobres, casas de tijolos aparentes amontoadas em ruas sem calçamento, onde jovens se agrupam em frente a bares, bebendo, drogando-se, driblando o tempo, suportando como podem a ausência de horizontes. São desses entornos sem saneamento e de iluminação pública precária que saem os empregados das mansões do bunker, os jardineiros que cortam a grama e embelezam os jardins, os pedreiros que consertam os telhados, os tetos de vidro. Há lareiras em muitas casas também, embora o clima tropical prevaleça durante todo o ano, inclusive no inverno. Um micro-ônibus circula dentro do condomínio, depositando a mão de obra. Não há roubos nem outros crimes. O índice de violência ali dentro é igual ao de uma cidade suíça." (Pág. 98)
Contudo, Jofre percebe que "ninguém vive sem cercas" e ele, de alguma forma, precisará defender o seu modelo utópico de vida e preservar a família conquistada das ameaças de todo tipo do mundo exterior. Na última parte do livro, a narrativa passa a ser feita pela filha adotiva, Lisa, em seu diário de adolescente. O carinho que Jofre aprendeu a sentir por ela representa, talvez, a esperança de um novo recomeço.

Um romance com muitas referências literárias, a começar pela ótima escolha das epígrafes que abrem cada parte, uma verdadeira seleção de autores: Vladimir Nabokov, J.M. Coetzee, Orhan Pamuk e Salman Rushdie. No decorrer do romance, passagens com citações de Franz Kafka (conto: Um Artista da Fome) e Amós Oz (romance: A Caixa Preta).

André Nigri nasceu em 1968, em Belo Horizonte. Escritor e jornalista com passagens pelo jornal O Tempo (BH), Jornal da Tarde (SP) e Revista Bravo!, publicou, em coautoria com Flávio Moura, Se o senhor não tá lembrado, biografia de Adoniran Barbosa (Editora Boitempo, 2002). Este é seu primeiro romance, vale a pena conhecê-lo.
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