Marcelino Freire - Bagageiro

Literatura brasileira contemporânea
Marcelino Freire - Bagageiro - Editora José Olympio - 160 Páginas - Projeto gráfico e capa: Thereza Almeida - Lançamento: 24/09/2018.

Com o pernambucano Marcelino Freire, a literatura se aproxima da linguagem das ruas e ganha ares de irreverência; normalmente o seu tom bem-humorado é um contraponto aos temas difíceis abordados em seus textos, que refletem a violência urbana e a injustiça social em um Brasil que muitas vezes não queremos ou fingimos não ver. Marcelino, já acostumado aos prêmios literários (Jabuti em 2006 com Contos negreiros e Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional em 2014 para o seu primeiro romance Nossos ossos), não abre mão da força e autenticidade do seu estilo, afastando-se da "palavra que põe gravata", mas sempre com a poesia ao seu lado.

Bagageiro prende a atenção do leitor desde o texto de apresentação da orelha, escrita por ninguém menos do que... Marcelino Freire, o próprio! O autor já vai mostrando, antes mesmo do livro começar, a sua habilidade no uso da escrita criativa, um termo já desgastado na literatura contemporânea, mas que ilustra muito bem o que aguarda o leitor pela frente: "A pior orelha é aquela que quer aparecer mais do que o escritor. Eu sempre escrevo orelhas assim quando me convidam. Por isso, não me convidem mais. Eu não sei escrever orelhas." Por sinal, Marcelino Freire, que foi aluno de Raimundo Carrero, já coordena concorridas oficinas literárias há muitos anos, além de ser um combativo agitador cultural.

O livro é formado por uma coleção de ensaios sobre os mais variados temas. Contudo, ensaio não seria a melhor definição para os textos que se apresentam como contos, pensamentos, citações, poesias, ou todas as opções misturadas. Como Marcelino explica: "bagageiro, no Recife, é onde a gente leva tudo, de carona, em cima da bicicleta. Botijão de gás, criança, bomba atômica." Assim, em alta velocidade (o problema do livro é que acaba muito rápido) e sempre admirados com o artesanato que o autor faz da palavra, somos surpreendidos em cada página. O trecho abaixo, que ilustra tão bem o estilo direto e ao mesmo tempo lírico do autor, é um destaque do "Ensaio inicial sobre a poesia", onde uma mulher se define como poeta.
"Acho lindo recordar os antigos momentos. Mesmo com sofrimento e poucas garantias. Sou poeta porque sei traduzir as injustiças. A saber: olhar na cara de qualquer jumento e absorver o que ele está dizendo. Eu aprofundo. Escrevo para aprofundar. A palavra me deu unha. E não falo, assim, de poder. Da palavra que põe gravata, não é nada disso o que eu quero dizer. Digo da palavra que me põe de pé, deu para entender? E me põe de cabeça forte. E o pensamento solto que ninguém domina."
"Poesia ruim é aquela que fica esperando o leitor chegar", uma série de máximas como esta, "sobre a escrita, a reescrita, a crítica, o país, o mundo, a vida literária. E não literária" estão agrupadas nos "Ensaios de ficção", como é típico da generosidade de Marcelino Freire vários escritores clássicos e também colegas contemporâneos inspiraram algumas delas e são citados. Lembrando sempre que: "Se um leitor parar para olhar a toda hora o número da página em que está, o escritor terá fracassado.", ou o conselho que o próprio autor pratica com maestria: "Só escreva com palavras que você consiga vestir. E sair com elas à rua."

Um dos melhores ensaios, no caso um conto, é inspirado nas recordações de um filho sobre a mãe que trabalhava na máquina de costura, chama-se "Ensaio sobre a prosa" e a precisão com que cada palavra vai sendo escolhida e costurada, compondo o ritmo da obra literária é uma bela demonstração de escrita (criativa ou seja lá que nome for), só um trecho é pouco para perceber a beleza da construção, mas o que fazer se tenho somente o espaço de uma resenha.
"O que eu gostava descobri ali, alavancando as engrenagens, mexendo na caixa de bobina, na ausência da mulher que trabalhava, incansável, entre carretéis e linhas. O que eu gostava não era do seu ziguezagueado e do desalento em mexer, corpulenta, a minha calça de escola, destruída, o uniforme disforme que eu trazia para infinito franzido e enredamento, menino, tu, desgraça, tá mais para um tatu, saído esfolado, do fundo da terra, tão sujo igual carvão, piolho de cobra, do mesmo modo que uma unha de gato."
Acho que a melhor epígrafe para este livro seria do próprio Marcelino Freire, qual o problema, afinal ele já não escreveu até mesmo a orelha? Vejam só que beleza ficaria no centro da página branca:  "Juro que tudo o que eu escrevo é verdadeiro. O mentiroso sou eu." Não é tudo o que pode haver de mais importante na literatura? Ser verdadeiro e mentiroso, só nos resta aprender com o Marcelino, eita escritor arretado!
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