Nuno Rau - Mecânica Aplicada

Poesia brasileira contemporânea
Nuno Rau - Mecânica Aplicada - Editora Patuá - 150 Páginas - Projeto Gráfico, capa e design: Pepe Donato e Italo Freitas - Lançamento: 2017.

O carioca Nuno Rau é um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2018, categoria Poesia, com esta coletânea de poemas, Mecânica Aplicada, que insinua no título e na capa uma improvável conexão entre a cultura e a máquina. Bem, posso garantir, por experiência própria, que engenheiros e arquitetos não são insensíveis ao apelo da arte e que também ocorre muitas vezes da poesia se inspirar nas ciências exatas, mesmo que seja para subverter os mecanismos da realidade e encontrar um sentido – por meio da subjetividade da palavra – que justifique a existência do homem no mundo.

Como Nuno Rau destaca na sua apresentação e nas epígrafes, o grande tema da Máquina do Mundo é recorrente em muitas obras na literatura, de Luís Vaz de Camões até Carlos Drummond de Andrade e, continuando de forma despretensiosa (como bom poeta), o autor explica o seu falso método de conversão que oculta um objetivo bem subversivo, como é a responsabilidade de todo artista que vê além das engrenagens: "aqui não se deseja mais do que arriscar uma mecânica aplicada, um aperto dos parafusos mais visíveis, a regulagem das velas, a verificação do nível de água no sistema de refrigeração do motor – ajustes que visam à subversão da máquina, claro, como se poderá ler." 

Na primeira parte, "subversio machinae (manual)", os poemas se inspiram na tecnologia e o poeta atua como uma espécie de hacker, ótima definição do também poeta Alexandre Guarnieri no posfácio dessa edição. Os títulos dos poemas incluídos nesta seção são uma prova flagrante da intenção do autor de entrar no sistema e entendê-lo a partir de dentro: tutorial, touch screen, firewall, rede, touch pad, pay-per-view, r.a.m., trilhas, reset/lyserg, looping sufi, r.e.m. e manual técnico da dispersão. O poema de abertura do livro, tutorial, que destaquei abaixo, já deixa claro: "é preciso quebrar os espelhos", mesmo que seja "cortando os pulsos":

tutorial
não é um espelho o mundo, nem
moído, cerol
colado na meada
dos dias que se desenrolam com a goma
do espanto, isso
que arranha sua pele, arranca a pátina
dos gestos, fatia
o real em lâminas, películas
projetadas sobre um fundo áspero, árido,
turvo, se você
descreve lentamente ao longo de uma órbita
marginal palavras que não limpam
a barra do mundo, ele não é
um espelho, nem
moído, sua farofa
seca servida na ração
diária, não é mesmo qualquer coisa em que você
se reconheça, meu chapa, por isso
escreva num livro
o inventário de técnicas
para quebrar os espelhos, agredir
os espelhos violentamente, mesmo cortando
os punhos, os pulsos, erradicar
os artefatos
da ilusão.

Já na segunda parte, "fenomenologia dos materiais", uma visão do cotidiano nas grandes cidades como em "sábado em Copacabana" (talvez só quem more em Copacabana entenda a beleza deste poema), "o que é a poesia?" e "boletim de ocorrência". Fico com o épico "cinco ou seis maneiras de se perder na cidade" com o seu tom de universalidade e atemporalidade que vai se espalhando em verso livre, enquanto passamos pelo Livro dos Espíritos e o Breviário das Horas em busca de uma chave.

cinco ou seis maneiras de se perder na cidade
você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
morta cujo último
verso esconde uma
chave As outras não
interessam


Na parte final, "mecânica aplicada", o uso da construção em forma de sonetos nos mostra como não deve haver limites para a poesia em suas múltiplas expressões, mesmo utilizando o rigor das técnicas clássicas  e por que não? Nesta seção o retorno ao tema principal, a subversão da máquina: "mecânica aplicada ao obscuro trabalho do motor, sua falência calculada pelos versos, areia no engenho, vidro moído na veia."

epílogo [moto perpétuo]
capturado o metro mais exato
que peregrina por quatorze versos
linha por linha como se num terço
rezasse a um Dionísio estupefato
diante do que pode ser um pacto
com o anjo decaído mais perverso
que fez da forma fixa o endereço
da sede que não cessa e do seu rapto
do sentido que leva ao infinito
motor que nasce em mim e recomeça
no verso quinze o um de um novo ciclo
gerando ao fim a dúvida concreta:
"um dia estes sonetos reunidos
vão ser as suas prosas incompletas?"

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmagens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix e super-heróis de gibi, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia Poemáquina. É um dos editores da revista eletrônica mallarmagens.com. Mecânica Aplicada é o seu primeiro livro, selecionado como finalista da categoria Poesia da 60° edição do Prêmio Jabuti.
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