Alex Andrade - Para os que ficam

Literatura brasileira contemporânea
Alex Andrade - Para os que ficam - Editora Confraria do Vento - 160 Páginas - Projeto gráfico: Pranayama Design, Rosana Almendares - Lançamento: 2022.

O mais recente lançamento de Alex Andrade é um romance narrado em primeira pessoa por Ana, uma protagonista pouco confiável que cuida do pai com Alzheimer em meio aos escombros de sua vida pessoal: "Eu tenho quarenta e sete anos, e, se eu tiver sorte, sobrevivo como quem emerge de um mergulho malsucedido, se o mundo me permitir, onde quer que eu esteja, com as cores que o cenário apresentar, mesmo nos sonhos, mesmo que embriagada, ainda tragando a fumaça do cigarro para não embaçar a visão, talvez eu mereça, talvez o mundo conspire. Uma vez meu pai me disse que mergulhar era a solução para entender o desconhecido. Foi desse jeito que ele me lançou no mar."

Na rotina claustrofóbica do apartamento, onde convive sozinha com o pai doente, Ana relembra os relacionamentos familiares do passado com o ex-marido Jota, alcoólatra como ela própria, e também a difícil convivência com os dois irmãos, Mauro e Luciano, durante a infância e adolescência. O autor conduz a trama com muita habilidade ao induzir emoções contraditórias no leitor que percebe aos poucos como a protagonista é, ao mesmo tempo, vítima dos abusos e fantasmas do passado, mas também responsável por suas escolhas ao longo da vida, escolhas que a levaram à situação de solidão e desespero na qual se encontra no presente.

"Olho para o velho sentado no lado direito do sofá, ora mantém-se calmo, ora inquieto. No auge dos seus noventa e quatro anos, meu pai resiste duramente ao tempo. Fico de longe analisando, ele esfrega as mãos, fica imóvel por um átimo de segundo, cutuca com as unhas a perna, funga, remexe o quadril para se realocar no sofá. Em alguns instantes tenho que lhe entregar os comprimidos, o copo d'água, e um guardanapo para secar as mãos. Às vezes o vejo levantar-se e ir em direção à janela. Não dura muito tempo observando a rua, acho que não há nada lá fora que o interesse mais, volta ao sofá. Faz sete ou oito anos que papai se perdeu. Ouvi um gemido da sala, larguei a louça encharcada de sabão na pia, ainda tive tempo de escutar a louça de espatifando umas com as outras, e corri para o sofá. Seu olhar não dizia mais nada, acho que não conseguia ver o que tinha pela frente. O amparei contra meu peito, enquanto sua voz enfraquecida só ressonava. 'Jota, meu amor', disse ao telefone, 'corre aqui em casa, meu pai saiu do ar.' (p. 17)

Uma das passagens mais fortes do romance, e que demonstra muito bem a crueldade da convivência com um parente próximo que sofre de Alzheimer, é quando o pai sem qualquer motivo tranca a filha no banheiro durante o banho e ela sofre uma crise de ansiedade, imaginando o que possa estar ocorrendo do lado de fora: "Como ele teve discernimento de me trancar no banheiro? Olhei ao redor, a infância se foi, os sonhos se esvaziaram, algo em mim tomou uma forma, uma realidade, dura realidade, estava aprendendo pouco a pouco a lidar com as consequências do que foi vivido e experimentado. Digo que, entre mortos e feridos, ainda assim, havia uma sobrevida, o dia seguinte."

"Mas eu e Jota bebíamos juntos, muito, ríamos juntos, nos divertíamos e brigávamos, noites e noites insones perambulando pela casa, entre fritar batatas fritas e hambúrgueres de angus recheados com queijo Emmental ou acender cigarros intermináveis, conversas desconexas, papos de bebum que variavam entre gritos e pontapés no calor da emoção e da bebida. 'Vagabunda!', ele gritou uma vez, ameaçando lançar a garrafa de cerveja na minha direção porque havia deixado a carne do sanduíche queimar mais do que de costume. 'Você sabe que eu detesto carne bem passada!', gritava mais alto para que os assobios e chiliques da vizinhança o tornassem mais violento do que estava, 'vão tomar no cu, seus merdas, vão dormir, eu estou com a minha mulher, vão se foder!'. E depois deitava na cama feito um defunto suado, um boi gordo cansado e encharcava o colchão com seu mijo ácido. 'Não vou deitar nessa poça de verme fedida', dizia enfurecida, arrumando peças de roupas para novamente enfrentar a tradição cruel de ser a filha mais velha e frágil, que ostenta o título de ser a primogênita alcoolizada." (p. 35)

O livro é também um romance de formação, uma vez que o amargo mergulho de Ana nos mostra como os traumas decorrentes da convivência familiar podem ser difíceis de lidar. Ela, a primogênita, sempre defensora do irmão mais novo e sensível, Luciano, das agressões de Mauro, que o humilhava e ofendia na infância, encoberto pela omissão dos pais; as agressões resultantes do permanente estado de embriaguez do ex-marido e, diga-se de passagem, dela própria; todos esses eventos moldaram a personalidade de Ana, mas é preciso cautela com a parcialidade (proposital) desta narrativa em primeira pessoa, uma inteligente opção do autor para explorar a complexidade da personagem.

"Eu tinha dez anos e muitos medos. Na escola os meninos mais velhos começavam a perceber o contorno do meu corpo começando a se desenhar. Tinham meninas que se desenvolviam muito mais rápido, de repente um par de seios desabrochava  bem abaixo do queixo, descontrolado. Os meninos, não. Demoravam a dar sinais de crescimento, e isso nos distanciava do resto do mundo, como uma rosa no deserto. Mauro despertou primeiro seu impulso perverso, mas, antes mesmo, libertou a sua malícia em lidar com a natureza das meninas, sem o menor pudor. Não sei bem o que despertou o gatilho, mas, dentro da mesma casa, onde a convivencia parecia normal, ainda assim, com o passar dos anos, foi se tornando um tormento. E era justamente comigo e com Luciano que ele descontava a sua ira. Pequenas perversidades domésticas. Quando não me trancava no banheiro e escondia a chave debaixo de algum móvel para que ninguém encontrasse, mesmo que meus pais insistissem e o ameaçassem de colocá-lo de castigo. [...]" (p. 94)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Alex Andrade é escritor e arte-educador, nascido no Rio de Janeiro. Publicou os livros de contos A suspeita da imperfeição, As horas, e, pela Confraria do Vento, Poema e Amores, truques e outras versões; os infantis O pequeno Hamlet, A galinha malcriada, A história do menino, A menina e a sapatilha e o menino e a chuteira e O Gigante; os romances Longe dos olhos e, também pela Confraria, Antes que Deus me esqueça (ler aqui resenha no Mundo de K). Tem contos publicados em diversas revistas e periódicos de literatura em inglês e espanhol. É um dos curadores dos textos do Prêmio literário do ensino fundamental do Rio de Janeiro.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Para os que ficam de Alex Andrade

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