Cícero Belmar - O livro das personagens esquecidas

Literatura brasileira contemporânea
Cícero Belmar - O livro das personagens esquecidas - Cepe Editora - 144 Páginas
Projeto gráfico e capa: Luiz Arrais - Lançamento: 2022.

O mais recente lançamento do pernambucano Cícero Belmar é uma coletânea de 25 contos, todos relacionados a algum aspecto da memória e do esquecimento. As narrativas refletem sobre o contexto político e social do nosso país em diferentes épocas e foram avaliadas por meio da leitura crítica do grupo de estudos e oficina permanente Atoajuda Literária, formado pelo autor e outros escritores do Recife como: Raimundo de Moraes, Gerusa Leal, Lúcia Moura (in memoriam) e Cleyton Cabral. O resultado é um conjunto consistente de contos em termos de temática e estilo, inspirados em pessoas comuns, histórias que nos fazem pensar sobre a vida e a passagem do tempo.

No conto de abertura, A ilha, a protagonista idosa pede à filha que a leve com urgência em uma viagem para rever a irmã depois de muitos anos de afastamento, pois percebe que já não tem muito tempo de lucidez devido à crueldade de uma doença degenerativa que apaga a sua memória aos poucos, um lento e doloroso processo de morte em vida, no qual é como se a sua consciência estivesse longe, inacessível, em uma ilha distante: "Na hora da viagem de volta, as duas se abraçaram. Despedir-se, ainda em vida, é o mesmo que abraçar a morte. Uma chorava, comovida. A outra, náufraga, parecia já ter seguido antes mesmo de o navio partir."

Contudo, em Ideias Perigosas, o conto trabalha com a ideia de que o esquecimento em alguns casos pode ser voluntário devido a uma exigência de segurança, como aconselha o pai preocupado ao filho que corre o risco de ser perseguido por envolvimento com comunistas, durante uma época de falta de liberdade de expressão política no país: "O problema, meu filho, é que estamos vivendo uns tempos em que o esquecimento é a regra número um para quem quer continuar vivo." Percebemos então como a memória e o esquecimento podem ser escolhas ditadas pela necessidade e que a capacidade de esquecer pode ser uma opção de sobrevivência.

"Naquele fim dos anos sessenta eu era pouco mais que um menino, morava em João Pessoa, uma cidade com ares interioranos. Meu pai, aflito, me esperava em casa. Soube que você foi à casa de Ramiro, levando Dante. É verdade? Você por acaso sabe o que se fala por aí desses dois comunistinhas safados? Não chegue nem perto! Nem perto! Você ouviu alguma conversa dos dois? O que eles disseram? O que você ouviu? Nada, pai, não ouvi nada. Apenas deixei os dois lá, falando que todo pobre é pobre porque quer. Filho, não faça amizade com esses dois, está me ouvindo? Não chegue nem perto desses homens. Esqueça Dante e Ramiro. Esqueça, pelo amor de Deus. Mas o que os vizinhos falam e que é tão grave sobre aqueles dois, pai? Qual é o problema? O problema, meu filho, é que estamos vivendo uns tempos em que o esquecimento é a regra número um para quem quer continuar vivo." (p. 34) - Trecho do conto Ideias perigosas

Sabemos também como a memória pode ser distorcida e recriada em função de algum interesse específico, como ocorre no bem-humorado Felicidade, no qual a personagem viúva gasta o seu tempo e dinheiro nos salões de dança da cidade, satisfazendo um desejo que nunca conseguiu atender com o marido. No entanto, para as amigas ela sempre tecia os maiores elogios para o falecido em vida o qual, segundo ela, a acordava com flores e música. Ela justifica a sua opção de uma memória que incorpora mentiras e variações de verdades: "No mais, estou convencida de que é melhor lembrar as ilusões do que sofrer de amnésia. Toda felicidade tem um preço." 

"Quando meu marido era vivo eu dizia às minhas amigas, este homem é tão delicado! Ele me acorda todos os dias de manhã ao som de uma valsa, às vezes Vozes da Primavera, às vezes Danúbio Azul. / Achando pouco, ainda contava mais: o meu marido me traz sempre, ainda na cama, um ramo de flores, rosas perfumadas, e frutas doces, deliciosas, numa bandeja, me chamando de querida. / As minhas amigas me ouviam caladas, respeitosas. Mas todas sabiam marido nenhum acorda a mulher assim. / Hoje, quando eu me lembro dele, são as minhas fantasias que eu recordo. Mas quem disse que a função do passado é exclusivamente recuperar as coisas que de fato ocorreram? As nossas lembranças, sejam boas ou não, também incorporam mentiras e variações de verdades. / No mais, estou convencida de que é melhor lembrar as ilusões do que sofrer de amnésia. Toda felicidade tem um preço." (pp. 56-7) - Trecho do conto Felicidade

Em alguns contos, como no excelente Fomos esquecidos por Deus, fica aparente a inspiração violenta dos noticiários policiais e Deus, conforme nos explica o protagonista, é o apelido de "um psicopata armado com um três oitão apontado para a minha cabeça". Todavia, é em Dente de ouro que um coveiro, ganhando um extra ao roubar dentes de ouro dos cadáveres, faz a declaração definitiva: "Tenho a consciência tranquila: ninguém leva dente de ouro para a eternidade. Até porque eternidade é uma coisa que ninguém tem prova de que existe. O que existe é um lugar nas nossas lembranças para a gente guardar a história das almas."

"Nem preciso me dar ao trabalho de abrir a boca deles. Os dentes já vejo quando retiro a tampa do caixão. Estão ali: a carne não existe mais, é só a pele ressecada, uma coisa murcha. Se têm dentes de ouro, eles brilham no meio dos ossos. Para cada dente de ouro que arranco dos defuntos já tenho comprador certo. Vendo por duzentos ou trezentos reais, depende do tamanho, do tipo do ouro. / Já desenterrei até esqueleto com cordão e medalhinha de ouro. Pra que morto vai querer ouro, se ele já entrou no rol dos esquecidos? As pessoas é que têm preconceito com minha profissão. Se eu digo que sou coveiro muita gente pula fora, se arrepia, fica com medo ou nojo de chegar perto de mim, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Doença quem teve foram os mortos que eu enterro e desenterro." (p. 97) - Trecho do conto Dente de ouro

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Cícero Belmar é escritor, dramaturgo e jornalista. Além de escrever livros para crianças e jovens, também é autor de contos, romances, biografias, crônicas e textos para teatro. Entre os romances que publicou estão Rossellini amou a pensão de dona Bombom e Umbilina e sua grande rival. Natural de Bodocó (PE), mora no Recife e é membro da Academia Pernambucana de Letras.

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