Rosângela Vieira Rocha - Invisíveis olhos violeta

Literatura brasileira contemporânea
Rosângela Vieira Rocha - Invisíveis olhos violeta - Ventania Editorial - 136 Páginas
Capa: Luiz Prates - Lançamento: 2022.

O mais recente lançamento de Rosângela Vieira Rocha é um romance que trata de um tema muito atual, contudo pouco desenvolvido na literatura e praticamente ignorado nos meios de comunicação em geral: as dificuldades de manter relacionamentos amorosos para as mulheres na terceira idade. Cibele, a protagonista de Invisíveis olhos violeta, é uma advogada divorciada em busca de parceiros na sua faixa etária, acima dos sessenta anos, que não pensem em se casar novamente, mas sim dispostos a manter uma relação afetiva compartilhada e confiável. Contudo, apesar da facilidade das redes sociais e farta disponibilidade dos sites de encontros, as suas experiências nesta área, narradas no romance com leveza e bom humor, conduzem-na para uma série de desencontros, normalmente devido à indecisão e insegurança dos homens.

As dificuldades amorosas de Cibele, uma mulher que sempre foi elogiada pela rara beleza dos grandes olhos violeta, são intercaladas no romance por lembranças de sua juventude e da relação com a mãe e a tia, assim como os problemas que o filho Ernesto precisa lidar com a nora para manter o seu casamento na atualidade. O olhar feminino sensível mas, ao mesmo tempo, objetivo em relação aos assuntos do amor, bem mais transparente do que a abordagem masculina, normalmente ambígua e insegura, norteia toda a narrativa, destacando a fragilidade do homem contemporâneo que, precisamos admitir, tem extrema dificuldade em permitir-se um relacionamento franco, disfarçando a sua imaturidade emocional com galanteios vagos e uma virilidade que normalmente já não domina nesta idade, apesar de não admitir francamente.

"Ah, os homens e sua insuportável obsessão pela ereção. Sua cegueira para tudo e para todos quando o assunto recai sobre os órgãos genitais: o tamanho já tinha visto crianças bem pequenas medindo e comparando, o desempenho, o número de ereções. Ela pensou que talvez residisse aí a chave para compreender o machismo, o ponto zero desse edifício erguido com tijolos de hipocrisia e cimento feito de egoísmo, autoritarismo e preconceito. Os homens e seus pênis, um capítulo que permeou a história do mundo. É como se nada importasse para eles, a humanidade perdesse valor, os sentimentos fossem inexistentes, especialmente os dos outros. A briga eterna com a fisiologia e a anatomia, o descompasso entre a importância atribuída ao assunto e a passagem do tempo. O poder que emana de um pedaço de carne e pele. Mas que poder é esse? Poder de quê? Para quê? Dominar o mudo com um pedaço de carne ereta?" (p. 21)

É bom que se diga que Cibele, depois de tantos desencontros, não atribui somente aos homens a responsabilidade pelo fracasso nos seus relacionamentos. Em certa passagem, ela comenta com uma amiga sobre o fato das mulheres, de diferentes classes sociais e níveis de educação diversos, estarem sempre priorizando o amor, "esse hábito meio suicida de valorizar o amor de maneira desmedida, essa necessidade de doação compulsiva"uma insistência que demonstra como, mesmo depois de adquirir a independência profissional e financeira, ainda estão submetidas a uma dependência emocional com relação aos homens e conclui como "Passou décadas estudando legislação, jurisprudência, examinando processos, redigindo petições, recursos preparando defesas orais. E ignora quase tudo de homens e mulheres reais, que trabalham, vão a supermercados, andam nas ruas, lotam os shoppings."

"Ciro, o professor de yoga, foi logo esclarecendo, no início do diálogo, que não buscava namoradas ou prováveis parceiras e seu interesse era apenas fazer amizades. O que levaria uma pessoa a ser assinante de um site de namoro só para ter amigas? Desconfiou dessa afirmação e do sntido atribuído por ele à palavra amiga. então resolveu questioná-lo. Posto contra a parede, o professor enveredou por um labirinto de respostas ambíguas e desconexas. Cibele se deu ao trabalho de pesquisar, tentando entender o que é yoga tântrica. Sua intuição alertou-a para a estranheza do recém-conhecido. Se tivesse refletido com mais calma, teria simplesmente se afastado, mas seguindo os instintos, escreveu que não estava interessada em amigos, já os tinha em número suficiente. Essa frase gerou uma sucessão de mal-entendidos que não foram esclarecidos e muito menos dissipados. Ela lhe disse que queria um namorado com determinadas características comportamentais e, se ele não se enquadrasse, nada feito." (p. 36)

Assim como outros livros da autora (Nenhum espelho reflete seu rosto e O coração pensa constantemente), este é um romance recomendado e difícil de interromper, que se lê de uma vez, obviamente indicado para leitores maduros por tratar desta difícil e controversa matéria para todos nós – homens e mulheres – que é saber envelhecer, mas certamente agradará aos leitores de todas as idades porque os temas são universais e narrados de forma leve e bem-humorada. Rosângela preparou um final surpreendente que explica o título mas, é claro, como é o dever de todo o resenhista, evito o spoiler e deixo o prazer da descoberta com vocês, depois me contem o que acharam.

"Cibele acha intrigante o hábito de alguns homens colocarem, no perfil dos aplicativos de relacionamento, fotos com outras mulheres. Examina cuidadosamente uma por uma dessas fotografias, pensando por que isso ocorre. O que os levaria a tal atitude, que lhe parece contraproducente e sem lógica? Que ideia de jerico, como diria Maria! Então um homem quer conquistar uma mulher estando ao lado de outra? Em vários casos, fica em dúvida se trata-se da ex-mulher ou de uma filha, pois nem sempre é possível perceber claramente a diferença de idade entre eles. Mesmo em se tratando de filha, para que usá-la como amuleto ou escudo de proteção? Seria por insegurança? Pensariam eles que as mulheres acham bonitinha a imagem de um pai tão amoroso? Ela vê isso como algo absolutamente surreal, que revela um desconhecimento completo das almas femininas. Decide perguntar a um deles, por quem sentiu leve simpatia, e a reação foi a pior possível. Ele respondeu de maus modos, na defensiva: é a minha filha, sagrada para mim – como se ela tivesse escrito algo impróprio. Nunca mais voltou a lhe escrever. Cibele ficou chocada." (p. 78)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília, DF. Tem quinze obras publicadas, oito para adultos (sete romances e um livro de contos) e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG - 1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das Pedras. É Mestre em Comunicação, escritora, advogada, jornalista e professora aposentada da FAC/UnB. Colunista da revista digital literária "Germina", foi membro de várias comissões julgadoras de concursos literários. Participa ativamente do Movimento Feminista Mulherio das Letras.

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