Airton Souza - Outono de carne estranha

Prêmio SESC de Literatura 2023 - Romance
Airton Souza - Outono de carne estranha - Editora Record - 176 Páginas - Capa de Leonardo Iaccarino sobre foto de Collart Hervé - Lançamento: 2023.

Romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2023, "Outono de carne estranha" tem como cenário a região de Serra Pelada, situada no sul do estado do Pará e que foi considerado o maior garimpo a céu aberto do mundo entre 1980 e 1983. Como ocorre nessas situações, a corrida do ouro atraiu milhares de garimpeiros em busca de enriquecimento rápido. O ambiente de trabalho era extremamente inseguro, principalmente para os "formigas" que subiam e desciam escadas improvisadas chamadas de “adeus mamãe” com sacos de até 35 kg de terra. Desmoronamentos e contaminações pelo ar, barro e mercúrio levaram à ocorrência de muitas mortes.

A prosa de Airton Souza, rica em lirismo e sonoridade, lida com fatos históricos e ficção para contar a história de Zuza e Manel, dois garimpeiros que mantêm uma relação homoafetiva não permitida pelas leis locais, e Zacarias, um padre que perdeu a fé e trocou a batina pela bateia. Os protagonistas tentam, a todo custo, "bamburrar", ou seja, encontrar uma grande quantidade de ouro. O autor surpreende pelo contraste entre as descrições ricas em imagens poéticas com cenas brutais de sexo e violência, típicas da região na qual os personagens tentam sobreviver com os corpos cobertos de "melechete", lama fina resultante da lavagem do cascalho, longe da família e abandonados por deus.

"Os dois homens, nuzinhos, trancados no único cômodo do barraco de Zuza, tentavam, de qualquer maneira, atravessar os fonemas das palavras bateia e bamburro, abraçadas, diariamente, às carnes deles. Zuza e Manel buscavam compreender os sentidos dos horizontes se distanciando dos igapós e de deus. No entanto, permaneciam em silêncio porque qualquer barulho poderia ser escutado pelos garimpeiros que dormiam nos barracos próximos. [...] Com o barraco iluminado apenas por uma lamparina, a meio metro de distância, era impossível distinguir um homem do outro. Nuzinhos, eles formavam uma coisa só. Parados, aparentavam ser um dos formigas carregando um saco atulhado de cascalho dependurado na cabeça. Ao se moverem, os dois machos elaboravam a figura de um garimpeiro com o corpo quase curvado, segurando firme uma picareta nas mãos e cavando sozinho, de maneira frenética, um barranco inteiro." (pp. 14-5)

A presença do Estado no garimpo se faz sentir pela repressão do marechal e seus capangas, chamados de "bate-paus", que controlam a lei e a ordem impedindo a presença de mulheres e bebida na região, assim como só permitindo a compra de mantimentos e ferramentas na cobal, um armazém local com preços superfaturados, quase o triplo dos mesmos produtos vendidos em Marabá. Nas palavras do marechal: "A vida é só um caminho para a morte." Resta aos garimpeiros sonhar com as pepitas de ouro não descobertas e gastar a pouca "bufunfa", resultante dos lucros semanais nos cabarés da região com cachaça e as raparigas, "Carne, pão e amor, amém", como na oração de Zuza que mistura o sagrado e o profano em seu barraco.

"Os garimpeiros, antes de chegarem a Serra Pelada, construíram a mesma imagem daquele lugar dentro de si. Nenhum deles, quando pisava nos primeiros centímetros de chão do garimpo, levava consigo qualquer tipo de remorso ou infelicidade. Àquela hora, estavam inteiramente entregues à esperança do bamburro. Imaginavam-se com pepitas de ouro nos dentes. A boroca cheia de bufunfa. Noitadas nos cabarés de Marabá. Comprar um chevrolet chevette vermelho. A carteirinha amarela com seu nome completo e fotografia. Quando pensavam nisso, o coração acelerava a ponto de quase sair pela boca. A língua salivava com menos frequência. Do nada, havia uns que sentiam até as mãos formigarem bem no meio delas. A maioria prendia a respiração por mais de um minuto quando entrava na estrada de chão que ligava o vilarejo de eldorado ao que tinha sido a fazenda três barras. Não importavam se seriam formigas ou meias-praças. Interessava mais era descer vivos do pau de arara, dentro do garimpo, com a boroca e os documentos em mãos. Conseguir a permissão de entrar e depois um barranco para trabalhar." (p. 35)

Manel e Zuza tentam encontrar alguma saída para a solidão e a desesperança em um resto de amor possível nas condições em que se encontram, enquanto o padre Zacarias se vê cada vez mais distante da fé e dos homens: "Umedecido de suor. Da cava. Da alienação dos seminários. Das rezas. Da devoção à igreja. Da ausência de deus. Das respostas das cartas. Do desejo de bamburrar. Da crença de terminar o próprio calvário longe daquela terra." Airton Souza descreve o sofrimento desses personagens em um belo exercício de literatura, nos mostrando um período da nossa história pouco conhecido e no qual o inferno ficou mais próximo da terra. 

"O padre Zacarias, desde a hora em que chegou ao cabaré, prometeu a si mesmo que entraria em um dos quartos com uma rapariga. Pediu uma antarctica. Encheu o copo até derramar. Bebeu todinho de um gole só. Do nada, as luzes embaçaram suas retinas. O gosto amargo da cerveja fê-lo querer cuspir. Antes de chegar ali, durante a viagem do quilômetro cem a Marabá, quando se lembrava de Serra Pelada, metia a mão no bolso e acariciava a bufunfa. Sabia quantas notas de cruzeiro havia lá dentro. A sequência das cédulas dobradinhas naquele maço. O apurado da semana consistia em trezentos e cinquenta e dois gramas de ouro extraído do barranco em que trabalhava. Imaginou sentir o cheiro de incenso quando pensava nos dez por cento do dízimo guardados no bolso de sua calça. O semblante todo impregnado pelas igrejas por onde pregou seus sermões. As unhas doloridas de acariciar os cascalhos." (p. 101)

Prêmio SESC Literatura 2023 - Romance
Sobre o autor: Airton Souza (Marabá/PA, 1982) é poeta, professor e pesquisador. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará, também se tornou mestre em Letras na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Já publicou 47 livros. Idealizou e coordena importantes projetos ligados ao livro, à leitura, às bibliotecas e às literaturas nas Amazônias, entre eles o Anuário da Poesia Paraense e o Prêmio Amazônia de Literatura. Venceu mais de cem prêmios literários, entre os quais os da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, da Academia Paraense de Letras, da Imprensa Oficial do Estado do Pará, da Fundação Cultural do Pará, o III Prêmio Ufes de Literatura e o Prêmio Literário Cidade de Manaus 2022, com o livro de poemas Horóscopo de batizar brumas contra a solidão das asas

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