Letícia Myrrha - Ichi go Ichi e

Crônicas de viagem
Letícia Myrrha - Ichi go Ichi e: Crônicas de uma brasileira no Japão - Editora Patuá - 188 Páginas - Capa e Projeto Gráfico: Roseli Vaz - Lançamento: 2021.

O brasileiro demonstra uma habilidade única na arte de escrever crônicas, um gênero que expressa o inusitado casamento do jornalismo com a literatura e se tornou muito popular em nosso país ao longo do tempo. Por outro lado, para os autores contemporâneos, é um desafio e tanto manter o nível de gerações passadas que criaram a tradição e um público leitor cativo, gênios como: Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Verissimo, para citar apenas alguns poucos nomes mais consagrados.

Letícia Myrrha nos apresenta uma seleção de crônicas com as suas impressões, sentimentos e experiências sobre o período de três anos em que viveu na cidade de Nagoya no Japão, juntamente com o marido Eduardo e duas crianças pequenas, Lis e Pedrinho. Como destacado pela autora na apresentação do livro, não se trata de um trabalho de antropologia sobre a sociedade japonesa, mas sim o resultado da vivência e adaptação, juntamente com a família, em um país que não existe nos guias de turismo tradicionais ou livros de História, mas apenas dentro dela. Um Japão que se revela aos poucos entre a rigidez dos costumes e a delicadeza da cultura: "rico de contradições, sabores, cores, medos, incertezas e, sobretudo, de beleza."

"Abri as malas e tudo aquilo que trouxemos agora me pareceu ser pouco. Cada objeto retirado de dentro da mala me fez querer estar em casa ou em algum lugar qualquer onde houvesse certeza. E só então, naquele instante, parei para sentir. Qual será o nosso destino? E as respostas todas me escaparam. Senti medo, mas um medo diferente de qualquer outro medo que já havia sentido. Um medo de me perceber sozinha no mundo, de reconhecer que somos coisa pouca perto da grandeza de tudo. / Depois de um banho quente, às duas da madrugada, Lis finalmente dormiu agarrada na bonequinha bebê. Olhei para aquela criança de dois anos e meu coração se encheu de amor. Quanta coisa ela ainda viveria no Japão e em qualquer outro lugar do mundo? Fechei os olhos e pensei em minha mãe, na nossa família agora tão distante. Em algum lugar deste mundo, que agora me parecia ainda maior, alguém sabia quem éramos de verdade. Em algum lugar éramos amados. E finalmente me senti segura para descansar." - Techo da crônica Hajimemashite (p. 29) 

Posso entender muito bem as crônicas de Letícia porque também vivi como expatriado por um longo período no Japão, aproximadamente um ano e, por coincidência, na mesma cidade em que ela residiu, Nagoya. O Japão sem dúvida é um país de grandes contradições, um povo que se orgulha do passado, preservando a cultura e as tradições locais mas, ao mesmo tempo, seduzido pela modernidade e a tecnologia de ponta. Uma sociedade extremamente rígida e vigilante com relação à disciplina, organização e comportamento, tanto na convivência familiar, na escola ou no trabalho, mas que se revela fascinante pela delicadeza dos costumes, na culinária, arquitetura e em outras expressões artísticas. A vida entre o crisântemo e a espada.

"Viver como expatriado no Japão ou em qualquer lugar do mundo traz desafios. O medo da solidão, a ansiedade com o novo e a sensação de inadequação são presenças constantes. Vi pessoas sendo transformadas pelo medo, na pior versão delas mesmo. Observei, também, comportamentos característicos de quem vive um trauma – o apego excessivo à cultura de origem, a rejeição da cultura japonesa em absoluto, crises de pânico e ansiedade, desavenças frequentes entre adultos e ações que ignoravam os princípios mais básicos da sociabilidade. A verdade é que ninguém sai ileso da experiência assustadora que é morar em um país como o Japão. Olhamos em volta e enxergamos apenas o diferente, tudo aquilo que não somos. E uma pergunta aterrorizante começa a martelar na nossa cabeça. Se não somos tudo aquilo que está ali fora, então quem somos nós? Reflexão toda essa feita sem a segurança de estarmos em um ambiente familiar e acolhedor. Ter que olhar para si mesmo, se redescobrir, encarar os medos e se perceber em absoluta solidão, do outro lado do planeta, não é tarefa fácil para ninguém." - Trecho da crônica Oni wa sotto fuku wa uchi (p. 98)

Cada capítulo é nomeado por uma expressão japonesa e uma pequena explicação sobre o contexto em que essas expressões são utilizadas, conectando a acontecimentos no cotidiano da autora. "Ichi go Ichi e", por exemplo, que empresta o título ao livro, significa que "a vida deve ser aproveitada em toda a sua totalidade. Nenhum momento se repete, cada experiência é única e preciosa. Algumas traduções possíveis seriam 'uma vida, uma chance', 'um caminho, um encontro' ou 'só agora, nunca mais'"Um livro muito recomendado para aqueles que já tiveram a experiência de viver no Japão ou pretendem viajar a trabalho no futuro para este país.

Crônicas de viagem
Sobre a autora: Com mais de 100 crônicas publicadas no Jornal Domingo, de Pouso Alegre, Letícia Myrrha iniciou sua carreira literária aos 22 anos com a crônica "Prisioneiros em liberdade". Em 2016, lançou seu primeiro livro de crônicas, "Caminho de mesa". Nascida em Belo Horizonte, formou-se em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas. Morou por dez anos em São José dos Campos, interior de São Paulo. Em 2016, se mudou para o Japão, onde viveu por três anos como expatriada na cidade de Nagoya.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Ichi go Ichi e de Letícia Myrrha

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