Os melhores livros e resenhas de 2023

blog Mundo de K

A lista reflete uma seleção das melhores resenhas publicadas no ano em ordem cronológica, como sempre com base apenas no meu gosto — sigam os links clicando no título dos livros para ler as resenhas completas. Desejo a todos um ótimo 2024 com muita literatura, cultura e arte em geral. Conto com a presença de vocês no Mundo de K!

Literatura húngara contemporânea
(01) László Krasznahorkai - Sátántangó (resenha publicada em 31/12/2022)

Sátántangó ou Tango de Satã na ótima tradução direta do húngaro de Paulo Schiller, é a obra de estreia e considerada a mais importante de László Krasznahorkai, um autor que ainda não havia sido publicado no Brasil, mesmo tendo sido vencedor do prestigiado Man Booker International Prize em 2015. O romance, lançado na Hungria em 1985, foi adaptado para o cinema pelo cineasta Béla Tarr em 1994 em uma produção em preto e branco de sete horas e meia de duração, o tempo que leva a leitura do livro, segundo Béla Tarr. Na verdade, Sátántangó demanda bem mais tempo do leitor.

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Literatura norte-americana contemporânea


(02) Shirley Jackson - A loteria e outros contos (resenha publicada em 14/01/2023)

Apesar de ter escrito romances, livros de memória, novelas e narrativas curtas, a carreira de Shirley Jackson (1916-1965) ficou marcada – para o bem e para o mal, como ocorre geralmente nesses casos – por um único conto, A loteria, que consta obrigatoriamente em qualquer seleção de grandes contos norte-americanos do século XX, sendo considerado um marco moderno na literatura de terror e influenciado alguns famosos autores contemporâneos do gênero. A narrativa, publicada originalmente em 1948 pela New Yorker, descreve uma estranha tradição anual em uma pequena comunidade fictícia no interior dos Estados Unidos.

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Poesia brasileira contemporânea
(03) Paulo Henriques Britto - Fim de verão (resenha publicada em 21/01/2023)

Além da crítica ao estado de ignorância que assola o país, Britto reflete também sobre a brevidade da vida, um tema presente em muitos poemas, particularmente no lindo Fim de verão, que empresta o título ao livro: "É a hora inevitável do crepúsculo, / e não se decidiu coisa nenhuma / sobre nada. Ninguém moveu um músculo / nem disse nada de substância. Em suma, / ainda estamos no lugar exato / do qual partimos – digo, de que não / partimos. Há que aceitar este fato [...]" E também em Coda: "Toda vida é provisória. / todo poema é fragmento. / Cada dia, cada hora, / cada verso é só um momento".

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Literatura italiana
(04) Natalia Ginzburg - A cidade e a casa (resenha publicada em 28/01/2023)

Natalia Ginzburg (1916-1991) criou neste romance um efeito polifônico único ao reunir as cartas de um grupo de amigos e múlltiplos pontos de vista – nem sempre confiáveis – de acordo com as personalidades de cada personagem. De fato, o leitor vai construindo aos poucos a sua versão da história ao organizar e validar os fragmentos narrativos, do particular para o geral, em uma aproximação já sugerida no título. A dissolução do núcleo de amigos, assim como outros desencontros, representa a desagregação da família, por sinal um tema recorrente na obra de Ginzburg, que costuma escrever sobre as relações familiares e refletir sobre a condição humana.

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Literatura brasileira contemporânea
(05) João Paulo Parisio - Beija-flor​ (resenha publicada em 03/02/2023)

Os contos de João Paulo Parisio têm em comum a presença de crianças. Contudo, não é a inocência dessas personagens que é abordada pelo autor nas narrativas, normalmente histórias cruéis com situações de violência física e psicológica vivenciadas por meninos e meninas que têm a sua infância roubada pelo mundo dos adultos, testemunhas involuntárias de cenas brutais entre os pais e alvos de agressões ou até mesmo forçadas a praticar atos violentos como forma de sobrevivência. Caso do homem-aranha, saqueador de apartamentos, que pode ser confundido com um homem, mas sob o olhar atento de uma das vítimas se torna um menino novamente.

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Literatura brasileira contemporânea
(06) Leonardo Almeida Filho - Os possessos (resenha publicada em 11/02/2023)

O poeta e escritor Leonardo Almeida Filho aceitou o desafio de fazer literatura a partir da crise política que se instaurou em nosso país nos anos recentes, contudo sem cair na armadilha de um discurso meramente panfletário. Em seu romance, Os possessos, o início da narrativa é marcado pelo velório do protagonista, Luiz Carlos Mariano, um famoso e, ao mesmo tempo, solitário escritor encontrado morto em seu apartamento em Copacabana, sendo, portanto, toda a construção ficcional desenvolvida por meio da visão dos outros personagens que conviveram com ele e da sua própria obra, inclusive notas autobiográficas.

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Literatura brasileira contemporânea
(07) Thiago Camelo - Dia um (resenha publicada em 18/02/2023)

O romance descreve a trajetória de uma família de classe média carioca que precisa lidar com o suicídio de um de seus membros e de como essa tragédia influenciou a vida de todos. A condução da narrativa é feita em segunda pessoa, utilizando o pronome 'você' e nomeando os personages apenas como: 'seu pai,' 'sua mãe', 'sua avó', 'seu irmão do meio' e 'seu irmão mais velho', uma estratégia que mostrou-se apropriada neste caso ao provocar um certo afastamento e um olhar impessoal, protegendo, assim, o protagonista-narrador (irmão mais novo) e o próprio autor que também passou por experiência semelhante ao ter que assimilar o suicídio do irmão mais velho.

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Literatura brasileira contemporânea
(08) Tiago Feijó - Doze dias (resenha publicada em 26/02/2023)

O romance de Tiago Feijó foi lançado originalmente em Portugal, tendo sido finalista do Prêmio Leya 2021 e vencedor do Prêmio Manuel Teixeira Gomes de Literatura no mesmo ano. O fio condutor é o reencontro entre Raul e Antônio, pai e filho, após 15 anos de afastamento nos quais se comunicaram poucas vezes em telefonemas curtos e protocolares. No entanto, este reencontro não se deve a uma decisão voluntária de nenhum dos dois e sim a uma emergência médica, quando o senhor Raul acorda com uma dor que o impede de se levantar e não lhe resta outra alternativa, vivendo sozinho, senão ligar para o filho em busca de socorro. Assim começa a saga de doze dias no hospital.

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Clássicos da Literatura
(09) Hoffmann - Os elixires do Diabo (resenha publicada em 04/03/2023)

Hoffmann (1776-1822) é considerado um precursor da literatura fantástica, tendo infuenciado outros escritores, tais como Edgar Allan Poe (1809-1849), Dostoiévski (1821-1881) e Franz Kafka (1883-1924), para citar somente os principais. Hoffmann é dono de um estilo que vai muito além das limitações do romantismo alemão de sua época, revelando o que há de mais trágico e grotesco na natureza humana. A utilização do inconsciente como matéria-prima literária, antes de Freud (1856-1939), uma fragmentação da identidade do protagonista que leva ao tema do duplo, assim como um clima gótico e detetivesco, são características do autor presentes nesta obra.

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Literatura japonesa
(10) Kenzaburo Oe - Adeus, meu livro! (resenha publicada em 25/03/2023)

Kogito Choko, alter ego do próprio Kenzaburo Oe (1935-2023), está de volta neste romance, que faz parte da trilogia iniciada com  A substituição ou As regras do Tagame, livros marcados por elementos autobiográficos e engajamento político sobre questões polêmicas do Japão moderno, como o ativismo antinuclear e pacifista. Contudo, a ironia é que Kogito Choko é envolvido por um amigo de infância, Shigeru Tsubaki em um projeto ambicioso, "a grande empreitada" como ele chama, um evento inspirado nos ataques de 11 de setembro ao World Trade Center de Nova York e que pretende a absurda destruição de um arranha-céu de Tóquio.

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Literatura brasileira contemporânea
(11) Cinthia Kriemler - Viúvas de sal (resenha publicada em 15/04/2023)

O mais recente lançamento de Cinthia Kriemler é um romance com alguns temas recorrentes no estilo visceral de outras obras da autora, tanto na prosa quanto na poesia. Em Viúvas de sal, a violência contra o gênero feminino é perpetuada por uma rotina de ritos patriarcais e perseguiçao religiosa, mantendo as personagens presas a um destino cruel e inescapável, do qual apenas a morte pode representar um alívio. Um romance com potência e originalidade narrativa em um estilo forte no qual a urgência de escrever sobre aquilo que existe de mais perverso, vergonhoso e bárbaro no comportamento humano, não compromete em nada a beleza e o lirismo do texto.

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Literatura brasileira contemporânea
(12) Valéria Martins - O lugar das palavras (resenha publicada em 22/04/2023)

A agente literária Valéria Martins faz a sua estreia na ficção utilizando a própria experiência no mercado editorial como inspiração para a criação do protagonista-narrador Rafael Sant'Anna, um jovem recém-formado em jornalismo que sonha em se tornar escritor. No entanto, assim como tantos outros autores iniciantes, Rafael, que está desempregado e precisa cuidar da mãe e da avó dependentes, logo percebe que escrever bem é uma condição necessária, mas não suficiente para ter sucesso na área de literatura, uma empreitada que demanda muito trabalho e organização para vencer as etapas de criação, publicação e divulgação.

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Literatura brasileira contemporânea
(13) Pedro Augusto Baía - Corpos benzidos em metal pesado (resenha publicada em 07/05/2023)

Os contos do livro de estreia do paraense Pedro Augusto Baía, vencedor do prêmio Sesc de Literatura edição 2022, têm como elemento de ligação a rotina de violência e destruição que domina a região norte do Brasil nos últimos anos. As narrativas demonstram o avanço do garimpo ilegal, impulsionado pela omissão do poder público na fiscalização para proteção do meio ambiente e dos povos indígenas, assim como a desigualdade social que perpetua o cenário de devastação atual, restando apenas a migração. O regionalismo do autor assume um tom de urgência e denúncia, contudo sem perder o lirismo do texto literário.

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Poesia brasileira contemporânea
(14) Adriane Garcia - A bandeja de Salomé (resenha publicada em 14/05/2023)

Apresentando um conceito semelhante aos poemas reunidos em Eva-proto-poeta, este mais recente lançamento de Adriane Garcia também seria em outros tempos um ótimo candidato à fogueira, juntamente com sua autora, condenada por questionar os dogmas de uma religião estabelecida sobre estruturas patriarcais. De fato, principalmente no Antigo Testamento, a bíblia perpetua uma espécie de legitimação para a dominação masculina com base em narrativas cruéis nas quais o modelo de submissão da mulher é exaltado como exemplo moral e validado por uma antologia de textos que justificam muitas vezes a exploração sexual e o feminicídio.

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Literatura brasileira contemporânea
(15) Sandra Godinho - A secura dos ossos (resenha publicada em 27/05/2023)

O romance mais recente de Sandra Godinho demonstra a maturidade atingida pela autora após uma curta e intensa carreira literária. De fato, alguns de seus premiados livros anteriores, tais como: Tocaia do norte, A morte é a promessa de algum fim e Estranha entre nós, parecem ter pavimentado o caminho para a importância e urgência desta obra, na qual, mais uma vez, o registro histórico é a base de toda a construção ficcional. No romance, finalista do Prêmio Leya 2022, o Massacre de Haximu, ocorrido em 1993, é revisitado com sensibilidade e lirismo, mas sem omitir a brutalidade da execução de homens, mulheres e crianças do povo indígena Yanomami.

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Literatura brasileira contemporânea
(16) Márcia Barbieri - [Tempo de cão] (resenha publicada em 03/06/2023)

Apesar do romance ter sido concebido com base em uma região independente no tempo e no espaço, há referências claras à recente pandemia e ao processo de isolamento social, um período sombrio da nossa história que mesmo a literatura mais delirante e distópica tem dificuldade em representar, contudo, Márcia se saiu muito bem, como no trecho no qual os "vira-latas foram abandonados" e houve a necessidade de "economizar covas" devido à alta mortalidade, como bem lembramos dos noticiários da época. Este é um romance forte que exige atenção redobrada, um desafio para o leitor, tanto na forma quanto no conteúdo. 

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Literatura brasileira contemporânea
(17) Kátia Bandeira de Mello - A patafísica do quadrado (resenha publicada em 10/06/2023)

O surrealismo na literatura ficou marcado pela fase inicial compreendida entre 1919 e 1925 na França, destacando: Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, Benjamin Pet e Philippe Soupalt, autores que tinham a intenção de exprimir o inconsciente do homem. No entanto, pouco se fala em um dos maiores influenciadores do movimento, o excêntrico Alfred Jarry (1873-1907), poeta, romancista e dramaturgo francês, mais conhecido por sua peça Ubu Rei (1896), criador da patafísica, a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções, com base no humor irônico e nonsense, transformando o real em absurdo.

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Literatura brasileira contemporânea
(18) Isabor Quintiere - Rituália (resenha publicada em 24/06/2023)

Os contos apresentam um estilo próprio com base em influências da literatura fantástica, do realismo mágico e até mesmo da ficção científica, porém não se enquadrando em nenhuma dessas categorias. Talvez a referência mais próxima seja a escola literária argentina, consagrada por Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar, Silvina Ocampo e, mais recentemente, Samanta Schweblin. De qualquer forma, o leitor encontrará em Rituália uma característica que une a obra de todos esses autores, a busca pela representação daquela coisa que existe dentro de nós e que não tem nome mas, como já dizia José Saramago, é o que verdadeiramente somos.

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Literatura japonesa contemporânea
(19) Yoko Ogawa - A piscina; Diário de gravidez; Dormitório: três novelas (resenha publicada em 01/07/2023)

A literatura japonesa contemporânea não se limita a Haruki Murakami, prova disso está na obra de Yoko Ogawa que ganhou todos os principais prêmios literários japoneses, incluindo o Prêmio Akutagawa e o Prêmio Yomiuri. No ocidente, ela recebeu o Shirley Jackson e o American Book Award, além de ter sido finalista do International Booker Prize em 2020. Os seus livros são desafiadores ao ponto dela ser comparada a autores modernos já consagrados como Yukio Mishima e Kenzaburo Oe, o qual declarou que Yoko consegue expressar as mais sutis nuances do psicológico humano, sendo gentil e penetrante ao mesmo tempo.

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Literatura brasileira contemporânea
(20) André de Leones - Vento de queimada (resenha publicada em 16/07/2023)

O romance é ambientado na região Centro-Oeste, entre as cidades de Brasília, Goiânia e outras menos conhecidas, tais como: Silvânia, Minaçu e Vianópolis, locais normalmente ausentes na literatura nacional, nos fazendo refletir como o Brasil é realmente um amontoado de países estrangeiros. A narrativa se passa em 1983, durante o governo de João Figueiredo (1979-85), marcando o final do longo período de governos militares. Não há inocentes entre os personagens, sejam eles matadores de aluguel, políticos corruptos ou simplesmente criminosos, todos irão provocar a dor e o sofrimento de suas vítimas para lucrar o máximo possível e tentar sobreviver.

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Literatura brasileira contemporânea
(21) Vanessa Malagó - Torrente (resenha publicada em 05/08/2023)

O romance, selecionado no PROAC 2022 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de SP – categoria Literatura, fala sobre as relações amorosas em uma época na qual a concepção do amor romântico idealizado, eterno, único e fiel, parece estar definitivamente descartada. Os relacionamentos que resistem à rotina mostram a necessidade de encontrar novas fórmulas para manter os vínculos emocionais e reinventar um amor ainda possível. A estrutura narrativa, portanto, intercala de forma não linear as histórias de sucesso ou fracasso de diferentes casais, buscando o difícil equilíbrio entre razão e paixão.

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Literatura brasileira contemporânea
(22) Marcos Alexandre Faber - Por dentro de Rita Hayworth (resenha publicada em 06/08/2023)

Uma novela narrada em primeira pessoa por Rita Hayworth (1918-1987), mas não uma personagem representando a atriz norte-americana em carne e osso e sim uma imagem dela em um pôster na parede de uma cela. Em uma criativa construção literária de intertextualidade, esta cela pertence a Andy Dufresne, na prisão de Shawshank, retratada no filme "The Shawshank Redemption" estrelado por Tim Robbins e Morgan Freeman e lançado no Brasil como “Um sonho de liberdade” em 1994, livremente inspirado em "Rita Hayworth and Shawshank Redemption", uma novela escrita por Stephen King e publicada em 1982.

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Literatura brasileira contemporânea
(23) Lilia Guerra - O céu para os bastardos (resenha publicada em 17/09/2023)

Esta resenha poderia iniciar com a afirmação de que Lilia Guerra é a legítima herdeira da obra de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo no que se refere à dura realidade das comunidades carentes em nosso país, o que seria verdade, mas não me parece justo limitar a abrangência dos livros da autora apenas à categoria de denúncia social, originada pelo racismo estrutural, por mais importante que seja este tema. Ao escrever sobre a vida das mulheres negras na periferia dos centros urbanos brasileiros, a literatura de Lilia Guerra extrapola o caráter local e panfletário, tornando-se universal como representação da condição humana.

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Literatura brasileira contemporânea
(24) José Nascimento - A noite dentro de nós (resenha publicada em 24/09/2023)

Os contos do livro de estreia de José Nascimento têm como inspiração a fragilidade dos relacionamentos na era dos amores descartáveis, a frustração com o trabalho e a violência urbana; fatores que intensificam a angústia dessa "noite" que cresce cada vez mais dentro de nós. A condução das narrativas em primeira pessoa – nem sempre confiáveis, diga-se de passagem – permite ao autor explorar o impasse existencial de seus personagens e nos fazer compreender a solidão de uma época na qual as redes sociais e aplicativos de relacionamentos se multiplicam para aproximar as pessoas e, contudo, atingem um resultado oposto na prática.

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Literatura brasileira contemporânea
(25) Leonardo Valente - Relicário de cuspes (resenha publicada em 08/10/2023)

O mais recente lançamento de Leonardo Valente é uma obra experimental e desafiadora e a frase de abertura , na forma de epígrafe, nos dá uma pista da estratégia que será desenvolvida: "Neste livro, interessa menos o que a palavra diz e muito mais o quanto machuca." De fato, as palavras são utilizadas como signos, em um contexto surrealista, provocando sensações decorrentes das emoções de um protagonista atormentado por seus traumas de infância. Com base em uma polifonia narrativa não linear no tempo, este homem-menino precisa mergullhar no seu mar interior para resgatar as palavras escondidas.

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Literatura brasileira contemporânea
(26) Adriana Vieira Lomar - Ébano sobre os canaviais (resenha publicada em 21/10/2023)

Romance histórico que demonstra o processo desumano da escravidão, origem do racismo estrutural e a consequente desigualdade social no Brasil. A obra retrata o final do século XIX, quando o tráfico negreiro já havia sido proibido em nosso país por meio da Lei Eusébio de Queirós de 1850, contudo a entrada de cativos africanos continuava ocorrendo de forma ilegal, mesmo com a pressão da campanha abolicionista por parte da sociedade na época. Na ficção de Adriana Vieira Lomar, Ébano é uma mulher negra alforriada que luta contra os preconceitos para ficar com José, imigrante português em busca de melhores condições de vida em nosso país.

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Poesia brasileira contemporânea
(27) Thiago Medeiros - Dias depois saímos do leprosário (resenha publicada em 02/11/2023)

Poemas inspirados na vida pós-pandemia COVID-19, ainda sob o recente impacto de uma distopia que nenhuma ficção poderia ter imaginado. Contudo, este resumo é insatisfatório para uma obra que trata de temas tão abrangentes quanto família, religião e a própria fragilidade da natureza humana. Sempre atento ao ritmo e à oralidade dos seus versos, o autor renova a mágica da literatura ao alcançar a universalidade por meio de um regionalismo que canta ao mesmo tempo a esperança e a desesperança, como destacado pelo poeta Mailson Furtado na orelha do livro, a ambiguidade de um sentimento tão representativo desse sertão que existe dentro de todos nós.

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Poesia brasileira contemporânea
(28) Tito Leite - A palavra em seu deserto (resenha publicada em 18/11/2023)

Assim como em seu livro de poemas anterior, Aurora de Cedro (7Letras, 2019), nos deparamos com o cuidado de Tito Leite na lapidação da palavra exata, associada com a sonoridade e a força da imagem: "[...] Os físicos escrevem / com uma caneta Bic azul: / a luaviolácea cabe / num buraco de minhoca. / Muitas vezes, a melhor / palavra é a boa imagem." (O homem da caneta azul - p. 61). Quem sabe, sagrado e profano não sejam posições tão antagônicas, quando percebemos que a religião e a arte não deixam de ser expressões do mesmo espírito humano, monástico ou nômade e, portanto, David Bowie e Lou Reed podem ser citados no silêncio do claustro de um mosteiro.

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Literatura brasileira contemporânea
(29) Caléu Moraes - Schopenhauer e o Kung Fu (resenha publicada em 10/12/2023)

Romance que tem como base uma compilação de ensaios e fatos históricos, alguns verdadeiros e outros falsos, formando uma tese mais do que delirante: a inusitada relação entre o filósofo alemão Schopenhauer e a prática do Kung Fu. Tudo isso sob a influência de um certo Wang, chinês professor de mandarim, que ele conheceu em 1803 na Escola Wimbledon para Cavalheiros na Inglaterra aos quinze anos de idade. Wang, que teria nascido na China em 1744, era filho de uma das prostitutas eruditas do famoso bordel literário idealizado por Zhi Dao, um homem que gostava de recitar versos de Zhang Dai e seus dois colegas: Hong Zaikuan e Wang.

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Literatura brasileira contemporânea
(30) Airton Souza - Outono de carne estranha (resenha publicada em 17/12/2023)

Romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2023, "Outono de carne estranha" tem como cenário a região de Serra Pelada, situada no sul do estado do Pará e que foi considerado o maior garimpo a céu aberto do mundo entre 1980 e 1983. Como ocorre nessas situações, a corrida do ouro atraiu milhares de garimpeiros em busca de enriquecimento rápido. O ambiente de trabalho era extremamente inseguro, principalmente para os "formigas" que subiam e desciam escadas improvisadas chamadas de “adeus mamãe” com sacos de até 35 kg de terra. Desmoronamentos e contaminações pelo ar, barro e mercúrio levaram à ocorrência de muitas mortes.

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Comentários

nostodoslemos disse…
Uma seleção de tirar o fôlego.
Que 2024 seja um ano em que a literatura e cultura façam parte de nossa rotina, de nossas vivências e caibam sempre em nossa prioridade.
Feliz 2024! \o/
wilson loria disse…
Uau! é muito pouco pra esse apanhado de críticas tão sucintas, mas não menos elaboradas. Obrigado, Alexandre. Sigamos!
Sônia disse…
Graças a sua presença forte em nossa vida literária, podemos ter facilitada a lista das melhores leituras para o ano inteiro. Obrigada por tanta dedicação!!! FELIZ 2024.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Lígia (nós todos lemos), muito grato pela visita. Este foi um bom ano de leituras apesar das prioridades conflitantes. Desejo um ótimo 2024 para você e sua família!
Alexandre Kovacs disse…
Oi wilson, obrigado pelo comentário. Para ler as resenhas completas clica no título de cada livro. Um ótimo 2024 para você e sua família!
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sônia, eu é que agradeço a sua presença no Mundo de K ao longo do ano. Muita saúde e sucesso em 2024 para todos nós!
pausado tempo disse…
Só vi agora. Muito feliz e honrada por constar nesta lista junto de escritores tão tops. Muito obrigada e Feliz Ano Novo com muitas leituras maravilhosas.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Valéria (pausa do tempo), parabéns pelo livro e um ótimo 2024 com muita saúde e sucesso!

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