Paulo Henriques Britto - Fim de verão

Poesia brasileira contemporânea
Paulo Henriques Britto - Fim de verão - Editora Companhia das Letras - 96 Páginas - Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio - Lançamento: 2022.

Em seu mais recente lançamento, nono livro de poemas, encontramos Paulo Henriques Britto na sua melhor forma de tradutor e poeta, como ele demonstra, por exemplo, na genial e bem-humorada construção que é Três traduções e treze variações sobre um poema de Emily Dickinson, compondo com inteligência e uma boa dose de sarcasmo a partir das contradições entre ciência e religião: "A fé é uma faca cega / com fraco poder de corte. / Serve para aparar (um pouco) / o pavor da morte. // O prudente, com seu microscópio, / um dia morre, sozinho. / E o cavalheiro da fé? / – Morre igualzinho." Não satisfeito, o poeta é ainda mais explícito em Vers de circonstance (BRASIL 2020) - I. IMUNIDADE DE REBANHO: "Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância / é o sumo bem dos cidadãos de bem, / é a verdadeira marca dos eleitos. / Ter sucesso é não ter que saber, Saber cansa, [...]"

Além da crítica ao estado de ignorância que assola o país, Britto reflete também sobre a brevidade da vida, um tema presente em muitos poemas, particularmente no lindo Fim de verão, que empresta o título ao livro:  "É a hora inevitável do crepúsculo, / e não se decidiu coisa nenhuma / sobre nada. Ninguém moveu um músculo / nem disse nada de substância. Em suma, / ainda estamos no lugar exato / do qual partimos – digo, de que não / partimos. Há que aceitar este fato [...]" E também em Coda"Toda vida é provisória. / todo poema é fragmento. / Cada dia, cada hora, / cada verso é só um momento". O livro representa o trabalho de um poeta maduro, contudo está impregnado de uma saudável fúria juvenil e, principalmente, inteligência que se revela na mais fina e bem-humorada ironia, como bem sabemos uma espécie de antídoto contra toda forma de obscurantismo.

Três traduções e treze variações sobre um poema de Emily Dickinson

"Faith" is a fine invention
When Gentlemen can see
But Microscopes are prudent
In an Emergency.

(a)
A "Fé" é um ótimo invento
quando enxergamos, Senhores –
Porém, numa Emergência,
Microscópios são melhores.

(b)
"Fé", Cavalheiros, funciona
Quando a gente enxerga bem –
Mas em caso de Emergência
Um Microscópio convém.

(c)
Quando se enxerga a contento,
A "Fé" é uma grande invenção –
Mas numa Emergência é prudente
Ter um Microscópio à mão.

1.
A fé é um invento prático
pra quem enxergar não deseja.
Em lugar do microscópio,
os antolhos de uma Igreja.

2.
A fé é um instrumento útil
pra pescar, tal como o anzol.
Também, como o polegar,
serve pra tapar o sol.

3.
A fé é um ótimo unguento
pra edulcorar as dores.
Sua unção mobiliza
um exército de pastores.

4.
A fé é um analgésico 
de impacto forte e cabal;
embota, porém, a mente
como efeito colateral.

5.
A fé é uma ferramenta
que tem inegável mérito:
com ela, gasta-se menos –
por menos usá-lo – o cérebro.

6.
O microscópio revela
o real em sua minúcia.
Contra ele, ergue-se a fé
com sua estúpida astúcia.

7.
Sob o microscópio, a vida
pulula nua e inteira.
Mas vêm os senhores da fé
com suas folhas de parreira.

8.
A fé toma o microscópio
e logo lhe embaça a lente.
Voilá: pronto pro consumo,
o "design inteligente".

9.
Torna o microscópio visível
o que é infenitesimal.
É outro o poder da fé:
traveste de bem o que é mal.

10.
Os cavalheiros da fé
vendem nos templos seu ópio
como poderoso antídoto
contra o letal microscópio

11.
Os cavalheiros, reunidos,
proclamam os prodígios da fé:
transubstancia vinho em sangue,
transmuta em nada o que é.

12.
A fé é uma faca cega
com fraco poder de corte.
Serve para aparar (um pouco)
o pavor da morte.

13.
O prudente, com seu microscópio,
um dia morre, sozinho.
E o cavalheiro da fé?
– Morre igualzinho.

Vers de circonstance
(BRASIL, 2020)

I. IMUNIDADE DE REBANHO

A estupidez é sua própria recompensa.
    Graças a ela, o mundo faz sentido,
    um só, que é fácil de identificar.
E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância
    é o sumo bem dos cidadãos de bem,
    é a verdadeira marca dos eleitos.
Ter sucesso é não ter que saber, Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência
    só pode ser não se cansar. Olhai
as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

    pastam em plena bem-aventurança,
sem que nenhuma antevisão do matadouro
    perturbe a santa paz da ruminança.

II. ZEITGEIST

Se te falta competência
pra amar, mas queres na vida
o condimento da paixão,
resta uma saída.

Pra quem nos duros embates
do amor jamais subiu ao pódio,
há um prêmio de consolação
bem fácil: o ódio.

O ódio dispensa a razão
e seus meandros sutilíssimos,
a lógica, a estética, a ética;
só requer o fígado.

O ódio leva a emoção
a seu mais extremo ápice
sem amante e sem amigo:
basta-lhe um cúmplice.

Abraça com força teu ódio,
faz dele um belo romance.
Eis uma vera paixão
a teu alcance.

Coda

Toda vida é provisória.
todo poema é fragmento.
Cada dia, cada hora,
cada verso é só um momento

de alguma totalidade
que você sequer concebe.
Viva e escreva e não se abale.
Você não é o que você escreve.

Poesia brasileira contemporânea
Sobre o autor: Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. É escritor, tradutor e professor, autor de livros de poesia, como Formas do nada (2012) e Nenhum mistério (2018), e de contos, como Castiçal florentino (2021). Recebeu os prêmios Portugal Telecom, APCA, Alphonsus de Guimaraens (duas vezes), Alceu Amoroso Lima, Bravo! Prime de Literatura e Jabuti. Já traduziu mais de cem livros, entre obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop, Byron, John Updike, Thomas Pynchon e Charles Dickens. É atualmente professor associado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em cursos de tradução, criação literária e literatura brasileira.

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