Luís Roberto Amabile - O lado que não era visível para quem estava na estrada

Literatura brasileira contemporânea
Luís Roberto Amabile - O lado que não era visível para quem estava na estrada - Editora Zouk - 116 Páginas - Capa: Maria Williane - Lançamento: 2020.

A capa desta coletânea de contos de Luís Roberto Amabile pode nos passar a impressão de uma leitura leve e agradável, sem maiores desafios literários. Contudo, nada mais longe da realidade, tanto em relação à escolha dos temas, alguns bastante perturbadores, quanto à variedade de técnicas narrativas. O autor, professor de Teoria Literária e Escrita Criativa na PUCRS, colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil na elaboração de “Escrever Ficção – Um Manual de Criação Literária” (2019), considerada uma obra de referência para escritores, editores, resenhistas e outros profissionais ligados à área de criação e crítica literária.

O conto inicial, "A quem interessar possa", é uma narrativa de pequena extensão conduzida em segunda pessoa, porém de muito impacto, principalmente para leitores mais velhos que poderão se reconhecer na melancolia do personagem ao perceber como a vida passou: "Um dia você vai acordar cansado. Sim, você já acorda cansado, mas nesse dia vai acordar ainda mais cansado, e com uma insistente dor de cabeça. E tonturas, tonturas." O narrador, a partir desta abertura, irá relembrar ao protagonista os acontecimentos da noite anterior, até o ponto em que o mesmo se vê em pedaços no espelho do banheiro, destruído e espalhado no chão.

"São comuns as termas em Budapeste, e todos vão, principalmente os velhos, e mesmo no inverno, principalmente no inverno, e existem várias termas, mas nenhuma tão emblemática como as de Széchenyi. É uma experiência e tanto ficar na piscina observando (de canto de olho) as húngaras, claro, mas também (com menos discrição) os grupos de senhores barrigudos jogando xadrez. Foi o que fiz, depois de alugar um calção de banho de duvidosa estampa de dinossauros ou talvez alguma criatura da mitologia magiar, e fiquei um tempo a olhar os velhos pensando dentro da piscina e movendo as peças no tabuleiro bem na borda, e um deles me perguntou se eu queria jogar." (pp. 26-7) - Trecho do conto "Budapeste"

Em alguns contos, a metaficção comanda o texto, tornando o ofício do escritor, assim como a paixão pela leitura, pontos centrais da narrativa. É o caso de "Budapeste", livremente inspirado no romance de Chico Buarque, "Dois homens que (nunca) se encontram em Buenos Aires", sobre o desaparecimento do escritor argentino Rodolfo Walsh, assassinado aos cinquenta anos por um comando militar na capital da cidade portenha e o surpreendente "Fresta" com referência à obra "A Trilogia de Nova York" de Paul Auster, narrando um encontro ficcional com o autor americano em Paraty, durante sua participação na segunda edição da FLIP, em 2004.

"Achei a vó Zilda desconfortável, com algodão saindo do nariz, os crisântemos disputando espaço com ela. Vestia uma de suas blusas estampadas, uma espécie de bata que mandava fazer na costureira. Numa mistura de comoção e nojo, puxei o véu e lhe dei um beijo na testa seca. Juro que senti o cheiro daquele perfume de alfazema que uma vez derrubei de cima da sua penteadeira. Deixei escapar algumas lágrimas. Minha mãe não percebeu. Ou não quis perceber. Foi a tia Vilma quem se aproximou, meio sonâmbula, pôs um dos pesados braços nos meus ombros e disse: 'É, foi a vez da sua vozinha'." (pp. 60-1) - Trecho do conto "Crônica de velórios anunciados"

Temas recorrentes em Amabile são as relações familiares e amorosas, assim como a constante presença da morte, caso de "Crônica de velórios anunciados", "A tarde do meu tio", "Domingo de azul Portinari", "Labaredas, labaredas" e o ótimo conto que dá o título ao livro, destacado na apresentação de Amilcar Bettega: "E, de modo quase encantatório, quando a história parece estar se desgarrando como um automóvel que sai da estrada, que encontramos o conto. Nestes textos, o conto se constrói a partir de uma certa lateralidade que quando menos se espera faz emergir um detalhe, aparentemente desconexo, que acaba por dar todo sentido ao texto." 

"O noivo tinha ido verificar o outro lado da camionete, o do passageiro, o lado que não era visível para quem estava na estrada. / O noivo deve ter ficado uns dez minutos fora do campo de visão da noiva. Ela permaneceu no carro, enfiando os lábios para dentro da boca e olhando para a camionete. E para a estrada, na direção de onde achava que viria o resgate. Nada. Pensou em ligar para os pais. Não, eles ficariam preocupados. Veio um carro. Não parou. A poeira tinha se dispersado por completo. A noiva abriu os vidros. Não ventava." (pp. 86-7) - Trecho do conto "O lado que não era visível para quem estava na estrada"

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Luís Roberto Amabile é escritor e professor na Escola de Humanidades da PUCRS, doutor em Teoria da Literatura (2017) e em Escrita Criativa (2020). Teve textos publicados em revistas e antologias no Brasil, em Portugal, na Espanha e nos Estados Unidos. Colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção (2019). É autor, entre outros, de O amor é um lugar estranho (2012, finalista do Prêmio Açorianos na categoria contos) e O livro dos cachorros (2015, vencedor da chamada para publicação do IEL/RS).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar O lado que não era visível para quem estava na estrada de Luís Roberto Amabile

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