Andri Carvão - A Poesia Invisível - 30 anos de poesia (1993-2023)

Poesia brasileira contemporânea
Andri Carvão - A Poesia Invisível - 30 anos de poesia (1993-2023) - Editora Patuá - 212 Páginas - Diagramação: Estúdio Encruzilhada - Imagem de capa: Freepik.com - Lançamento: 2023.

Este mais recente lançamento de Andri Carvão reúne trinta anos de poesia a partir de seus livros anteriores: Puizya pop, Bagaços no abismo, Um sol para cada montanha, Ócios do orifício, Espírito periférico, Poemas do golpe, Dança do fogo dança da chuva, O lado b da poesia, O mundo gira até ficar jiraiya e poemas inéditos. O título, obviamente uma provocação, não deixa de ser também uma homenagem aos poetas e editores que insistem apesar de tudo, permanecendo livres e independentes. O prefácio certeiro da escritora Lilia Guerra explica o conceito da poesia invisível: "[...] A invisibilidade não a enfraquece. É o que a mantém liberta. Livre. Para escolher o sentido pelo qual se manifesta. E, apesar de reunida, não está completa. É infinita." 

O que notamos é a mesma inquietação diante das encruzilhadas do mundo, sabendo que apenas a dúvida é verdadeira: "Metade de tudo que existe / é falso / e a outra parte / são meias verdades. / A única verdade absoluta / é a dúvida". E assim, a poesia de Andri não envelheceu, continua girando até ficar jiraiya: "Nossa poesia sem like / Nossa poesia sem coração / Nossa poesia sem compartilhamento / Nossa poesia sem impulsionamento pago / Nossa poesia amostra grátis / Nossa poesia sem colaboradores / Sem troca de favores / Nossa poesia só / Nossa poesia em si / Por si só / Cheia de si / Esvaziada [...] Poesia transparente que é / Pura entrega puro ego / Coração e razão / Corpo e alma / Nossa poesia invisível / É o nosso lugar de fala"

Encruzilhada
(Bagaços no abismo p.43)

Quem conhece o caminho
Está perdido
Quem conhece o caminho
Só conhece um caminho
Quem conhece o caminho
Não sabe de si
Quem conhece o caminho
Só pode seguir sozinho

Um sol para cada montanha
(Um sol para cada montanha p.66)

Eu não queria precisar
de moedas e medalhas
Eu só queria precisar
de uma vida sem migalhas.
Eu só queria precisar
de uma vida
devida-
mente dividida
: uma árvore como casa
(da madeira faz-se a brasa!),
ossos como ferramentas,
folhas e gravetos  como teto,
couro de animais como vestimentas
e um filho que me destinasse um neto.
Animal, mineral, vegetal
nunca iam faltar.
Eu só queria um lugar!
Eu só queria precisar
de mais nada.
Eu não queria precisar.
Eu só queria precisar...
Além do  mundo,
de uma sacada,
além de tudo
e mais nada.

Os canalhas detestam a poesia
(O lado b da poesia p.151)

Quando abro um dos livros de poesia
das amigas e dos amigos, penso:
quando eu crescer quero escrever assim.
Deslizo os dedos na timeline para ver
as novidades políticas,
rir dos memes,
descobrir novos poemas
e me deparo com o post de alguém
que me põe a refletir
e que minutos depois se perde
em meio a essa modernidade líquida :
os canalhas detestam a poesia.
Lembro dos livros dos amigos e das amigas,
dos livros lindos das amigas e dos amigos,
das pequenas tiragens,
do número de leitores que não temos
e me ponho mais triste
do que uma casa
sem uma estante
de livros.

A leitora
(Inéditos p.189)

Hoje eu vi no ônibus uma pessoa lendo um livro.
Parecia séria de tão compenetrada,
pois mal piscava
imersa naquelas páginas;
de postura imponente,
mesmo de cabeça baixa,
trajada com simplicidade,
nem humilde nem sofisticada,
embora bem vestida.
Parecia que o mundo havia acabado ao seu redor.
e ela fosse um oásis
na imensidão do espaço deserto.

Hoje eu vi uma pessoa lendo um livro no ônibus.
Era como se a única coisa a fazer sentido
naquele momento em sua vida
estivesse longe de ser
a música pop americana
vazando do fone de ouvido
do jovem ao seu lado
e o burburinho de conversas aleatórias
em trocas de áudios no WhatsApp
ou vídeos de 30 segundos
compartilhados nas redes sociais dos passageiros,
formando uma multidão de solitários.

As estatísticas dizem que
as mulheres leem mais do que os homens no Brasil.
As estatísticas dizem que 
os jovens leem mais do que os velhos no Brasil.
As estatísticas dizem que
se lê mais por obrigação do que por prazer no Brasil.
As estatísticas dizem (mas não provam nada)
que o livro é caro, que a educação é cara,
que a cultura é cara, que o teto é caro,
que o agasalho é caro, que o sapato é caro,
que a comida é cara, que o custo de vida é caro,
meu caro, minha cara.

Hoje eu vi uma pessoa no ônibus lendo um livro.
Era como se o mundo tivesse parado
e só houvesse ela e a sua imaginação
longe bem longe tão longe daquele ônibus lotado
carregando sonhos despedaçados
das casas da periferia até o centro do trabalho.
Enfim,
era como se uma arca se abrisse
e todo o tesouro perdido do mundo
estivesse logo ali ao lado
de asas abertas em suas mãos
iluminando seus olhos.

poesia brasileira contemporânea
Sobre o autor: Andri Carvão é poeta, artista plástico e carnavalesco. Cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. É autor de Um sol para cada montanha, Poemas do golpe, Dança do fogo dança da chuva, O mundo gira até ficar jiraiya, entre outros. Mantém o canal no YouTube Poesia•Nunca•Mais e a coluna Traça de Livro:... impressões de leitura... no site da revista Ruído Manifesto.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar A Poesia Invisível de Andri Carvão

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