Caléu Moraes - Schopenhauer e o Kung Fu

Literatura brasileira contemporânea
Caléu Moraes - Schopenhauer e o Kung Fu - Editora Nauta - 154 Páginas - Foto da capa: Leung King Yu (autor desconhecido, circa 1925) - Lançamento: 2023.

O mais recente lançamento do catarinense Caléu Moraes é um romance que tem como base uma compilação de ensaios e fatos históricos, alguns verdadeiros e outros falsos, formando uma tese mais do que delirante: a inusitada relação entre o filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) e a prática do Kung Fu. Tudo isso sob a influência de um certo Wang, chinês professor de mandarim, que ele conheceu em 1803 na Escola Wimbledon para Cavalheiros na Inglaterra aos quinze anos de idade. Wang, que teria nascido na China em 1744, era filho de uma das prostitutas eruditas do famoso bordel literário idealizado por Zhi Dao, um homem que gostava de recitar versos de Zhang Dai (1597-1684) e seus dois colegas: Hong Zaikuan e Wang.

Para contar esta tresloucada história em estilo de romance policial, o autor apresenta algumas evidências da relação de Schopenhauer com Wang e da prática de artes marciais: a primeira em uma carta do filósofo ao pai na qual menciona um chinês que conheceu na escola; a segunda, um registro de seu diário: "para tornar a estadia neste lugar sombrio pelo menos suportável, líamos juntos, o senhor Wang e eu, as aventuras dum certo Juiz Di". A terceira, um fato conhecido da biografia de Schopenhauer que teria empurrado uma vizinha escada abaixo, utilizando a arte de deslocar o ar contra um adversário. Finalmente, a referência a uma publicação barata inglesa sobre um jovem alemão, Arthur Hauer, que elimina um vampiro. 

"[...] Zhi Dao, dias atrás, teve uma ideia: 'poderíamos construir um bar literário, um bordel de eruditos? Certamente, ainda que com pouco dinheiro, eu o frequentaria'. Não há coisa que os literatos chineses gostam mais do que se queixar da desgraça dos exames públicos. São terríveis. Os candidatos fazem textos longos e estúpidos, comentários incansáveis sobre trechos de clássicos que não servem para nada. Seus ensaios não têm outro fim que o dos cargos públicos. Todos querem ser um mandarim, 'figura mole e [de] vestuário seboso de modesto burguês', descreveu Camilo Pessanha (1993, p. 32). Querem o poder de enjaular criminosos e desafetos. Zhi Dao também. É um chinês do seu tempo, afinal. Conservou por alguns anos uma pensão magra do governo que lhe permitia estudar. Certo dia, sem mais, suspenderam o seu benefício. Estava velho e reprovara, outra vez, nos exames públicos. Não teria outra chance. Então, para sustentar os quatro filhos, dos quais apenas um tinha alguma inteligência, precisava trabalhar. A esposa era imprestável; estava acamada. Foi aí, durante uma noite amarga, quando ouvia os três meninos idiotas balbuciarem alguma coisa, que teve a grande ideia do bordel literário: putas inteligentes que falassem de poesia para entreter os clientes." (p. 20)

Para tornar a leitura ainda mais desafiadora, Caléu Moraes se coloca como narrador misturando ficção e realidade para falar da perda do próprio pai em agumas passagens que deixam um pouco de lado a narrativa bem-humorada, característica do autor, para assumir um tom bem mais sensível (na verdade, a paternidade é um tema recorrente em todo o livro, mesmo sem sabermos o que é necessariamente verdadeiro ou falso): "Quando padecia do câncer que o matou, meu pai arriscava: 'Talvez eu pudesse voltar do mundo dos mortos' [...] 'Preciso lhe contar que, certa vez, aprendi alguns movimentos de kung fu.' / 'Como é?' / 'Como é o quê? Movimentos de kung fu. Se eu pudesse voltar dos mortos eu iria ensiná-los a você.'" 

"Schopenhauer estava em Amsterdã, cidade de que gostara. Dizia que suas casas, ainda que velhas, pareciam novas, porque os moradores as pintavam constantemente. Revirava as lojas de porcelana que 'tinham um largo inventário de objetos chineses'. Mas ele queria um pagode, a estatueta sorridente dum homem gordo e sentado. Não sabemos como eram estas lojas. No entanto, é possível imaginar que o jovem Schopenhauer tenha visto um chinês de verdade. Na Holanda do século XVII havia chegado alguns chineses. Sendo Amsterdã um dos centros do capitalismo mercante, era natural, como nos mostra van Zanden (1993), que boa parte da sua força de trabalho fosse constituída de imigrantes. Os chineses traziam consigo estatuetas e vasos de porcelana para vender na Europa. Por esta razão, talvez o dono de uma das lojas que Schopenhauer visitou, fosse um chinês. Talvez. Evitemos especular demais. Sabemos que um ano mais tarde, o grande filósofo alemão, tornou-se o discípulo favorito de um chinês. [...] Em geral, apenas um homem é representado da maneira que Schopenhauer buscava: a barriga e a cabeça redondas; os olhos puxados; as pernas cruzadas e os pés em oposição às coxas... Falamos, naturalmente, de Buda." (pp. 33-4)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Caléu Moraes é catarinense, graduado em História, e fez mestrado em Antropologia Social e doutorado em Estudos da Tradução pela UFSC. Venceu o Concurso de Contos Silveira de Souza, da mesma UFSC, com a obra Guia literário para machos. É autor dos romances Declínio e queda de mim mesmo, A morte do ocultista e As aventuras de Lorde Nélson, entre outros.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para acessar o site da Editora de Schopenhauer e o Kung Fu de Caléu Moraes

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