Lilia Guerra - O céu para os bastardos

Literatura brasileira contemporânea
Lilia Guerra - O céu para os bastardos - 176 Páginas - Editora Todavia - Capa de Paula Carvalho - Obra de capa: Leandro Junior - Lançamento: 2023.

Esta resenha poderia iniciar com a afirmação de que Lilia Guerra é a legítima herdeira da obra de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo no que se refere à dura realidade das comunidades carentes em nosso país, o que seria verdade, mas não me parece justo limitar a abrangência dos livros da autora apenas à categoria de denúncia social, originada pelo racismo estrutural, por mais importante que seja este tema. Ao escrever sobre a vida das mulheres negras na periferia dos centros urbanos brasileiros, a literatura de Lilia Guerra extrapola o caráter local e panfletário, tornando-se universal como representação da condição humana.

Neste mais recente romance, a narrativa é conduzida em sua maior parte por Sá Narinha, uma empregada doméstica que escreve suas memórias em velhos cadernos. Durante o velório do velho Genuíno, integrante da velha guarda da escola de samba da comunidade, os moradores do bairro que tem o sugestivo nome de Fim-do-Mundo se encontram e Sá Narinha descreve um cotidiano normalmente ignorado pela sociedade e políticos, no qual todos sofrem com a falta de segurança, problemas de transporte, saúde e moradia. Em meio a tantas dificuldades, a narradora enfrenta um drama pessoal devido à prisão do filho, Júlio César, por feminicídio.

"Montaram uma mesa com garrafas térmicas e biscoitinhos dentro do salão fúnebre. Pintassilgo foi buscar um pouco de chá para que seu Claudionor se revigorasse. Mesmo sendo domingo, a linha Centro/Fim-do-Mundo sai abarrotada. Poucos carros em serviço. Sempre. E os que rumam para Fim-do-Mundo não são confortáveis como os que circulam nos bairros onde moram os grã-finos. É uma contradição que ônibus tão compridos tenham só uma porta para desembarque. E, ainda por cima, no final do corredor. Tenho vontade de conhecer o engenheiro responsável pela proeza. A pessoa diz que é estudada, mestre nisso, doutor naquilo, e acaba projetando uma geringonça desajeitada e nada prática. O valor da tarifa condiz com o de um atendimento de luxo. Mas o que será que os mandachuvas consideram ser luxo para o pobre? A maior parte dos passageiros viaja em pé, num aperto dos infernos. E precisa atravessar o corredor inteirinho para conseguir desembarcar. O pai dos monstros de lata não deve ter tirado a prova. Não experimentou passear a bordo de sua invenção. Pelo menos, não com destino a Fim-do-Mundo. Não imaginou que o trambolho poderia lotar a ponto de nós, idiotas dependentes, não conseguirmos botar o pé no chão? Imaginou sim. Esses crias de satã se fazem de mortos." (pp. 11-12).

Por sinal, a violência contra a mulher é um dos fios condutores desta história, representada pela união de Julio César e Regina, uma relação que desde o início já apresentava sinais de que terminaria em tragédia, devido às frequentes crises de ciúme do rapaz. Sá Narinha, que criou o filho praticamente sozinha, apenas com a ajuda da irmã, se questiona como pode ter gerado um assassino: "Botei no mundo um indivíduo capaz de tamanha brutalidade. A anomalia saiu de dentro de mim. Formou as carnes em minhas entranhas, se fortaleceu à custa de meu sangue. Com meu suor. Sou cúmplice do crime que ele executou. Antes eu não tivesse parido."

"A esquina do bequinho fica perto do ponto final da linha Centro/Fim. Quem desce ali logo reconhece o cheiro típico. Os meninos queimam seus baseados, enquanto ganham o movimento. Não mexem com ninguém, são apenas guardiões. Funcionam como rádios. Avisam sobre qualquer presença suspeita. Repassam bobagens no varejo e indicam a quem deseja adquirir artigos em quantidade as tocas para a negociação. Conheço todos eles. Desde que eram pivetes de pé no chão e nariz escorrendo e imploravam para ficar com as pipas que caíam em meu quintal. Disputavam aos sopapos e xingamentos as balas que eu distribuía em dia de Cosme e Damião. Viraram marmanjos cheios de marra. Trocaram os tubos de linha por tacos de sinuca, os doces ordinários por latas de cerveja. Já não se atracam por figurinhas para os álbuns. São atraídos por cinturinhas. Ainda me cumprimentam com certa reverência. Fico tentada a me queixar, cobrar segurança em nosso pedaço. Dizer que os maiorais andam fazendo vista grossa para a covardia dos que apavoram os residentes." (pp. 22-23)

A inesperada amizade que surge entre Sá Narinha e Betinho, filho de sua preconceituosa patroa, demonstra como, apesar de tudo, ainda é possível a superação das barreiras históricas originadas pelo racismo. O romance é uma ótima oportunidade para reencontrar alguns inesquecíveis personagens de outros livros de Lilia Guerra ou para os iniciantes na sua obra conhecerem pela primeira vez a força e emoção do seu estilo, muito recomendado.

"– Acho que o seu bisavô, branco e muito, muito pobre nunca foi torturado, Betinho. Amarrado a um tronco. Surrado. Marcado com ferro quente. Nunca teve um dente arrancado à força nem recebeu sal e vinagre nas feridas abertas pelo chicote. O seu bisavô branco e pobre não foi separado da família. E, pelo que me consta, nunca trabalhou sem receber pagamento nem dormiu numa senzala. Um homem branco podia sim ser mal renumerado. Mas nunca escravizado. Podia ficar desempregado, sem ter uma colherada de farinha ou um gole d'água pra oferecer aos seus. Mas era livre. A seca e a miséria podiam alcançar um homem branco e pobre como o seu avô, que lamentaria a sua falta de sorte. Sem algemas nos pulsos ou grilhões no pescoço. Se a doença corroesse a carne de um homem branco, ele seria consumido livremente. A loucura podia tomar conta de um homem branco. Ele seria um homem louco. Mas livre. Ele sempre seria livre. Uma mulher branca podia ser muito, muito pobre. Nem por isso teria os filhos arrancados dos seus braços diretamente para as mãos dos compradores. Por miserável que fosse uma mulher branca, não seria obrigada a oferecer o leite do seu peito ao filho de outra, enquanto o seu próprio filho era privado de ser alimentado. [...]" (p. 89)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Lilia Guerra é paulistana e ariana, nascida em abril de 1976. É autora da coleção de contos Perifobia, finalista do Prêmio Rio de Literatura 2019, e do romance Rua do Larguinho. Seu primeiro livro, Amor Avenida, originalmente publicado em 2014, foi relançado pela editora Patuá em 2022 e, neste mesmo ano, a Patuá publicou também os primeiros três volumes da coleção Novelas que escrevi para o rádio e a compilação Crônicas para colorir a cidade. Atua na área da saúde como servidora do SUS e participa ativamente de projetos que fomentam o hábito da leitura em regiões periféricas de São Paulo, assim como o estímulo à escrita. O céu para os bastardos é o seu mais recente lançamento pela Editora Todavia.

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