Crimes Impossíveis - Seleção de Braulio Tavares

Clássicos da Literatura policial
Crimes Impossíveis - Seleção, tradução e prefácio de Braulio Tavares - Editora Bandeirola - 320 Páginas - Edição de Sandra Abrano - Projeto Gráfico, capa, diagramação: Thaís de Bruyn Ferraz - Lançamento: 2021.

Uma antologia de contos policiais que reúne autores como Edgar Wallace, R. Austin Freeman, L. Frank Baum, Melville Davisson Post, Maurice Leblanc, Jacques Futrelle, Arthur Conan Doyle, Sheridan Le Fanu, Edgar Allan Poe e G. K. Chesterton é uma indicação certa para alguns momentos de boa leitura, ainda mais porque a seleção foi feita com base na biblioteca pessoal de um escritor como Braulio Tavares, um mestre na literatura fantástica; e uma particularidade inédita em antologias deste tipo no Brasil: todos os contos têm em comum o crime impossível, ou de "quarto fechado" no qual uma pessoa é encontrada morta dentro de um quarto trancado por dentro e do qual o criminoso, pela lógica, não poderia ter entrado e saído.

A seleção apresenta contos já considerados clássicos da primeira fase da literatura policial, desde o século XIX até a década de 1930, sendo, portanto, uma oportunidade de compreender melhor a evolução do gênero e destacar a diferença de estilo entre os autores, muito bem resumida na introdução de cada conto com o contexto histórico da obra, quando foi publicada pela primeira vez e uma explicação sobre a técnica utilizada. Na maioria das narrativas, o crime envolve um problema aparentemente insolúvel, que em geral consiste em um assassinato – mas não obrigatoriamente. Pode se tratar de um roubo, um desaparecimento ou qualquer tipo de evento aparentemente impossível de ter ocorrido nas condições descritas do espaço físico.

O conto de abertura do livro, O Romney Roubado, do inglês Edgar Wallace (1875-1932)  é, na verdade, um dos capítulos de um romance maior sobre as aventuras de Four-Square Jane, uma personagem com habilidade para roubos espetaculares em Londres. Este episódio descreve o desaparecimento de uma famosa pintura de um ambiente extremamente vigiado, uma façanha que o chefe superintendente da Sotland Yard, Peter Dawes, tenta esclarecer em um típico crime de "quarto fechado". Edgar Wallace foi um dos autores mais populares do seu tempo, tendo escrito 175 livros de histórias policiais e de suspense, muitos deles adaptados para o cinema.

"Peter era o único visitante naquele momento, mas não foi somente à pintura que ele deu atenção. Fez um breve exame do recinto para alguma eventualidade. A galeria era longa e estreita. Havia apenas uma porta, aquela por onde ele entrara; as janelas em ambas as extremidades estavam protegidas por barras de ferro, e uma tela de fios de aço cobria as barras, tornando impossível a entrada ou saída por ali. As janelas eram altas e estreitas, combinando com o formato do salão, e não havia cortinas onde um intruso pudesse se esconder. A luz do sol era bloqueada por persianas enroladas no alto, por meio de cordinhas" - Trecho do conto O Romney Roubado de Edgar Wallace (p. 28)

A Morte na Praia é o conto escolhido para representar Maurice Leblanc (1864-1941), mestre absoluto da literatura policial francesa e criador do genial Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca, primeiro dos ladrões elegantes que atuavam nos ambientes luxuosos da alta sociedade. Novamente, esta narrativa faz parte de um livro maior, As Oito Pancadas do Relógio, constituído por oito contos independentes, mas ligados em forma de romance. O Príncipe Rénine (um dos disfarces de Lupin) tenta conquistar Hortense Daniel, envolvendo-a em oito mistérios. Neste em particular, é desvendado um assassinato inexplicável que ocorre diante de várias testemunhas.

"Assim, o drama tinha se cumprido, sem que nenhum indício ajudasse a compreender de que maneira um homem, trancado dentro de uma cabine, protegido por uma porta fechada cuja fechadura estava intacta, pudesse ser assassinado em poucos minutos diante de vinte testemunhas, vinte espectadores. Ninguém entrara na cabine. Ninguém saíra de lá. Quanto ao punhal com que d`Imbléval tinha sido ferido entre as espáduas, não se pôde descobri-lo. Tudo isso lembrava um lance de prestidigitação realizado por um mágico cheio de destreza, mas não deixava de ser um crime assustador, executado nas circunstâncias mais misteriosas." - Trecho do conto A Morte na Praia de Maurice Leblanc (p. 111)

Não há como deixar de destacar o conto de Arthur Conan Doyle (1859-1930), A Aventura da Faixa Malhada, no qual a sua criação máxima, o famoso detetive Sherlock Holmes, enfrenta um de seus maiores desafios. Na verdade, o conto foi escolhido pelo próprio Doyle como o primeiro colocado em uma seleção particular de seus doze contos preferidos, assim como foi eleito também pelos leitores da época entre um total de quatro romances e 56 contos. 

"Mas eu nada vi. No instante em que Holmes riscou a chama, escutei um assobio baixo, bastante nítido, mas aquele clarão súbito diante dos meus olhos cansados não me dixou ver o que é que meu amigo espancava tão vigorosamente. Pude ver, contudo, que seu rosto estava mortalmente pálido, e cheio de horror e repulsa. Ele parou de bater e fitava com intensidade o buraco de ventilação quando de repente emergiu no silêncio da noite o berro mais horrível que jamais escutei. Foi crescendo e ficando alto e cada vez mais alto, um uivo rouco de dor e medo e raiva, tudo misturado no som de um só grito. Disseram depois que até no vilarejo, e até na distante casa paroquial, aquele grito arrancou pessoas de suas camas. Ele gelou nossos corações, e eu fiquei ali encarando Holmes que me encarava, até que os últimos ecos foram morrendo e se apagando no silêncio de onde ele se elevou." - Trecho do conto A Aventura da Faixa Malhada de Arthur Conan Doyle (p. 204)

Outro destaque desta antologia é, sem dúvida, Edgar Allan Poe (1809-1849), considerado o inventor da estrutura básica do conto policial com Os Assassinatos na Rua Morgue, que inaugura todos os elementos principais do gênero em um só conto, destacados na introdução de Braulio Tavares: "O crime bárbaro, a perplexidade da polícia, o narrador meio obtuso que acompanha o genial detetive amador, a exposição minuciosa das pistas, e finalmente a revelação na linha de raciocínio que interpreta corretamente cada uma delas." Enfim, um livro indispensável para os amantes do gênero policial mas que, certamente, agradará também aos leitores em geral.

Sobre o autor: Bráulio Tavares (Campina Grande, 1950) é um escritor, compositor, letrista, poeta, dramaturgo e pesquisador de literatura fantástica. Escreveu títulos de importância fundamental na literatura de gênero, como os já clássicos: O que é Ficção Científica (Brasiliense, 1986) e as antologias de contos: A Espinha Dorsal da Memória e Mundo Fantasmo (ambos relançados pela Editora Bandeirola em 2020).

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