José J. Veiga - Contos reunidos

Clássicos da Literatura brasileira
José J. Veiga - Contos reunidos - Editora Companhia das Letras - 536 Páginas - Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio - Ilustração da capa: Deco Farkas - Cronologia de Érico Melo - Posfácio de Socorro Acioli - Lançamento: 2021.

Este lançamento é uma justa homenagem a um dos maiores prosadores da literatura brasileira e também oportunidade para as novas gerações conhecerem a obra de José J. Veiga (1915-1999). A antologia reúne os contos publicados em Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Estranha Máquina Extraviada (1967) e Objetos Turbulentos (1997), assim como uma seleção de textos publicados em jornais e revistas no período de 1941 a 1989, sendo complementada por um posfácio esclarecedor de Socorro Acioli e cronologia biográfica de Érico Melo.

Nas narrativas curtas o autor é dono de um estilo único que mescla as reminiscências da sua infância na área rural com um realismo por vezes brutal, sendo por isso considerado em algumas coletâneas – erroneamente ao meu ver – tanto no gênero infanto-juvenil quanto no realismo mágico. Em alguns contos ocorre uma inclinação para o gênero fantástico com tendência surrealista, muito próxima ao estilo de Murilo Rubião (1916-1991), seu contemporâneo. Outra característica marcante é a utilização de protagonistas-narradores, sejam eles crianças ou não, que conquistam o leitor logo nas primeira frases despertando a empatia por meio de textos bem-humorados e de muita sensibilidade.

Com o premiado Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), sua estreia tardia na literatura aos 44 anos de idade, o autor surpreendeu público e crítica ao apresentar um universo ficcional com base no sonho – em confronto à dura realidade do cotidiano – e na melancolia de um tempo perdido. Somente sete anos depois publicaria um novo livro, o romance A Hora dos Ruminantes (1966), o que comprova a sua preocupação com a qualidade e originalidade do texto.

"O meu primeiro contato com essas simpáticas criaturinhas deu-se quando eu era muito criança. O meu avô Rubém havia me prometido um cavalinho de sua fazenda do Chove-Chuva se eu deixasse lancetarem o meu pé, arruinado com uma estrepada no brinquedo de pique. Por duas vezes o farmacêutico Osmúsio estivera lá em casa com sua caixa de ferrinhos para o serviço, mas eu fiz tamanho escarcéu que ele não chegou a passar da porta do quarto. Da segunda vez meu pai pediu a seu Osmúsio que esperasse na varanda enquanto ele ia ter uma conversa comigo. Eu sabia bem que espécie de conversa seria; e aproveitando a vantagem da doença, mal ele caminhou para a cama eu comecei novamente a chorar e gritar, esperando atrair a simpatia de minha mãe e, se possível, também a de algum vizinho para reforçar. Por sorte vovô Rubém ia chegando justamente naquela hora. [...]" - Trecho do conto Os cavalinhos de Platiplanto (p. 38)

Em A Estranha Máquina Extraviada (1967), o conto que empresta o título ao livro é um exemplo do humor irônico de Veiga ao descrever uma máquina sem qualquer serventia que se transforma em motivo de satisfação para a cidade: "Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância." Um texto que bem poderia ter sido escrito por Julio Cortázar. Outro destaque é Uma pedrinha na ponte, no qual um jovem narrador, nada confiável, cede aos encantos de uma certa Geny, namorada de um soldado que é descrito de forma perfeita: "mãos de dedos cabeludos, como se andasse brincando com água que lavou coador de café; e tem uma brecha grande na testa, acento agudo gravado a pedrada, paulada ou golpe de facão".

"Você sempre me pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou, não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas, quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos. / A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões), muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. [...]" - Trecho do conto A máquina extraviada (p. 213)

A preocupação com a palavra exata fica clara no conto Cantilever que parece demonstrar o fascínio do próprio autor pela linguagem (ler o trecho abaixo). Os protagonistas de José J. Veiga não têm nomes comuns, ele sempre encontra uma forma original de nomeá-los criando um universo ainda mais estranho e único que conta com personagens como: Cedil, Camilinho, Estogildo, Tenisão, Zoaldo, Zaco, Milila e dona Zipa, somente para mencionar o conto de abertura desta antologia: A Ilha dos Gatos Pingados, por sinal também uma linda referência à infância.

"Era um garoto muito curioso, sempre ligado a novidades – e não só: gostava também de explorar palavras. Sempre que via ou ouvia uma palavra desconhecida, antes de ir ao dicionário a revolvia na cabeça se estava no meio de outras pessoas, como um gatinho que pegou um inseto e passa longo tempo esquecido do mundo revirando-o, jogando-o para cima, deitando-se sobre ele, até ele parar de se mexer; se estava sozinho, repetia a palavra em vários compassos, conversava com ela, como se provocando para ver se ela se abria e se revelava. Conforme as respostas, as sugestões que julgava receber, atribuía à palavra um ou mais sentidos; e só então ia conferir no dicionário, como quem confere um bilhete de loteria. E frequentemente se decepcionava também. [...]" - Trecho do conto Cantilever (p. 328)

A habilidade em capturar a atenção é bem resumida no posfácio O jogo dos dez encantos de Socorro Acioli: "No caso de Veiga, todo começo de conto é uma promessa, um pacto: escute um bocadinho, tenho algo impressionante a dizer. Em alguns casos a narrativa chega completa. Em outros, é preciso supor, deduzir adivinhar, pressupor [...]". José J. Veiga é um mestre na arte de contar histórias ao atribuir a tão necessária verossimilhança a seus personagens – mesmo nas situçoes mais absurdas – porque eles são criados a partir da essência do ser humano.

Sobre o autor: José J. Veiga nasceu no dia 2 de fevereiro de 1915, em Corumbá de Goiás. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou na Faculdade Nacional de Direito. Foi comentarista na BBC de Londres e trabalhou como jornalista em O Globo e Tribuna da Imprensa, entre outros veículos. Aos 44 anos, estreou na literatura com Os cavalinhos de Platiplanto. Seus livros foram traduzidos para diversos países, entre eles Portugal, Espanha, Estados Unidos e Inglaterra. Pelo conjunto da obra, ganhou o prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras. Morreu no dia 19 de setembro de 1999.

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