Alberto Manguel - Encaixotando minha biblioteca

Bibliotecas
Alberto Manguel - Encaixotando minha biblioteca: Uma elegia e dez digressões - Editora Companhia das Letras - 184 Páginas - Capa de Ale Kalko - Lançamento: 2021.

Em 2000, o ensaísta, romancista, tradutor e editor Alberto Manguel comprou um presbitério medieval na França, e construiu uma biblioteca para alojar um acervo de 35.000 livros. A biblioteca foi desativada em 2015, devido à mudança para Nova York e o convite para Manguel exercer o cargo de Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. A última notícia que li sobre o destino desta biblioteca, agora com 40.000 livros, é que ganhará um espaço definitivo em Lisboa como parte do Centro de Estudos sobre a História da Leitura, podendo ser finalmente libertada dos caixotes. 

Encaixotando minha biblioteca é inspirado na relação de toda uma vida do autor com os livros. Na verdade, Alberto Manguel não é um bibliófilo como José Mindlin, ele está mais para Umberto Eco e Jacques Bonnet, sem a seriedade de um colecionador profissional, mas sim com a paixão de um leitor compulsivo. Este é um daqueles "livrinhos" deliciosos que todo amante da leitura não consegue largar até o final e não conseguimos evitar a comparação entre o livro impresso e o virtual, a praticidade e velocidade da consulta em nossos tempos de Internet que parecem apontar, espero que não, para o desaparecimento das bibliotecas e bibliófilos.

"O antigo celeiro, em cujas pedras estavam gravadas as assinaturas de quem trabalhara nelas no século XV, guardou meus livros por quase quinze anos. Sob um teto de vigas desgastadas pelo tempo, juntei os sobreviventes de muitas bibliotecas que datavam de minha infância. Tinha uns poucos livros que um bibliófilo sério julgaria dignos: uma Bíblia ilustrada de um scriptorium alemão do século XIII (presente do romancista Yehuda Elberg), um manual de inquisidores do século XVI, diversos livros de artistas contemporâneos, um bom número de primeiras edições raras e muitos exemplares assinados pelos autores. Mas me faltavam (e ainda faltam hoje) os recursos financeiros ou o conhecimento para me tornar colecionador profissional. Em minha biblioteca, jovens e lustrosos Penguins se sentavam felizes ao lado de patriarcas encadernados de aparência severa. [...]" 

Entre as diversas digressões de Alberto Manguel posso destacar as múltiplas citações literárias, passando em poucos parágrafos, e sem qualquer ordem cronológica, por autores tão diferentes quanto: Cervantes, Dante Alighieri, Robert Louis Stevenson, Lewis Carroll, Gustave Flaubert, Ray Bradbury, Marcel Proust, W.H. Auden, Homero, Sófocles, Jean Cocteau, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Vladimir Nabokov, William Shakespeare e com grande destaque para Jorge Luis Borges que ele conheceu ainda em Buenos Aires quando era um adolescente e Borges já estava praticamente cego, precisando que lessem em voz alta para ele, logo Manguel se tornou um dos leitores de Borges, várias vezes por semana de 1964 a 1968.

"Minha biblioteca, acomodada em estantes ou empacotada em caixas, nunca foi um animal único, e sim uma composição de vários deles, uma criatura fantástica formada a partir de várias bibliotecas criadas e depois abandonadas, repetidas vezes ao longo da vida. Não consigo lembrar de um tempo em que não tive alguma biblioteca. Minhas bibliotecas formam uma espécie de autobiografia em múltiplas camadas, todos os livros sustentando o momento em que os li pela primeira vez. As anotações nas margens, a data ocasional na folha de guarda, a desbotada passagem de ônibus marcando uma página por razões hoje misteriosas – todas essas coisas tentam me lembrar do que eu era então. Em geral, fracassam. Minha memória está menos interessada em mim do que em meus livros, e descubro que é mais fácil recordar-me de uma história lida uma só vez, faz muito tempo, do que do jovem que a lia."

Outras divagações do autor passam pela biblioteca de Alexandria que guardou, durante pelo menos três séculos, a maior parte do mundo do Mediterrâneo, sendo que seu fim ocorreu em circunstâncias tão incertas quanto as de sua existência ou o amor pelos mágicos e hoje  anacrônicos dicionários diante dos dispositivos eletrônicos e aplicativos modernos, segundo Manguel algumas de suas aquisições favoritas: Petit Robert, Collins, Sopena e Webster's eram os anjos da guarda das suas bibliotecas. Uma época na qual não existia o poderoso Google, o que nos leva novamente à polêmica comparação entre livros impressos e a leitura por mídia eletrônica que provoca reações tão apaixonadas entre bibliófilos e amantes da cultura digital.

"Há leitores para quem os livros existem enquanto estão sendo lidos, e mais tarde como recordações das páginas lidas, mas que sentem serem dispensáveis suas encanações físicas. Borges, por exemplo, era um desses. Os que jamais visitaram o modesto apartamento de Borges imaginavam que sua biblioteca era tão vasta quanto a de Babel. Na verdade, Borges mantinha apenas poucas centenas de livros, e mesmo esses costumava dar de presente aos visitantes. Ocasionalmente, certo volume tinha valor sentimental ou supersticioso para ele, mas, de modo geral, o que lhe interessava eram algumas linhas relembradas, não o objeto material onde as encontrara. Para mim, sempre foi o contrário."

Sobre o autor: Alberto Manguel nasceu em 1948, em Buenos Aires. Passou os primeiros anos da infância em Israel, onde seu pai era embaixador, e concluiu seus estudos na Argentina. Morou em diversos países, como Espanha, França, Inglaterra e Itália, sempre rodeado por livros. Outras obras do autor no Mundo de K: Uma História Natural da Curiosidade (2016).

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