Carol Bensimon - Diorama

Literatura brasileira contemporânea
Carol Bensimon - Diorama - Editora Companhia das Letras - 288 Páginas - Capa de Elisa von Randow - Foto: Smithsonian Institution Archives - Lançamento: 2022.

O mais recente romance de Carol Bensimon, depois do premiado O clube dos jardineiros de fumaça (2017) vencedor do prêmio Jabuti de Melhor Romance e finalista do prêmio São Paulo de Literatura, foi inspirado no assassinato do deputado e radialista José Antonio Daudt, morto com dois tiros de espingarda na cidade de Porto Alegre em 1988, um crime ainda sem solução até hoje. O principal suspeito na época, o também deputado Antônio Carlos Dexheimer Pereira da Silva, era considerado um dos seus melhores amigos. Dexheimer tinha arma de caça e um automóvel semelhante ao visto na cena do crime, supostamente motivado por ciúmes de sua ex-esposa, de quem se separara havia três meses. Em DioramaCarol Bensimon construiu uma extraordinária adaptação ficcional para esta história e as possíveis consequências na vida dos personagens.

Diorama é uma palavra chave no romance e o significado é apresentado logo na abertura, antes mesmo das epígrafes: "s.m. 4 MUSEOL representação de uma cena, onde objetos, esculturas, animais empalhados etc. inserem-se em um fundo pintado realisticamente. (Houaiss)". Na ficção de Carol Bensimon, Cecília Matzenbacher, narradora do romance, é a filha do deputado acusado de assassinato e trabalha nos EUA como taxidermista, uma função conhecida vulgarmente como empalhadora, ela tinha nove anos quando ocorreram os eventos que marcaram a família para sempre. Em uma narrativa não linear, bem construída pela autora, Cecília relembra passagens da sua infância e adolescência, enquanto tenta resolver os impasses da sua vida profissional e sentimental na atualidade. 

"Na minha vida adulta, encontrei muito mais caçadores do que gostaria de ter encontrado. Isso aconteceu a partir do momento em que comecei a frequentar as edições bianuais do Campeonato Mundial de Taxidermia, algo que eu precisava fazer se quisesse ter uma carreira na área. Era um evento cheio de caçadores. Os que tinham mais de cinquenta anos haviam aprendido a profissão no curso por correspondência de J. W. Elwood, que anunciara por décadas nas revistas de caça. Os mais jovens haviam esfolado ratos e esquilos e moldado um pedaço de espuma e feito uma cabecinha de gesso e arame de acordo com tutoriais no YouTube. Outros tinham juntado dinheiro para se matricular em formações de quatro semanas em lugares como Kooskia, Idaho, ou Springtown, Texas, e então voltavam para sua cidade natal e abriam uma pequena oficina na garagem de casa, onde atendiam os caçadores da região, montando três cabeças de cervo por dia em manequins de poliuretano comprados on-line. [...] E havia também o pessoal que eu chamava de naturalistas. Eram bem poucos e não tinham um jeito específico de se vestir. Eu queria aprender com eles. De todas as pessoas que atuavam na Taxidermia, eu os considerava os mais obsessivos. Eram movidos pela ideia fixa de recriar a natureza à perfeição. Nisso se diferenciavam dos caçadores, os quais inevitavelmente caíam na tentação de exaltarem a si mesmos através do animal. O que quero dizer é que acontecia com frequência de os caçadores montarem suas taxidermias como se aqueles animais fossem mais imponentes e audaciosos do que de fato eram quando vivos. [...]" (pp. 57-8)

Aos poucos o leitor vai conhecendo os detalhes do assassinato do deputado João Carlos Satti – como é nomeado no livro –, e as possíveis motivações para o crime em um criativo enredo que mistura ficção e realidade. Ao mesmo tempo em que relata o contexto dos anos oitenta, com base em uma detalhada pesquisa histórica, Carol Bensimon aborda também alguns importantes temas atuais, como a nossa responsabilidade pela preservação da natureza e o preconceito recorrente em nossa sociedade quanto as questões de sexualidade e identidade de gênero, tudo isso na prosa veloz e sempre entremeada por referências literárias e musicais, uma característica do estilo da autora.

"Durante o velório e o enterro é que meu pai se descobriria suspeito. Alguns amigos o alertariam. Naquela manhã – o que parecia um pouco estranho –, ele não havia ligado a televisão e o rádio e nem sequer atendido o telefone, mas, antes mesmo de o corpo de João Carlos Satti percorrer o trajeto entre a Assembleia Legislativa e o Cemitério da Santa Casa, sob o aplauso das pessoas que se amontoavam nas calçadas, a polícia já estava encaixando as primeiras peças do caso. Quatro testemunhas tinham visto na cena do crime um Monza cinza-escuro com aerofólio. Paulo Bittencourt, o chefe de gabinete de Satti, descrevera à polícia os sentimentos da minha mãe (intensos, um pouco obsessivos, certamente para além da amizade). Bittencourt, assim como Glória Andrade, também declararia que Satti vira o carro de Raul na frente de sua casa alguns dias antes do crime. / No fim daquele mesmo dia, meu pai foi aos estúdios da Rádio Gaúcha tentar se explicar. Conversou com o jornalista Pedro Martins. Tenho aqui comigo o arquivo digital e a transcrição dessa conversa que acabou sendo usada pela acusação no julgamento porque era vergonhosamente comprometedora. A entrevista em questão se tornaria um pesadelo para Arnaldo de Souza Andrade, futuro advogado do meu pai (Tu nunca deveria ter ido pra frente do microfone naquele estado, Raul). Seu nervosismo era palpável na voz, e as coisas que disse soavam uma mistura de discurso político vazio com a confusão mental de quem sabe que perdeu o controle da situação." (pp. 104-5)

Um livro recomendado porque alterna estilos como: romance policial, histórico e de formação, surpreendendo o leitor com personagens convincentes – destaque para a mãe de Cecília e o irmão Vinícius –, que parecem sempre estar fugindo dos seus próprios traumas, mesmo sabendo que isso é impossível. Entre as recordações da cidade de Porto Alegre nos anos oitenta e o trabalho na atualidade como taxidermista nos museus de história natural dos EUA, Cecília Matzenbacher tenta reconstruir a sua vida, mas o passado vem cobrar o seu preço.

"Jesse quase me acerta no rosto com minhas chaves de casa, do carro e da Norton. O chaveiro metálico da sequoia estilizada bate na parede e despenca. Coloco a mão na bochecha, sentindo o impacto que não aconteceu, depois pego as chaves e as guardo no bolso enquanto Jesse me olha de boca aberta com um pedido de desculpas entalado na garganta. Não dou mais tempo de ele dizer nada. Ele gagueja ao me ver indo na direção da porta e então eu já estou atravessando a rua quando ele finalmente fala: 'Desculpa, eu me descontrolei, Cecília, que coisa horrível, eu... me perdoa, por favor!'. Entro no carro com Jesse em meu encalço e ele me deixa fechar a porta sem resistência porque agora caiu em si. Acelero e começo a chorar assim que vejo Jesse pelo espelho, parado no meio da rua como se eu ainda pudesse mudar de ideia. Amanhã talvez ele pense que o episódio foi a desculpa perfeita para eu fugir, como sempre. Pode ser que ele tenha alguma razão." (p. 177)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autoraCarol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (2009), foi finalista do Jabuti e do prêmio São Paulo de Literatura. Também é autora de Todos nós adorávamos caubóis (2013) e O clube dos jardineiros de fumaça (2017), esse último vencedor do prêmio Jabuti de Melhor Romance e finalista do prêmio São Paulo de Literatura. Os livros de Bensimon foram traduzidos nos Estados Unidos, na França, na Itália, na Espanha e na Argentina. É mestre em escrita criativa pela PUCRS. Vive em Mendocino, na Califórnia.

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