Hanya Yanagihara - Ao paraíso

Literatura norte-americana contemporânea
Hanya Yanagihara - Ao paraíso - Editora Companhia das Letras - 720 Páginas - Tradução de Ana Guadalupe - Capa: Na Kim - Imagem de capa: History and Art Collection/ Alamy/ Fotoarena - Lançamento: 2022.

O mais recente lançamento de Hanya Yanagihara, depois do premiado "Uma vida pequena" é um ambicioso e monumental romance dividido em três partes aparentemente independentes, mas que têm em comum uma casa em Washington Square Park em Greenwich Village, Nova York, assim como personagens com os mesmos nomes que vivenciam situações recorrentes em diferentes versões dos Estados Unidos ao longo de 200 anos, lidando com temas como racismo, sexualidade, colonialismo e a manutenção da condição humana em tempos de crise. 

O primeiro livro, Washington Square, apresenta uma versão alternativa dos Estados Unidos em 1893 na qual, após uma guerra civil, o país é separado entre os Estados Livres, situados ao norte, e as Colônias Unidas formadas pelos estados sulistas e do oeste. Nova York integra os Estados Livres onde casamentos entre pessoas do mesmo sexo são não apenas autorizados, mas praticados  por cerca de metade da população. No entanto, apesar da suposta liberalidade de costumes, certos preconceitos ainda persistem, quando o jovem herdeiro de uma renomada família local, David Bingham, precisa esconder o seu romance com Edward Bishop, um professor de música sem recursos, e reluta em aceitar uma proposta de casamento de Charles Griffith, em um típico e conveniente arranjo matrimonial. David precisa escolher entre o conforto e a segurança em Nova York ou partir com Edward para a Califórnia.

"Então foi com interesse genuíno que ele começou a fazer perguntas sobre Edward, sobre quem ele era e por que levava a vida que levava, e enquanto o outro falava, com toda a naturalidade e fluência, como se tivesse esperado por anos que David surgisse em sua vida e lhe fizesse aquelas perguntas, David tomou consciência, embora estivesse prestando atenção à história de Edward, de uma nova e desagradável soberba que havia nele – a consciência de que ele estava aqui, nesse lugar improvável, e que estava conversando com um homem estranho, belo e improvável, e que, embora percebesse para lá da janela enevoada, o céu ia escurecendo e, portanto, seu avô deveria estar se sentando para jantar e se perguntando onde ele estava, e não fez nenhum esforço para pedir licença, nenhum esforço para partir. Era como se estivesse enfeitiçado e, sabendo disso, tentasse não se opor, e sim se render, abandonar o mundo que julgava conhecer em troca de outro mundo, e tudo porque ele queria a chance de não ser a pessoa que era, e de ser a pessoa que sonhava ser." (p. 64) - Trecho do Livro I - Washington Square

Na segunda parte do romance, Lipo-wao-nahele, a narrativa é ambientada também na cidade de Nova York assolada pela epidemia de aids em 1993. A autora trabalha com um tipo muito especial de reencarnação, retomando os nomes dos personagens da primeira parte, mas em situação completamente diferente. Agora, cem anos depois, David Bingham é um mestiço havaiano que vive com Charles Grifftith, um homem mais velho e rico, proprietário da mesma luxuosa casa em Washington Square. A história da anexação do Havaí aos Estados Unidos é o pano de fundo desta parte, mostrando os efeitos do colonialismo na história trágica do pai de David que seria herdeiro de um trono que não existe mais. O pai de David, que por sinal também se chama David ou Kawika, é o narrador da sua conturbada relação com o ativista político Edward Bishop que tencionava restabelecer a soberania havaiana.

"Mas ele também se sentia como um menino, e tinha consciência disso. Charles escolhia suas roupas e o lugar onde passariam as férias e o que comeriam: tudo o que um dia tinha precisado fazer por seu pai; tudo o que gostaria que seu pai tivesse feito por ele. Ele sabia que deveria se sentir infantilizado pela dinâmica desigual da vida que levavam, mas não se sentia – ele gostava, achava relaxante. Era um alívio estar com alguém tão assertivo; era um alívio não pensar. A autoconfiança de Charles, que se estendia a todos os aspectos da vida dos dois, o acalmava. Ele dava ordens a Adams ou ao cozinheiro com a mesma autoridade enérgica e calorosa que usava com David quando estavam na cama. Em dados momentos sentia que estava revivendo sua infância, dessa vez com Charles como pai, e isso o incomodava, porque Charles não era seu pai, e sim seu namorado. Mas a sensação persistia – tratava-se de alguém que permitia que ele fosse o objeto de preocupação, nunca a pessoa que se preocupava. Tratava-se de alguém cujos ritmos e padrões eram explicáveis e confiáveis e que, uma vez aprendidos, tendiam a se manter os mesmos. Desde sempre ele soubera que faltava algo em sua vida, mas só quando conheceu Charles entendeu que essa característica era a lógica – a fantasia, na vida de Charles, se restringia à cama, e mesmo lá ela fazia sentido à sua maneira." (p.211) - Trecho do Livro II - Lipo-wao-nahele

Já a terceira parte, Zona Oito, pode ser lida de forma independente e vale por todo o livro, uma verdadeira obra-prima da distopia, comparável a obras de autores como Aldous Huxley​, George Orwell e Margaret Atwood. A cidade de Nova York em 2093 está devastada pelo efeito de múltiplas pandemias. A narrativa é conduzida alternadamente por dois protagonistas, Charles Griffth, agora um renomado cientista que se envolve com o governo no combate à transmissão, criando cruéis centros de contenção e transferência, e sua neta Charlie que sobreviveu à doença. Ela é uma protagonista-narradora nada confiável que foi contaminada quando criança na pandemia de 2070 e teve as suas habilidades cognitivas destruídas devido a uma droga experimental que foi usada para curá-la. Charlie vive, novamente, em Washington Square, embora a antiga casa tenha sido dividida em apartamentos pelo governo que também aboliu a imprensa e o acesso aos livros, mantendo um regime totalitário em nome do combate à doença.

"Certo dia, cerca de um ano atrás, eu estava no ônibus indo para o trabalho quando de fato vi algo que nunca tinha visto antes na Zona Oito. Estávamos subindo a Sexta Avenida, como sempre, e cruzando a rua 14, quando de repente um homem entrou correndo no cruzamento. Eu estava sentada no meio do ônibus, à esquerda, por isso não tinha visto de onde o homem viera, mas vi que ele estava sem camisa e vestia uma calça branca de tecido fino que as pessoas dos centros de contenção usavam antes de ser enviadas para os centros de transferência. Não havia dúvida de que o homem estava dizendo alguma coisa, mas as janelas do ônibus, além de serem à prova de balas, também eram antiruído, de forma que não consegui ouví-lo, mas assim mesmo vi que ele estava gritando: seus braços estavam esticados diante do corpo, e consegui ver os músculos de seu pescoço, tão retesados e duros que por um instante pareceu que ele tinha sido entalhado em pedra. No peito, havia mais ou menos dez pontos em que ele tinha tentado esconder os sinais da doença, algo que as pessoas muitas vezes faziam, queimando as lesões com um fósforo e deixando cicatrizes pretas que pareciam sanguessugas. Nunca entendi por que faziam isso, porque se por um lado todo mundo sabia o que eram as lesões, por outro todo mundo também sabia o que eram as cicatrizes, então se tratava apenas de trocar uma marca por outra. [...]" - (pp. 379-80) Trecho do Livro III - Zona Oito

Hanya Yanagihara não dá vida fácil aos seus leitores neste emaranhado de personagens com os mesmos nomes (me lembra de 100 anos de solidão de Gabriel García Máquez) ao longo de 720 páginas, um romance complexo e desafiador porque exige atenção redobrada para acompanhar as reflexões da autora sobre tudo aquilo que nos torna humanos. Sentimentos e aspirações que se repetem na evolução de tantos Davids, Charles e Edwards nesta impossível busca pelo paraíso terreno, um paraíso do qual parecemos estar cada vez mais distantes.

Literatura contemporânea norte-americana
Sobre a autora: Hanya Yanagihara, nascida em 1974, é uma romancista, editora e escritora de viagens norte-americana. Ela cresceu no Havaí, mais conhecida por seu romance best-seller Uma vida pequena (2015), finalista do Man Booker Prize, versão 2015, e do National Book Award for Fiction no mesmo ano, além de finalista do Women's Prize for Fiction em 2016. Hanya Yanagihara trabalha como editora-chefe da T Magazine, publicação do jornal New York Times. Ao paraíso é seu terceiro romance e foi lançado originalmente em janeiro de 2022.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Ao paraíso de Hanya Yanagihara

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