Danilo Brandão - Tempos ainda sem nome

Literatura brasileira contemporânea
Danilo Brandão - Tempos ainda sem nome - Editora Urutau - 156 Páginas - Capa de Victor H. Azevedo, sobre foto de Guillaume-Benjamin Amant Duchenne - Lançamento: 2022.

O livro de estreia de Danilo Brandão surpreende tanto pela forma quanto pelo conteúdo dos contos, normalmente estruturados em uma sequência desnorteante de frases curtas e diálogos velozes não situados no tempo e no espaço, assim como personagens que não se encaixam em um padrão considerado normal pela sociedade, enfrentando situações insólitas. Os textos, portanto, exigem atenção redobrada e cumplicidade do leitor na identificação das circunstâncias e compreensão das motivações de cada narrativa, como no conto Querida amiga, na verdade uma carta, sobre a pandemia: "A essa altura, pouco importa a verdade. Eu escolho sonhar. Acho que sairemos sonhando. Espero que esteja tudo bem com os seus. Amiga. Querida. Fique bem. Cuide-se. Sonhe. Ninguém sairá dessa vivo mesmo. E o mundo já nem existe mais."

Já em Sangue, o argumento é apresentado de forma brutal logo de início: "Papai estava dentro dele e mamãe gritava na sala e vovô estava na cozinha com Dora. Um caixão enorme e parecia pesado. Como é que foi isto?" O protagonista, provavelmente um menino, passa a lembrar dos conflitos familiares com o pai morto, um personagem que domina toda a ação, mesmo ausente. No conto Saudades do meu amor, um diálogo parcial que evidencia a solidão de um homem no final da vida: "Já bebeu? Meu Deus. A juventude é mesmo uma faísca. Se organizam de modo interessante. Eu gosto. Vou bebericando. Outros tempos. O que significa? Ir bebendo aos poucos, como passarinho. É a velhice. Vamos bebericando tudo. Você ri fácil. Parece com que imagino que seria nossa filha. Mulata dos olhos claros. Sim. Sim. Ela era uma beleza. Parecida com você. [...]"

"Mandei tirar a televisão, fechar as janelas e tapar os vazamentos do portão. não me interessa mais o mundo exterior. Exceto pela fantasia. Não tenho mais braços, nem pernas, mas meus quatro cotos estão perfeitamente cicatrizados e endurecidos, graças a um rigoroso cuidado médico. Dessa forma, se quisesse poderia me deslocar de uma forma grotesca pela casa. Mas isso também não me interessa. É apenas meu sexo que está perfeitamente vivo. Eu já morri. E quando digo que apenas fantasias me interessam, devo me explicar melhor. Apenas as sexuais. Fiz disso a minha diversão e uma profissão. Já não posso mais viver de outra forma. Posso apenas foder. Sempre que quiser. Desde que o rapaz ou a moça entenda os percursos que devem recorrer. Os rituais a seguir ao transar com uma amputada. É preciso cuidados com os inevitáveis furúnculos das costas. Certificação de que todos os curativos estão bem fechados. Caso o contrário, meu corpo pode expelir durante o ato um fétido pus amarelado e eu padeço de dores instantâneas. E tudo se acaba. Tirando essas minúcias, descobri o dom de ser um objetivo sexual ativo. Homens e mulheres. Curiosos e experientes. Todos me visitam para saber como é fornicar com a amputada. Uma possível repugnância se transforma em atração em poucos segundos de observação. Algumas mulheres chegam a me amar, os homens se viciam é na feiura do ato. Amam tudo que sai de mim. E fazemos, juntos, uma dança infinita dos gerúndios. Cagando, mijando, cuspindo, arrotando. Vamos juntos até o fim. Embora sem nunca esquecer de que estamos em uma cama hospitalar." - Trecho do conto A amputada (pp. 33-4)

Na construção de Célia, a narrativa é conduzida em primeira pessoa por um protagonista que lembra de passagens da sua infância com os primos e de uma "agregada" na casa da avó: "A relação dela com meus primos e eu era meio esquisita. O olhar era de ternura. As falas, ao contrário. Raiva. Deixava escapar gotículas etílicas enquanto nos dava broncas. Célia parecia desesperada para nos ensinar algo". No entanto, apesar de ter permanecido na memória do protagonista, para os outros ela era simplesmente invisível: "Célia ocupava um papel meio de agregada na casa de minha avó. Elas não eram amigas e, muito menos, inimigas. Mas nunca as vi juntas de verdade. Ela simplesmente estava lá. [...]" Ou ainda mais claramente: "Sua presença nunca foi sentida. Nunca foi comentada."  

"Ele ria e ria. Era engraçado, de fato. Como a cabeça de um cavalo. Um cavalo magricela e desnutrido. Seus dentes enormes, sua mandíbula protuberante, seu cabelo crespo que formava uma longa crista apontando para o céu. Enquanto ela falava e falava, mexia a cabeça para a frente e para a trás, exatamente como um cavalo no relinchar. Sua sombra se projetava disforme na cortina branca cheia de bolinhas da casa de minha vó. E meu primo ria. Apontava-me a cena. Estávamos no canto da sala, sentados, com os pés sujos de barro. Célia passava o pano com tanta raiva e tentava apagar nossas pegadas. Fincava o rodo no chão com raiva. Passava. Passava. Como se sua vida dependesse daquilo. Enquanto limpava a cozinha, olhava de esguelha para nós. Praguejava contra nossos ancestrais. Dizia que éramos o diabo na terra. Que, mais tarde, entenderíamos a desgraça da vida. A desgraça da sua vida. E passava. Passava. Meu primo me socava na barriga e ria. Parecia um cavalo. Todo desnutrido e magricela." - Trecho do conto Célia (p. 116)

No conto Fique em casa, o autor nos apresenta um longo fluxo de consciência de um personagem que reflete sobre a Covid-19, assumindo uma postura contrária ao confinamento social e uma orientação política com base nas informações pouco confiáveis dos famigerados grupos de WhatsApp, um texto que resume bem a polarização ideológica e o discurso de ódio contaminando o país. Este é, sem dúvida, um livro original sobre as dificuldades da convivência e, vale ressaltar, um título que expressa bem a perplexidade generalizada com a nossa época.

"Estão todos livres na Suécia. São loiros, ricos e livres. Deu no WhatsApp. No grupo. Falta de respeito. É uma falta de respeito comigo. Uma falta de respeito com meus amigos, com a história da minha família. Onde já se viu? Fica em casa. Desde quando não estar em casa é crime? Eles falam sobre direitos. Falam sobre deveres. Falam sobre liberdade. Falam sobre humanidade. Tem essa história dos pretos, dos viados, os travecos. Eles são especiais. eles querem ser especiais. Fique em casa. Sabe quanto custa uma viagem? Cancelar é uma porcaria. Deu na televisão. As companhias não estão mais cancelando as viagens. A gente perde dinheiro por causa desses merdas. Eles querem a nossa ruína. Querem a nossa propriedade. Querem as nossas mulheres. Vi no WhatsApp. O grupo bombou o dia inteiro. Cheio de mensagem. Tem essa história dos pretos. Não tinham mais o que inventar. A mídia. A Globo. Fique em casa. Produziram uma propaganda. A cara de pau. Estão em suas ilhas. Estão todos em suas ilhas. Todos engalfinhados, rindo da nossa cara. Porra. Filha da puta. Ganhando o nosso dinheiro. Tirando a única coisa que temos neste país. Na Suécia estão todos livres. [...]" - Trecho do conto Fique em casa (p. 137)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Danilo Brandão nasceu em São Paulo (SP) em 1996 e vive em Londrina (PR) desde 2014. Formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina. Em seu livro de estreia, Tempos ainda sem nome (Editora Urutau, 2022), o autor tece narrativas que cortam os fios que nos ligam às relações humanas. O leitor vai encontrar, nas 20 narrativas que compõem o livro, personagens que transitam entre o horror de pensar na própria vida e o drama de serem obrigados a conviver com o outro.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Tempos ainda sem nome de Danilo Brandão

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