Tadeu Sarmento - A vida se ilumina

Literatura brasileira contemporânea
Tadeu Sarmento - A vida se ilumina - Editora Caos & Letras - 184 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2022.

A vida se ilumina é uma coletânea de contos que têm o futebol como elo de ligação e nos quais são revisitados alguns dos eventos mais dramáticos da história da humanidade sem, contudo, perder a leveza e o tom bem-humorado. Deve ter sido forte para o autor a tentação de escolher uma epígrafe para este livro de Nelson Rodrigues – nosso maior cronista esportivo e um dos poucos escritores nacionais que ousaram utilizar o futebol como inspiração na literatura –, mas Tadeu Sarmento soube escapar ao óbvio ululante e optou por uma frase que simboliza a liturgia que envolve o esporte mais popular do mundo: "O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso." (William "Bill" Shankly, jogador e técnico escocês).

Em A invenção de Ramirez o protagonista-narrador se recupera de ferimentos em um hospital da Cruz Vermelha em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, e faz amizade com Alejandro Campos Ramirez, que se tornou poeta, influenciado por Federico Garcia Lorca. Além de poeta, Ramirez é um apaixonado por futebol e logo passa a organizar partidas entre os pacientes. Os dois personagens perdem o contato após a vitória dos franquistas em 1939, para se reencontrar somente muitos anos depois quando o protagonista, estabelecido como ferreiro e carpinteiro, recebe uma encomenda inusitada do velho amigo: um invento que ficaria conhecido no mundo inteiro como "pebolim" ou "totó", inspirado no tênis de mesa, e que traria um pouco de alegria aos jovens inválidos da guerra.

"Um mês depois e Ramirez se cansou de ler para nós, decidindo organizar partidas de futebol no pátio do hospital. Alimentar o corpo, fazer circular o sangue e não apenas o espírito, ele dizia, embora deixasse claro que, desde seu encontro com Lorca, não acreditasse em nada que fosse imaterial: espíritos, anjos, demônios ou Deus. Nem no ar, perguntei, brincando, Ramirez olhou para mim dando a entender que tivesse dito algo estúpido, sem levar em conta meu bom humor no dia e passando a impressão de que tinha mais o que fazer que ficar ouvindo gracinhas. Em seguida pediu licença e saiu. Foi falar com a enfermeira-chefe sobre os jogos e ela, a princípio não viu problema algum na proposta, desde que os doentes mais graves não fossem convocados. De qualquer modo, precisaria consultar o diretor-chefe, que era quem poderia dar palavra final sobre o assunto. Ele vai aceitar, disse Ramirez para mim, alegando já tê-lo visto pelos corredores, fazendo embaixadinha com uma bola de meia. É aquele que usa um tapa-olho, perguntei. Ramirez balançou a cabeça afirmativamente. E por que não foi direto falar com ele? Precisamos respeitar hierarquias, isso aqui é uma guerra, foi o que respondeu. [...]" - Trecho do conto A invenção de Ramirez (pp. 19-20)

Já no conto O trabalho liberta, o cenário é o terrível campo de concentração de Auschwitz em 1943, durante a Segunda Grande Guerra. Uma surpresa aguarda o diretor do campo, Rudolf Höss, oficial alemão da SS nazista, organizador do tradicional jogo de boas-vindas "guardas versus prisioneiros" para os infelizes que sobreviviam aos trens de carga e ali chegavam, pensando estar apenas em um campo de trabalhos forçados. Em outras narrativas da coletânea, são ex-jogadores, "heróis de outrora do Clube", que voltam a ser protagonistas ao relembrar o passado como no asilo descrito em Elefantes, onde o pai do narrador algumas vezes ainda consegue escutar os gritos de uma torcida que, apesar da decadência do corpo e da proximidade da morte, ainda resiste em suas lembranças.

"Falaremos agora apenas do pai. Ele lê jornais do dia anterior, pega emprestado de um amigo que tem a assinatura. É desse jeito que o mundo só lhe fere com notícias de ontem. Ambos (pai e amigo) moram em um asilo para antigos ídolos do futebol, com eles, outros jogadores aposentados, pertencentes a um tempo no qual, infelizmente, não se fazia fortuna nos gramados. O asilo é mantido com um fundo aberto entre sócios da velha guarda do Central em honra aos heróis de outrora do Clube. Aos heróis que insistem em não morrer, pelo menos. Mas o pai não é velho o suficiente para estar lá. Só é velho o bastante para insistir em não morrer. Ele insiste, mas sem nenhum heroísmo. Outro dia o vi, da janela do ônibus, andando na rua. É lento e deslocado, um fantasma de campeonatos distantes, dos quais participou quando novo. Caminha com a dignidade de quem traz no bolso fotografias de amigos mortos. E traz. Vez ou outra diminui o passo, hipnotizado pelo grito de uma torcida que só existe em suas lembranças. Está no asilo porque o alcoolismo desconhece times ou classe social. [...]" - Trecho do conto Elefantes (pp. 89-90)

A vida se ilumina, que empresta o título à coletânea, é um dos melhores contos do livro, livremente inspirado na biografia sobre o glorioso Catraca, Futebol e Cachaça (Cafuca), time formado pelo pai do autor e alguns dos colegas da faculdade de engenharia em 1970, um enredo que fala de perseguição política no anos do regime militar e um personagem misterioso e temido chamado Sueco que costumava reagir com violência às decisões dos juízes. Ao longo do livro, alguns personagens retornam em outros contos, como é o caso do lendário cronista esportivo Aramis Pelotas ou de Laura, uma "maria chuteira de primeira categoria". O futebol – está definitivamente provado – é uma grande inspiração literária que Tadeu Sarmento aproveitou com muita originalidade.

"Naquele tempo, os cartões vermelho e amarelo sequer existiam, de modo que as marcações eram feitas na base do apito e das advertências verbais, ou seja, apitei e adverti o puto por duas vezes seguidas; na terceira, que equivaleu a um encontrão maldoso com outro jogador, não deu outra: o brutamontes estava expulso e eu estava morto. Só que não foi bem assim que aconteceu. Para minha surpresa, e contrariando a expectativa de todos, inclusive dos meus joelhos trêmulos, o gigante acatou minha decisão e deixou o campo mastigando a própria língua e procurando meus olhos enquanto caminhava, o que na época considerei uma tentativa de intimidação ou deboche. Fiquei a ponto de desmaiar durante o restante da partida, observando, de esguelha, os reservas do seu time ficarem, do banco e de punhos cerrados, inflamando o Sueco contra mim. Claro, estavam fazendo minha caveira, e eu só podia supor que assim que o jogo terminasse essa caveira seria rachada em mil pedaços. Bem, agora que estou no inferno o jeito é abraçar o capeta, pensei, e me tornei ainda mais severo no jogo. Minha ótima forma física e pernas longas (que me valeram entre os rapazes o apelido de 'Gazela') permitiam que eu marcasse em cima do lance e eu marcava mesmo, não deixando escapar nada. [...]" - Trecho do conto A vida se ilumina (pp. 123-4)


Sobre o autor: Tadeu Sarmento (Recife-PE), radicado em Belo Horizonte (MG), é autor de dez livros, entre romances, poesia e biografias. Ganhou o II Prêmio Pernambuco de Literatura com Associação Robert Walser para sósias anônimos, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2016 com Um Carro Capota na Lua. Em 2017, conquistou o 13º Prêmio Barco a Vapor, com o juvenil O Cometa é um Sol que não deu Certo, publicado pela Edições SM. Em 2020, foi novamente finalista do Prêmio Barco a Vapor, desta vez com dois livros. Em 2021 publicou Ester ou Antígona pela Editora Uboro Lopes.

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