Lilian Sais - O funeral da baleia

Literatura brasileira contemporânea
Lilian Sais - O funeral da baleia - Editora Patuá - 136 Páginas - Ilustrações de Paloma Franca Amorim - Capa, projeto gráfico e diagramação de Alessandro Romio - Lançamento: 2021.

Classificado como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2022 na categoria de Melhor Romance de Estreia do Ano, O funeral da baleia de Lilian Sais é uma obra única e difícil de definir, na qual a autora trata da questão do luto, do peso constante da ausência simbolizado pela poderosa imagem de uma baleia encalhada que se recusa a morrer, batendo o rabo na praia diariamente e provocando abalos sísmicos na cidade fictícia de Assum Preto. De fato, em um raro exercício de realismo mágico, a carcaça da baleia permanece assombrando a cidade em uma espécie de funeral que não se concretiza, um simbolismo para a morte da mãe de Joana que, juntamente com seu pai Artur Pereira, precisa aprender a lidar com a permanência da perda.

Em uma narrativa extremamente fragmentada e não linear, conduzida inicialmente por Joana em primeira pessoa, o leitor se vê envolvido por um ambiente claustrofóbico em uma casa que perdeu a sua rotina. Neste caso, a falta de diálogos no romance evidencia as dificuldades do relacionamento familiar, uma filha aprendendo a conviver com o pai que sofre com a solidão e a proximidade da própria morte. Ao longo do romance ocorre uma transição para condução em terceira pessoa, nas passagens relacionadas com Artur Pereira, apresentando os problemas do relacionamento passado com essa muher da qual sabemos muito pouco e nunca é nomeada, mas está presente todo o tempo.

"Tradição pouco se questiona porque pouco se percebe. Passa de um a outro, veja-se luz ou não. Não tem origem definida: é tão anônima que no descuido cotidiano dá para chamar de verdade, e verdade não vem com nota de rodapé. O céu é azul, quem foi que disse? Não importa. Só os desvios trazem sempre o nome de quem fez cravado na pedra. Em Assum Preto na maior parte das vezes o céu também é azul, a não ser quando não é. Mas isso não se menciona. / Ora, o mínimo que se esperaria de uma cidade assim chamada é que nela houvesse muitos espécimes desse animal. Assum Preto, a quem não sabe, é nome de pássaro que Brasil adentro existe para que a gente fure os olhos dele – é tradição. Diz que o pobre, cego, canta melhor, feito bardo grego, que era privado da visão para que fosse grande cantor. O bardo é homem – mulher nasce para a escuta, por isso inclusive o furo vai na orelha, que se enfeita com brinco, evidenciando logo a função. / Coisa de deus, coisa de mortal. Aquele tudo tem; este negocia. Aqui e ali busca o seu quinhão. Levam-se os olhos, fica o canto. fosse pássaro, gente ou animal maior, dá igual. Se quer dom, talento, vida, responde: de que está disposto a abrir mão? Aqui é cidade vazia para o tamanho, com pouco pássaro para o nome. Quase não se vê um. Mas o canto dá para ouvir, o tempo todo, vindo sabe lá de onde." (p. 17)

Meia-noite e trinta e sete minutos, horário em que a morte da mãe foi anunciada, quarta-feira de cinzas e, a partir desse dia, a baleia bate o rabo na praia no mesmo horário, fazendo a terra tremer, gestando a poeira que cobre a cidade; não só se recusando a morrer, mas crescendo a cada dia. Para Artur Pereira, só resta a passagem do tempo, "Minuto após minuto. Encarar o tempo. É o que faz". Os cachorros da cidade que latiam alucinados nos primeiros dias, parecem cansados e roucos com o passar do tempo, assim é a vida agora em Assum Preto, a mãe representada por uma cadeira vazia, "o silêncio alonga tudo, com o silêncio tudo se agiganta", como ela dizia.

"Artur Pereira está parado diante do guarda-roupa no quarto. De acordo com seus hábitos, devia estar lanchando. Mas não sente um pingo de fome. Por isso está no quarto. Puxa a primeira gaveta, no centro do móvel de madeira. Roupas da mulher. Sabe que cedo ou tarde terá que se livrar delas, só não sabe se é melhor que seja cedo ou tarde. Doar para o asilo. É assim que pensou em fazer. Seria mais fácil se estivesse alimentado. Tranquilo. Mas está sem apetite. Joana não chegou ainda. / Seria contra o espírito das regras se ele se deitasse antes do horário costumeiro? Criar novos hábitos, diz baixinho. Não é um velho caduco. Reciclar, reciclar-se, é o que dizem o tempo todo na televisão. Ele ouve. Ouve e entende. É inteligente, o Artur Pereira. Só que agora não quer sustentar o corpo por mais tempo. Vai deitar-se. Sim. / Mete-se debaixo do lençol. Cobre a cabeça com ele. Depois descobre, olha para os pés. As unhas grandes, por fazer. De repente, um grande medo o assalta. Morrer. E Joana não voltar. Quantos dias até alguém dar pela sua falta? Morrer com as unhas por fazer." (p. 83)

O romance de Lilian Sais é forte e sensível, nos fazendo lembrar com muito lirismo de nossas próprias perdas e da passagem do tempo que tudo ameniza. Quem sabe um dia este mesmo tempo permita o retorno da carcaça da baleia para o mar: "O mar recuará muitos metros com o impacto. Depois avançará definitivamente sobre a cidade, tragando casas, funerária, escola, cemitério e a própria carcaça da baleia, que enfim retornará às águas, junto com todo o resto, e quem sabe as pessoas ainda viverão ali, no fundo do mar, mantendo inalteradas as suas rotinas. Então virão os pássaros. A lua brilhará alta, belíssima." Um livro muito recomendado de uma escritora que vale a pena conhecer.

"E que outra forma de contar senão essa, implacável e direta? Velório cumprido, mãe enterrada, inventário iniciado, quinta-feira o chão de Assum Preto tremeu duas vezes, e o tremor fez tombar o ônibus e um carregamento de bois. Sessenta cabeças soltas pela cidade. O primeiro tremor só foi sentido ao redor da Praia do Meio; o segundo, na cidade inteira. / Estávamos em casa, pai Artur Pereira e eu. Quando a terra tremeu pela segunda vez, levantou poeira gestante. É nesses momentos que se vê de um tudo, o passado, vida, a morte – quando a poeira sobe e não se enxerga. Todo adivinho bom é fraco dos olhos. Isso é Assum Preto. / Poeira gestante me levou à senhora minha mãe, mulher que mexia com plantas muito além dos vasinhos que espalhava pela sala, cultivava horta grande no fundo da casa, dando para o pé do morro. Tudo que plantava ou vingava ou morria, donde se deduz que não é que fosse extremamente dotada na função de plantar, mas sim que a vida simplesmente acontecia como tinha de ser e mãe gostava disso. Talvez fosse o que eu mais admirasse em mãe: fazer, e fazer de novo, mesmo dando errado um bom par de vezes. Vida é assim, ela disse uma vez. É fazer e fazer, é continar fazendo." (p. 89)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Lilian Sais é escritora, preparadora de texto e produtora de podcasts. Doutora em Letras Clássicas, publicou, de poesia, a plaquete Passo imóvel (Ed. Cozinha Experimental) e os livros Acúmulo (Ed. Patuá) e Uma baleia nunca dorme profundamente (Ed. Hecatombe). Tem poemas, contos e textos críticos publicados em diversas revistas digitais e impressas. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para o espanhol, o inglês e o grego moderno. Em 2021, venceu o Prêmio CEPE Nacional de Literatura, na categoria poesia, com o livro inédito Motivos para cavar a terra. Em 2020, foi contemplada pelo ProAC para a publicação deste, que é o seu primeiro romance.

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