Osamu Dazai - Mulheres

Literatura Japonesa
Osamu Dazai - Mulheres - Editora Estação Liberdade - 272 Páginas - Tradução de Karen Kazue Kawana - Imagem de capa: Uemura Shōen - Vaga-lume (1913) - Lançamento: 2022.

A Editora Estação Liberdade foi muito feliz na escolha da imagem de capa desta obra de Osamu Dazai (1909-1948), um dos grandes nomes da literatura japonesa, juntamente com Yasunari Kawabata (1899-1972), prêmio Nobel de literatura de 1968, Junichiro Tanizaki (1886-1965) e Yukio Mishima (1925-1970). De fato, a pintura de Uemura Shōen (1875-1942) expressa a delicadeza do padrão de beleza feminino na cultura nipônica em uma época na qual não era comum que uma mulher se tornasse pintora profissional, visto que elas não tinham acesso ao ensino técnico nas escolas tradicionais. As pinturas de Shōen ficaram famosas por representar não apenas cortesãs, mas também mulheres comuns exercendo atividades domésticas. 

Osamu Dazai é mais conhecido no ocidente por seu romance Declínio de um homem, de cunho autobiográfico que reflete a personalidade autodestrutiva do autor, alcoólatra e viciado em morfina, que resultou em cinco tentativas de suicídio, sendo a quinta fatal às vésperas de completar 39 anos. Nos catorze contos de Mulheres, em sua grande maioria narrados em primeira pessoa, o autor assume de forma convincente e com rara sensibilidade, as vozes de uma série de protagonistas femininas de diferentes idades e classes sociais durante o período da Segunda Grande Guerra, algumas obedecendo ao padrão de comportamento definido pela sociedade local e outras saindo das sombras para tentar demonstrar a sua individualidade.

Por exemplo, no longo monólogo A estudante, o texto tem como base o diário de uma leitora enviado a Dazai e adaptado por ele para o período de um dia. Na versão final, ficamos conhecendo os impasses de uma adolescente diante das influências da cultura ocidental e do mundo dos adultos, os conflitos decorrentes do amadurecimento e a influência da literatura: "Quando leio um livro, sou instantaneamente arrebatada por ele, entrego-me a ele, absorvo-o, identifico-me com ele, vinculo minha existência a ele. E, quando parto para outra leitura, logo dou uma guinada em outra direção. A habilidade de roubar as coisas dos outros e torná-las minhas, essa arte é meu único talento. [...] Sendo honesta, não sei quem sou de verdade."

"Depois de sair da ruela do bosque do templo, encontrei quatro ou cinco trabalhadores perto da estação. Como de praxe, eles me dirigiram palavras grosseiras que não ouso repetir. Fiquei sem saber o que fazer. Gostaria de passar na frente deles e deixá-los para trás, mas, para fazer isso, teria que andar entre eles, próxima deles. Horripilante! Por outro lado, ficar em pé, parada, permitindo que seguissem na frente e aguardar que tomassem distância exigiria ainda mais coragem. Eles ficariam ofendidos e zangados. Comecei a perder a paciência e tive vontade de chorar. Envergonhei-me, me voltei, deixei escapar um riso nervoso em sua direção e caminhei devagar atrás deles. Isso foi tudo, mas minha mortificação não se desvaneceu ao entrar no trem. Queria me tornar mais forte e determinada para ser capaz de superar essas situações estúpidas com indiferença." - Trecho do conto A estudante (p. 30)

Já em As tenras folhas das cerejeiras e o assobio misterioso, duas irmãs fingem, uma para a outra, ser o mesmo poeta apaixonado e imaginário. Esta narrativa tem um lirismo e influência romântica mais deslocada do contexto do livro, mas ainda assim fica claro o comportamento esperado da irmã mais nova, agora com uma enfermidade fatal, que ousou ter uma relação que "não se limitava apenas ao coração" e "tinha ultrapassado os limites da decência", sendo, portanto, o desejo sexual no relacionamento romântico algo incompatível e não autorizado.

"Eu tinha acabado de completar vinte anos nessa época e, como uma jovem mulher, havia várias angústias sobre as quais não podia falar abertamente. Li aquelas mais de trinta cartas como se fosse levada pela correnteza de um rio e, depois da última, escrita no outono do ano anterior, tive um sobressalto involuntário. Ser atingida por um raio talvez descrevesse o que senti. O choque foi tão grande que quase caí para trás. O romance de minha irmã não se limitava apenas ao seu coração. Tinha ultrapassado os limites da decência. Queimei aquelas cartas. Não poupei nenhuma. M.T. morava naquela cidade aos pés do castelo, parecia ser um poeta pobre, foi covarde, abandonou minha irmã assim que soube de sua doença, pediu que ela o esquecesse, escreveu coisas cruéis e insensíveis. Depois disso, não voltou a escrever. Se eu permanecesse calada e nunca contasse nada a ninguém, minha irmã poderia morrer como uma garota inocente. [...]" - Trecho do conto As tenras folhas das cerejeiras e o assobio misterioso (p. 73)

A Segunda Grande Guerra é representada no conto 8 de dezembro, por meio do diário de uma dona de casa que resume a seu próprio modo o dia no qual o Exército e a Marinha Imperial entraram em guerra contra o Exército anglo-americano no Oceano Pacífico em 1941, sendo este texto escrito por ela para ser um documento histórico e lido durante as comemorações em 2040 pelos 2700 anos do primeiro imperador japonês, conforme o calendário nipônico: "Talvez ele sirva como referência histórica. Assim, por mais que haja erros de gramática, tomarei cuidado para não registrar mentiras. Escrever pensando no ano de 2040 não é uma tarefa fácil."

"Pensava em várias coisas enquanto arrumava a cozinha. A cor dos nossos olhos e cabelos era diferente em relação à dos rivais, mas isso era suficiente para despertar hostilidade? Queria bater descontroladamente em alguma coisa. Era muito diferente de quando a China estava do outro lado. De fato, só de imaginar os insensíveis soldados americanos percorrendo estas queridas e belas paragens japonesas como animais selvagens era insuportável. Um simples passo sobre esta terra sagrada, e seus pés apodrecerão! Vocês não têm o direito de fazer isso! Bravos soldados japoneses, deem um jeito de destruí-los por completo! Sofremos várias privações em nossos lares, talvez enfrentemos uma série de dificuldades, mas vocês não devem se preocupar. Estará tudo bem. Não ficaremos nem um pouco contrariados. Não estamos aflitos por termos nascido nesta época de provações. Ao contrário, até sentimos que vale a pena termos nascidos em tempos assim. Ah, queria tanto ter alguém com quem conversar sobre a guerra! Poder dizer: 'A batalha começou!'" - Trecho do conto 8 de dezembro (p. 169)

Literatura Japonesa
Sobre o autor: Osamu Dazai, cujo nome verdadeiro era Tsushima Shuji, nasceu em Kanagi, Japão, em 19 de junho de 1909. Estudou literatura francesa na Universidade de Tóquio, e sempre teve uma vida familiar atribulada. Por causa de um relacionamento com uma gueixa, Hatsuyo Oyama, acabou deserdado pelo pai. Tentou pôr fim em sua vida em quatro ocasiões, sendo duas delas antes de completar 20 anos de idade. De saúde frágil e com recorrentes problemas financeiros, Dazai tornou-se alcoólatra e passou por diversas internações hospitalares, além de viciado em morfina. A quinta tentativa de suicídio mostrou-se eficaz e Dazai faleceu às vésperas de completar 39 anos, juntamente com sua amante na época, Tomie Yamazaki, jogando-se no rio Tama, em Tóquio, em 13 de junho de 1948.

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