Jeferson Tenório - Estela sem Deus

Literatura brasileira contemporânea
Jeferson Tenório - Estela sem Deus - Editora Companhia das Letras - 184 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: At the gates of paradise de Antonio Obá - Lançamento: 2022.

Antes do seu premiado romance O avesso da pele, publicado em 2020 (vencedor do Jabuti 2021 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura no mesmo ano), Jeferson Tenório já havia lançado Estela sem Deus em 2018, prêmio Ages – Associação Gaúcha de Escritores – na categoria Narrativa longa e finalista do Prêmio Minuano de Literatura, na categoria Ficção/ Romance – Novela, ambos os prêmios em 2019. Agora temos uma boa oportunidade de conhecer Estela sem Deus que está sendo relançado pela Companhia das Letras. Os dois romances têm em comum a desigualdade social provocada pelo racismo em nossa sociedade, os traumas provocados nas relações familiares e na formação da identidade dos personagens. No entanto, o modo de condução das narrativas é bem diferente, demonstrando a versatilidade estilística do autor.

Enquanto em O avesso da pele Jeferson Tenório utiliza uma sofisticada técnica de variação constante das vozes narrativas, conduzindo a estrutura principal em um falso modo de segunda pesssoa, em Estela sem Deus o romance é narrado totalmente em primeira pessoa na voz de Estela, uma adolescente negra que sonha em se tornar filósofa. Desta forma, conhecemos a história na visão de uma protagonista em processo de formação, estratégia executada de forma convincente ao apresentar no texto reflexões cada vez mais complexas com o amadurecimento de Estela a partir de suas relações com o irmão mais novo, Augusto, e com a mãe Irene: "Desconfiei de que aquilo que minha mãe fazia, nunca parar a vida por causa do pranto, era uma espécie de milagre."

"Minha mãe era empregada doméstica, mas tinha parado de trabalhar havia algumas semanas por causa de uma doença nas mãos. Um dia, o médico olhou para as mãos dela e ficou preocupado. Falou que aquilo era causado pelos produtos que ela usava para limpar as casas. Alertou que dali em diante ela deveria usar luvas, mas minha mãe não contou nada disso para os patrões, pois tinha certeza de que achariam que toda aquela história era algum tipo de capricho e não gastariam dinheiro com isso. As mãos de minha mãe eram negras, mas estavam cobertas por uma crosta de pele morta que as deixavam esbranquiçadas. / A gente estudava pela manhã, e à tarde ela nos levava para as casas que quase sempre ficavam na zona sul da cidade. Íamos junto porque ela dizia que tinha medo que o Augusto virasse um aviãozinho do tráfico, e eu, uma prostituta, mas a gente sabia que na verdade ela nos levava mesmo para ajudá-la na limpeza. Não sei dizer se ela nos levava também para nos ensinar algo sobre a vida; só sei que no início, confesso, eu achava uma grande chatice. [...]" - Capítulo I - A proteção do abandono (p. 15)

Irene, que foi abandonada pelo marido, tem muita dificuldade para criar sozinha os filhos e, depois de um episódio de violência que sofrem em um bairro na periferia de Porto Alegre, doente e com uma doença que a impede de trabalhar como faxineira, sem outra alternativa, ela decide enviar Estela e Augusto para morar no Rio de Janeiro aos cuidados da amiga e madrinha Jurema, cabeleireira em Copacabana. Segundo Jurema, a solução para todos os problemas dos meninos está na necessidade de serem salvos do pecado e começa a levá-los para o culto na igreja evangélica: "Naquele dia, enquanto nos preparávamos para sair, a madrinha disse que quem não tem Deus ao seu lado é castigado mais cedo ou mais tarde."

"Achei o beijo um pouco nojento, porque só depois fui descobrir que o Isaías não sabia beijar. Eu também não sabia, então éramos dois inexperientes que não sabiam beijar. Batemos os dentes, e também sentimos um pouco a saliva um do outro. Depois do beijo nós nos afastamos sem nem nos olharmos. Acredito que o Isaías tinha mais receio de Deus do que eu. Lógico que o medo de ser castigada por estar cometendo um pecado existia, mas acabei me acostumando com aquilo. O pecado era bom. Não contamos para ninguém sobre aquele beijo; não tinha certeza de que voltaríamos a nos beijar. Mesmo que eu lhe tivesse dito que não queria namorar, ele passou a me dar bilhetinhos de amor e sempre costumava me trazer um doce. / Um dia, ele me trouxe uma flor e eu tive vontade de rir dele, porque achei aquilo ridículo. Outro dia, ele me jurou que estava disposto a fazer tudo por mim. E eu gostei da ideia. Para ter certeza, voltei a perguntar se ele faria mesmo tudo por mim. [...]" - Capítulo II - A margem esquerda do coração (p. 104)

Em busca de algum tipo de salvação, Estela é convencida pela madrinha a participar dos cultos: "A partir daquela noite, fiz a promessa de que eu salvaria a todos da minha família. E a única forma de alcançar a salvação era me colocar ao lado de Jesus o mais rápido possível. Para tanto, passei a acompanhar minha madrinha em todas as idas à igreja. Hove semanas em que eu ia quase todos os dias. A frequência nos cultos me dava a sensação de que eu me redimia e que, enfim, Deus nos perdoava." A igreja acaba se tornando uma solução na vida de carências e falta de oportunidades de Estela, contudo, a menina que quer se tornar filósofa não abre mão de sua teimosa e inconveniente mania de pensar e logo encontra outras alternativas, principalmente quando volta a estudar.

"Quando me lembrei de minha mãe, quando fiz um esforço para enxergar cada detalhe do seu rosto, compreendi com assombro algo importante: que Deus estava mais próximo do que eu imaginava. Deus estava espalhado em algumas mulheres que conheci. Deus não era homem. Deus sempre foi mulher. Seria mais honesto pensar dessa forma. Suportar a vida como elas fizeram, dar conta de tudo era sobre-humano. Tive uma dor no peito que me trouxe outra revelação: a de que Deus era, na verdade, a minha mãe limpando o chão nas casas das madames. Deus era minha mãe tendo de sustentar a casa sozinha porque meu pai nos esquecera. Deus era a minha tia cuidando do tio Jairo com derrame. Deus era a Melissa querendo voar pela janela. Deus era a minha madrinha Jurema suportando o Padilha. Deus éramos nós sendo violentadas. Deus era eu carregando um filho morto no ventre. / Pensei que, se um dia eu voltasse a Porto Alegre, poderia dizer isso tudo a minha mãe. Talvez ela precisasse saber disso também. Queria que tivesse o mesmo espanto que tive. Quando passei por Copacabana, olhei o mar e pensei que não havia culpados, ou então todos eram culpados. Sofremos o que tínhamos de sofrer. Não precisávamos ter medo de mais nada. A tristeza nos absolveria de Deus.” - Capítulo III - A margem direita (p. 181)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutor em teoria literária pela PUC-RS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor de O avesso da pele (2020), que venceu o prêmio Jabuti e teve seus direitos vendidos para Portugal, Itália, Inglaterra, França, Suécia, China, Bélgica e Estados Unidos. Estela sem Deus é seu segundo romance, publicado originalmente em 2018 pela Editora Zouk e relançado agora pela Editora Companhia das Letras.

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