Marçal Aquino - Faroestes

Literatura brasileira contemporânea
Marçal Aquino - Faroestes - Editora Companhia das Letras - 152 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: Bilhar (2022) de Marcelo Tolentino - Lançamento: 2022.

Faroestes é uma coletânea de contos em relançamento pela Companhia das Letras; publicada originalmente em 2001 pela Ciência do Acidente, editora paulista criada por Joca Reiners Terron, escritor que ajudou a divugar importantes nomes da literatura contemporânea na época, inclusive Marçal Aquino, o qual já havia sido agraciado em 2000 com o prêmio Jabuti para O amor e outros objetos pontiagudos. Esta nova edição de Faroestes conta com orelha de Ana Paula Maia, uma autora que segue estilo semelhante ao de Aquino, definido pelo próprio como "prosa de confronto" e bem explicado por Paulo Roberto Pires em seu inspirado posfácio: "o confronto é o enfrentamento em si, mas também o átimo que antecede a ele, a ameaça, a provocação."

Os contos apresentam uma rara unidade temática que evidencia a falta de esperança da "gente áspera" que sobrevive nas periferias dos grandes centros urbanos ou na área rural. Um  bom exemplo da prosa de Aquino está no magistral Dez maneiras infalíveis de arranjar um inimigo (para facilitar o trabalho do legista), dividido em dez minicontos independentes, narrados em segunda pessoa e uma ação que está sempre em suspenso, na iminência do confronto. Pode ser o crime passional, a agressão em um jogo de bilhar no final da noite, a visita do bispo da igreja à mulher do protagonista, um bar no qual está prestes a ocorrer a quadragésima chacina do ano na cidade ou, simplesmente, pessoas que se cansaram de ser elas mesmas.

"Você passa a prestar muita atenção na mulher que veio morar na casa amarela da vila. Morenos, ela e o marido, ele um pouco mais escuro. Você sabe que ele trabalha à noite, no pesado. Já escutou, no bar, neguinho dizendo que homem que tem trabalho noturno não dá conta do recado em casa. Então você olha com mais capricho toda vez que a mulher passa em frente à oficina: a caminho da padaria ou do mercadinho de verduras ou, de banho tomado, à tarde, na direção do ponto de ônibus para o centro. Até que um dia ela olha de volta, curiosa. Você cumprimenta, fingindo respeito. Bem nesse dia ela veste uma calça vermelha, justa. Infernal. Na próxima vez, você já sabe: deve sorrir na hora do cumprimento. O marido trabalha à noite, não dá conta do recado. Pelo menos é o que você pensa. Até descobrir que não é bem assim. Mas aí será um pouco tarde. Como é que você ia adivinhar que o cara é da PM se não fosse a mulher contar, rindo, na cama?" (p. 15) - Primeira parte de Dez maneiras infalíveis de arranjar um inimigo (para facilitar o trabalho do legista)

A violência apresentada diariamente nas páginas policiais supera qualquer esforço de ficção e, transcorridos mais de vinte anos de sua publicação, os contos permanecem atuais, também devido à narrativa veloz e cinematográfica, resultado da experiência de Marçal como roteirista. No conto Homens mortos, por exemplo, um casal viaja e faz uma parada em um bar para logo depois presenciar um acidente na estrada, os homens da equipe de socorro trabalhando com uma serra para tentar chegar ao motorista, um cadáver coberto por jornais no acostamento, a cena é apresentada de forma tão visual que nos sentimos ao lado dos personagens.

"A garota tinha um ideograma tatuado no pulso esquerdo. Minúsculo, vermelho. Significava, segundo ela, 'o caminho do guerreiro passa necessariamente pelo mal; mas o guerreiro tem escolha'. Sempre achei que, em matéria de síntese, ninguém pode com os chineses. / O pai dela era músico, de certa projeção até. Tocou nos festivais da Record na década de 1960, acompanhando cantores importantes. Aí desafinou no jogo e na bebida. Acabou virando um profissional da noite. O pai dela era uma lenda no meio musical. E também um grande canalha: apostou a virgindade da filha num jogo com um amigo pianista, quando ela estava com quinze anos, e perdeu. Perdeu duas vezes: ela nem era mais virgem. A garota me disse que teve sorte: o amigo do pai era delicado e amoroso. Um negro gordo, se bem me lembro dele. Bom sujeito, de acordo com ela. Tanto que continuou se encontrando com ele até os dezoito anos." (p. 33) - Trecho do conto Homens mortos

A tensão narrativa está sempre presente em Faroestes, como uma corda esticada, o realismo brutal é filtrado e subtendido pela ficção, citando mais uma vez o posfácio de Paulo Roberto Pires: "Nesses momentos tensos, da corda esticada, não há espaço para psicologismos ou tempo para digressões. Narrar o confronto é usar com maestria a elipse, recurso do qual Marçal usa e abusa no jogo que propõe com as convenções do realismo – ao qual jamais adere completamente." As onze narrativas curtas desta coletânea são uma recomendação certa para conhecer uma das vozes mais importantes e influentes da literatura brasileira contemporânea.

"Edna era mais velha, já tinha sido casada quando a conheci. Dizer que eu estava apaixonado é pouco. Eu estava louco por ela. Uma dessas mulheres com quem você sempre aprende alguma coisa. Em especial aquelas coisas que já pensava saber. Minha rotina era: do ringue para a cama dela, da cama para o ringue. / Nas eliminatórias para a Olimpíada, venci os quatro primeiros adversários por nocaute. Todos no primeiro assalto. Eu estava tinindo. Aí, chegou o dia da final. Eu tinha passado a noite anterior com Edna, praticamente sem dormir. No ringue, não achei meu adversário, um sujeito vesgo, uns dois palmos mais alto do que eu. Ele era forte e rápido, e eu parecia lutar em câmara lenta. Quando tentei um clinch, ele me acertou uma cabeçada que, apesar da proteção do capacete, abriu meu supercílio. A partir desse momento, com o sangue me atrapalhando a visão, ele bateu à vontade. Caí no começo do segundo assalto. [...]" - (pp. 98-9) - Trecho do conto Clinch

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Marçal Aquino é jornalista, escritor e roteirista, nasceu em Amparo, no interior paulista, em 1958. Sua obra inclui os volumes de contos As fomes de setembro (1991), Miss Danúbio (1994), O amor e outros objetos pontiagudos (1999), Faroestes (2001) e a antologia Famílias terrivelmente felizes (2003), além dos romances O invasor (2002), Cabeça a prêmio (2003), Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2005) e Baixo esplendor (2021).

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