Cida Pedrosa - Araras vermelhas

Poesia brasileira contemporânea
Cida Pedrosa - Araras vermelhas - Editora Companhia das Letras - 144 Páginas - Capa: Celso Longo - Foto da capa: Caixa de Morar Brasília de Rubens Gerchman - Lançamento: 2022.

Depois de Solo para Vialejo (2020), vencedor do Prêmio Jabuti nas categorias livro de poesia e livro do ano, Cida Pedrosa lança um novo livro-poema, desta vez sobre a Guerrilha do Araguaia, ocorrida na região amazônica conhecida como “Bico do Papagaio”, situada na fronteira entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins (então Goiás), no período de 1967 a 1974, um movimento formado por ex-estudantes universitários, profissionais liberais e camponeses locais, mortos em combate na selva ou executados após a prisão pelos militares, tendo os corpos sido ocultados e, por essa razão, muitos são considerados ainda hoje como desaparecidos políticos. As Forças Armadas nunca se pronunciaram oficialmente sobre as sucessivas operações de combate realizadas na região naquela época, nomeadas como: Papagaio, Sucuri, Marajoara e Limpeza.

Para tentar reconstruir essa história foram utilizados arquivos jornalísticos da época, referências culturais das décadas de sessenta e setenta (de Janis Joplin a Chico Buarque), os poucos dados biográficos disponíveis na internet, memórias pessoais da autora e, claro, muita poesia: "não basta combater torturar executar há que se aniquilar / aniquilar o corpo / aniquilar a alma / aniquilar o corpo / não basta aniquilar esconder apagar tem que inexistir" No entanto, a poeta sabe que a verdade é teimosa, pode demorar mas sempre teima em aparecer, normalmente vestida de esperança: "com essa esperança andarilha / coberta de juventude / a fé se embrenhou na mata / vestida de plenitude / portando o verso mais lindo / o raio do dia vindo / bem longe da finitude".

a amazônia é o paraíso perdido parida em porções generosas de possibilidades a terra prometida encontrada em meio ao tudo e ao nada girandola de cores cheiros e chiados espaço válvula para as brânquias do planeta lugar mãe do povo original ventre vultoso de ancestralidades aviltadas ancestralidades divididas ancestralidades dizimadas ancestralidades que teimam em contar das asas dos pássaros do charco na pedra da terra do pântano da paisagem-homem e do homem-paisagem do ser silêncio e da natureza fala / a amazônia é a cobiça dos vis varões do valor / a amazônia barriga placentária do mundo cortada por veias e vasos / varises / varises / varises / varises / veias vasos e valas / veias vasos e velas / veias vasos valas velas e vultos

as araras vermelhas chegaram ali para ser parte / misturar-se ao outro cultivar o campo caçar a comida / por peixes à mesa colher castanhas florir auroras // eram poucos mas se sentiam grávidos de tudo / e capazes de fertilizar o chão e de plantar partituras / palavras poemas muitos ainda imberbes e mal saídos / dos bancos escolares outros já postos à prova / já postos à dor já postos ao cárcere // entre eles uma verdade única // a busca por um tempo novo / a busca por um templo em que a pluma pudesse ter / espaço igual ao espaço da pedra em que o arco-íris / fosse apenas o afã das cores e a botija de ouro / fosse a sobremesa da mesa posta para todos // seus bicos nos dizem que a vida tem mais curvas que / retas mais surpresas que verdades mais guinchado / que canto // as araras chegaram ali as araras chegaram ali // chegaram / chegaram / chegaram // sem vontade de partir

osvaldão ou mineirão assim chamado pelos moradores da região era conhecedor da área conflagrada chegou como garimpeiro e mariscador depois armou casa numa posse onde recebeu outros companheiros pessoa boa e de boa pontaria comandante do destacamento B onde travou e venceu vários combates estava no topo da lista de execução prioritária dos agentes da ditadura // já no final da guerrilha foi traído por uma referência / e morreu em combate // teve a cabeça cortada e o corpo pendurado de cabeça para baixo no esqui do helicóptero que sobrevoou a mata o dia todo em voos rasantes // voos rasantes / voos rasantes / voos rasantes // a cabeça de osvaldão não foi exposta nos centros urbanos brasileiros na década de 70 pois a ditadura militar precisava dizer da inexistência do conflito // da inexistência da guerrilha / da inexistência das pessoas / da inexistência dos corpos // desaparecidos desaparecidas desaparecides

Poesia brasileira contemporânea
Sobre a autora: Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, no Sertão de Pernambuco, em 1963. É autora de As filhas de Lilith (2009), Claranã (2015) e Solo para Vialejo (2020), vencedor do Prêmio Jabuti nas categorias livro de poesia e livro do ano, entre outros títulos. Formada em direito, Cida em 2020 foi eleita vereadora de Recife. Em 2021, Cida recebeu mais uma grande honraria. Ao lado do patrono da educação no Brasil, Paulo Freire, ela foi a homenageada da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, com muitas de suas obras sendo transcritas para o teatro.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Araras vermelhas de Cida Pedrosa

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