João Matias - Os santos do chão bravo

Literatura brasileira contemporânea
João Matias - Os santos do chão bravo - Editora Caos & Letras - 136 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2022.

Os contos de João Matias, na definição certeira do escritor angolano Pepetela, Prêmio Camões de Literatura 1997, "nos fazem refletir sobre a dureza da vida numa região que poderia ser rica mas só produz desgraçados, fugitivos da fome e da injustiça que os poderosos cinicamente chamam Justiça." É neste Nordeste violento e sem esperança que o autor nos apresenta os seus personagens, sofrendo com a desigualdade social e o abandono político, seja no interior ou nas metrópoles, os contos desta coletânea nos mostram um regionalismo contemporâneo amargo que precisa ser encarado e modificado se quisermos construir uma nação mais justa.

A fictícia Cidade Grande é o cenário da maioria dos contos nos quais o autor muda o foco dos cangaceiros e beatos da literatura tradicional regionalista para o universo atual dos traficantes e evangélicos, tudo permeado sempre pela corrupção generalizada, como bem resumido no prefácio de Braulio Tavares: "Os contos de João Matias mapeiam esse terremoto em câmera lenta, mostram as tragédias repentinas, os amores desconfortáveis, as lições brutais, os projetos mirabolantes, as ambições de mangas curtas. Mapeiam as biroscas, os bancos de feira, as casinhas de porta e janela onde cada drama é uma tragédia grega que não foi escrita."

"Afasto-me dos outros. / Retiro o mato do buraco onde achei os ossos, e estão todos lá. / Pouco a pouco vou cavando, quando podia estar plantando os tomates como os outros companheiros. / Mais ossos. / Até que vejo corpos de adultos, crianças, animais, como também tábuas, cimentos, telhas e objetos que podiam ser de uma casa. Vou reconstituindo, como um arquiteto, separando aquilo que era da casa e os supostos moradores. Montando a todos, como se fosse deus e engenheiro. / Descubro uma casa, com telhas, vidros, cimento e pedaços de móveis. Uma família, com três adultos, duas crianças, um cachorro e um gato. Ou coelho. Não dá para saber. Naquele ponto, o sol a pino não deixava perceber que os companheiros vinham saber o porquê de eu estar no terreno sentado, olhando longamente para o buraco e pensando o que exatamente poderia ter acontecido ali sem que ninguém soubesse." (p. 24) - Trecho do conto Carcamanos

A brutalidade generalizada no cotidiano de Cidade Grande está exposta no conto Princeso no qual duas meninas prostituídas são assassinadas por um juiz na saída do motel, enquanto playboys drogados ateiam fogo em mendigos em uma espécie de operação de "limpeza" ou de "justiça divina": "Cidade Grande cumpre sua sina, de matar pretos, pobres e putas; tão suja quanto a noite, mais ácida que o sol." Em meio a esta visão apocalíptica da sociedade local, Severino, um flanelinha, é o improvável justiceiro que irá redimir os pecados da cidade.

"Quando aqui foi instalado o primeiro juizado nós já nos acumulávamos nas esquinas. Cidade Grande foi formada assim, de prédios soterrando casas, algumas de taipa, do antigo povoado de Chão Bravo. Os que chegaram usando sobrenomes estrangeiros e os outros, retirantes, uma imensidão de Silvas. Lembro, por exemplo, que meu avô trabalhava naquela esquina. Aquela. Para onde seu olho vê. Depois, meu pai se mudou para essa. E eu trabalho aqui, faz vinte anos; e estamos conversando, eu e você. Tanto que o senhor insiste, doutor, que eu vou sim falar o que houve. Hoje, não temos esse sindicato de flanelinhas apenas de brincadeira. O senhor não sabe, foram anos de muita luta. Mas agora, penso, seja hora de esclarecer as coisas." (p. 45) - Trecho do conto Princeso

Já o conto Os santos do chão bravo, que empresta o título ao livro, é uma narrativa de grande impacto visual que descreve, no interior de uma igreja fechada, o encontro de vida ou morte de dois padres, presenciado apenas pelo Cristo de olhos esbugalhados com feridas vermelhas profundas e pelas imagens dos santos que recebem a incidência dos raios de sol naquela hora do dia: "– Tu nunca notou? É coisa dos arquitetos, a luz bate mesmo no coração dos santos logo nessa hora. Tá aqui desde o tempo que Cidade Grande era Chão Bravo."

"De coroa de espinhos já a vida trazia dores insuportáveis – disse o padre, na penumbra da igreja, quando já os pombos fazem seus ninhos como todos os dias por entre as brechas do telhado na única igreja católica para os pobres do arrabalde de Cidade Grande, antigo povoado de Chão Bravo. Ruídos. Piados. A igreja fechada. Uns novos pombos estavam ali entrincheirados pelo umbral do teto. E o padre, ajoelhado, segura apertado o crucifixo untado de suor, com o qual usa da própria fé para mirar o altar com o Cristo dos olhos esbugalhados e feridas vermelhas profundas, a boca aberta e o pescoço arqueado para cima, dizendo para ele que corra enquanto é tempo. / – Clic–clic – ouve-se por detrás de Padre Almério, o sujeito baixinho e gordo, de olhos fechados. / Uma arma apontada para sua cabeça tem o cano frio encostado em sua nuca. E por detrás, um outro padre, de hábito irretocável e limpo, sorri e limpa a garganta com um pigarro. Os pombos, no telhado da igreja, arrulham. A igreja tem paredes com o cimento aparente, mal cuidadas, santos em todas as colunas que a seguram, telhas quebradiças, um altar aparentemente novo e poucas salas. / Nesta altura, se já a vida trazia dores insuportáveis, é porque lhe foi perguntado se gostaria de morrer sem sofrer ou sofrendo, com um tiro na perna, na cabeça ou no estômago. Os pombos fazem seu julgamento, no telhado da igreja. / – Onde tá o dinheiro? – pergunta o do revólver ao padre Almério. [...]" (pp. 105-6) - Trecho do conto Os santos do chão bravo

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: João Matias nasceu em Juazeiro do Norte (CE), mas é radicado em João Pessoa (PB). Escritor, sociólogo e professor. É doutor em sociologia e professor na Universidade Estadual da Paraíba (PB). Publicou os livros O Lugar dos Dissidentes (2019) O Vermelho das Hóstias Brancas (2010), dentre outros. Possui contos publicados em antologias diversas, sendo um dos editores da Revista Blecaute de Literatura e organizador do Encontro de Literatura Contemporânea, na cidade de Campina Grande (PB). Como roteirista, possui roteiros adaptados aos quadrinhos, tendo também atuado junto ao argumento do longa-metragem brasileiro O Nó do Diabo, dentre outros trabalhos. Faz participações no podcast Lavadeiras do São Francisco, sobre literatura, e mantém textos sobre literatura e cultura junto ao site LiteraturaBR.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Os santos do chão bravo de João Matias

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