Warsan Shire - Bendita seja a filha criada por uma voz em sua cabeça

Poesia inglesa contemporânea
Warsan Shire - Bendita seja a filha criada por uma voz em sua cabeça - Editora Companhia das Letras - 152 Páginas - Tradução: Laura Assis - Capa: Flavia Castanheira - Imagem de capa: Natalie Osborne - Lançamento: 2022.

Warsan Shire transforma sofrimento em beleza com a força da sua literatura que é ao mesmo tempo linda e brutal, uma poesia improvável como a sobrevivência de um refugiado: "Ninguém deixa a própria casa a menos que seja a boca de um tubarão. / Ninguém põe os filhos num barco a menos que a água seja mais segura que a terra." Não há como não pensar nos homens, mulheres e crianças que não conseguiram atravessar o Mediterrâneo e se tornaram apenas corpos abandonados em alguma praia distante. Há também aqueles que, não podemos esquecer, venceram a longa travessia e ganharam o direito de serem chamados de imigrantes para logo descobrirem uma vida de sofrimento, racismo e humilhação: "É mais fácil engolir os insultos que encontrar o corpo do seu filho nos escombros."

Os mecanismos do racismo atuam de forma mais cruel contra as mulheres negras que têm ainda menos chance ao direito de existir, um poema pode ser uma forma de reescrever a história como na pequena obra-prima Em reverso: "Você não vai enxergar nada além. / Vou reescrever nossa vida toda e vai ter tanto amor dessa vez. / Talvez assim, mana, a gente fique bem,/ talvez assim ela não perca o bebê. / O corpo da mãe rola escada acima, o osso dela se encaixa no lugar [...]" Um livro muito recomendado que você não vai conseguir esquecer: "O rosto da sua filha é um pequeno motim, suas mãos são uma guerra civil, / ela tem um campo de refugiados alojado / atrás de cada orelha, seu corpo é um corpo coberto / de coisas feias // mas, meu Deus, / não é que o mundo / cai bem nela?"

Casa

I
Ninguém deixa a própria casa a menos que seja a boca de um tubarão. Você só corre para a fronteira quando vê toda a cidade correndo também.
O rapaz com quem você estudou, aquele que te deu um beijo desajeitado atrás da velha fábrica de estanho, agora segura uma arma maior que o próprio corpo. Você só deixa o lar quando o lar não te deixa ficar.

Ninguém deixaria a própria casa a menos que ela o perseguisse. Não é algo que você alguma vez já tenha pensado em fazer. Então, quando fez, levou consigo o hino disfarçado num murmúrio, esperando chegar ao banheiro do aeroporto para rasgar o passaporte e engoli-lo, cada pedaço de melancolia mastigado deixava claro que você não voltaria jamais.

Ninguém põe os filhos num barco a menos que a água seja mais segura que a terra. Ninguém escolheria passar dias e noites no estômago de um caminhão a menos que os quilômetros percorridos significassem mais que uma viagem.

Ninguém escolheria rastejar por baixo de cercas, ser espancada até a alma deixar o corpo, ser estuprada, ser forçada a sair do barco porque é escuro demais, se afogar, ser vendida, passar fome, ser alvejada na fronteira como um animal doente, por piedade. Ninguém escolheria ter um acampamento de refugiados como lar durante um ano ou dois ou dez, ser despida e revistada, dar de cara com a prisão por todos os cantos. E caso sobrevivesse, do outro lado ouvir os gritos: Voltem para casa, negros, refugiados imundos, sugando e secando as tetas do nosso país, esses pretos com as mãos estendidas, cheirando mal, esses selvagens, vejam o que fizeram com seus próprios países, imaginem o que farão com o nosso?

É mais fácil engolir os insultos que encontrar o corpo do seu filho nos escombros.

Eu quero ir para casa, mas minha casa é a boca de um tubarão. Minha casa é o cano de uma arma. Ninguém deixaria a própria casa a menos que a casa o escorraçasse para a costa. Ninguém deixaria a própria casa até o momento em que a casa se tornasse uma voz no seu ouvido dizendo: fuja, corra, agora. eu não sei o que me tornei.

II
Não sei para onde estou indo. O lugar de onde vim está desaparecendo.
Não sou bem-vinda. Minha beleza não é beleza aqui. Meu corpo está queimando de vergonha por não pertencer, meu corpo está inquieto. Eu sou o pecado da memória e a ausência da memória. Assisto ao noticiário e minha boca se torna uma pia cheia de sangue. As linhas, as formas, as pessoas nos balcões, os cartões telefônicos, os agentes de imigração, os olhares na rua, o frio se assentando profundamente dentro dos meus ossos, as aulas de inglês à noite, a distância a que estou de casa. Alhamdulillah, tudo isso é melhor que o cheiro de uma mulher em chamas dos pés à cabeça, um caminhão cheio de homens que se parecem com meu pai – arrancando meus dentes e unhas. Todos esses homens entre as minhas pernas, uma arma, uma promessa, uma mentira, o nome dele, a bandeira dele, a língua dele, a masculinidade dele na minha boca.

Home

I
No one leaves home unless home is the mouth of a shark. You only run for the border when you see the whole city running as well.
The boy you went to school with, who kissed you dizzy behind the old tin factory, is holding a gun bigger than his body. You only leave home when home won´t let you stay.

No one would leave home unless home chased you. It´s not something you ever thought about doing, so when you did, you carried the anthem under your breath, waiting until the airport toilet to tear up the passport and swallow, each mournful mouthful making it clear you would not be going back.

No one puts their children in a boat, unless the water is safer than the land. No one would choose days and nights in the stomach of a truck, unless the miles travelled meant something more than journey.

No one would choose to crawl under fences, beaten until your shadow leaves, raped, forced off the boat because you are darker, drowned, sold, starved, shot at the border like a sick animal, pittied. No one would choose to make a refugee camp home for a year or two or ten, stripped and searched, finding prison everywhere. And if you were to survive, greeted on the other side – Go home Blacks, dirty refugees, sucking our country dry of milk, dark with their hands out, smell strange, savage, look what they've done to their own countries, what will they do to ours?

The insults are easier to swallow than finding your child's body in the rubble.

I want to go home, but home is the nouth of a shark. Home is the barrel of a gun. No one would leave home unless home chased you to the shore. No one would leave home until home is a voice in your ear saying – leave, run, now. I don't know what I've become.

II
I don't know where I'm going. Where I came from is disappearing. 
I am unwelcome. My beauty is not beauty here. My body is burning with the shame of not belonging, my body is longing. I am the sin of memory and the absence of memory. I watch the news and my mouth becomes a sink full of blood. The lines, forms, people at the desks, calling cards, immigration officers, the looks on the street, the cold settling deep into my bones, the English classes at night, the distance I am from home. Alhamdulillah, all of this is better than the scent of a woman completely on fire, a truckload of men who look like my father – pulling out my teeth and nails. All these men between my legs, a gun, a promise, a lie, his name, his flag, his language, his manhood in my mouth.

Em reverso

O poema pode começar rebobinando-o até o quarto.
Ele tira o casaco e fica sentado ali pra sempre,
é assim que a gente traz o pai de volta.
Posso fazer o sangue tornar ao meu nariz como formigas voltando prum buraco.
Nossos corpos ficam menores, meus seios desaparecem,
Suas bochechas ficam macias, seus dentes retornam à gengiva.
É só falar e eu faço com que a gente tenha sido amada.
Corto fora a mão rejeitada que nos tocava sem permissão,
posso escrever o poema e fazer tudo isso desaparecer.
O padrasto cospe a cachaça de volta na garrafa,
o corpo da mãe rola escada acima, o osso dela se encaixa no lugar,

talvez assim ela não perca o bebê.
Talvez assim, mana, a gente fique bem?
Vou reescrever nossa vida toda e vai ter tanto amor dessa vez,
que você não vai enxergar nada além.

Você não vai enxergar nada além.
Vou reescrever nossa vida toda e vai ter tanto amor dessa vez.
Talvez assim, mana, a gente fique bem,
talvez assim ela não perca o bebê.
O corpo da mãe rola escada acima, o osso dela se encaixa no lugar,

o padastro cospe a cachaça de volta na garrafa.
Posso escrever o poema e fazer tudo isso desaparecer.
Corto fora a mão rejeitada que nos tocava sem permissão,
é só falar e eu faço com que a gente tenha sido amada.
Suas bochechas ficam macias, seus dentes retornam à gengiva,
nossos corpos ficam menores, meus seios desaparecem.
Posso fazer o sangue tornar ao meu nariz como formigas voltando prum buraco,
é assim que a gente traz o pai de volta.
Ele tira o casaco e fica sentado ali pra sempre.
O poema pode começar rebobinando-o até o quarto.

Backwards

The poem can start with him walking backwards into a room.
He takes off his jacket and sits down for the rest of his life,
that's how we bring Dad back.
I can make the blood run back up my nose, ants rushing into a hole.
We grow into smaller bodies, my breasts disappear,
your cheeks soften, teeth sink back into gums.
I can make us loved, just say the word.
Give them stumps for hands if even once they touched us without consent,

I can write the poem and make it disappear.
Step-dad spits liquor back into glass,
Mum's body rolls back up the stairs, the bone pops back into place,
maybe she keeps the baby.
Maybe we're okay, kid?
I'll rewrite this whole life and this tie there'll be so much love,
you won't be able to see beyond it.

You won't be able to see beyond it,
I'll rewrite this whole life and this tie there'll be so much love.
Maybe we're okay, kid,
maybe she keeps the baby.
Mum's body rolls back up the stairs, the bone pops back into place,
Step-dad spits liquor back into glass.
I can write the poem and make it disappear,
give them stumps for hands if even once they touched us without consent,

I can make us loved, just say the word.
Your cheeks soften, teeth sink back into gums,
we grow into smaller bodies, my breasts disappear.
I can make the blood run back up my nose, ants rushing into a hole,
that's how we bring Dad back.
He takes off his jacket and sits down for the rest of his life.
The poem can start with him walking backwards into a room.

Poesia inglesa contemporânea
Sobre a autora: Filha de pais somalis, Warsan Shire nasceu em 1988 em Nairobi, no Quênia, e cresceu em Londres. Foi a vencedora da primeira edição do Brunel International African Poetry Prize e a primeira jovem poeta laureada de Londres; é autora de duas plaquetes, Teaching My Mother How to Give Birth e Her Blue Body. É a poeta mais jovem a fazer parte da Sociedade Real de Literatura e foi incluída na série Penguin Modern Poets, juntamente com Sharon Olds e Malika Booker. É autora dos poemas que fazem parte do álbum visual Lemonade, de Beyoncé, vencedor do Prêmio Peabody, e de Black Is King, em colaboração com a cantora. Também escreveu o roteiro do curta-metragem Brave Girl Rising, com narração de Tessa Thompson e David Oyelowo.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Bendita seja a filha... de Warsan Shire

Comentários

Anônimo disse…
Excrlente resenha de um livro que parece... impactante? Necessário?

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