Sandra Godinho - Estranha entre nós

Literatura brasileira contemporânea
Sandra Godinho - Estranha entre nós - Editora Libertinagem - 232 Páginas
Ilustração de capa/miolo: Lu Valença - Lançamento: 2022.

Este romance talvez seja um dos mais fortes na curta e produtiva carreira da escritora Sandra Godinho que já conta com uma série de obras premiadas, tais como: O Verso do Reverso (2019), As Três Faces da Sombra (2020), Tocaia do Norte (2020) e A Morte é a promessa de algum fim (2021), digo talvez porque toda a sua obra é pontuada por um realismo brutal que expõe aspectos da natureza humana que muitas vezes preferimos ignorar, dramas decorrentes da injustiça social em nosso país, como a violência doméstica contra a mulher, preconceito racial, desigualdade econômica, autoritarismo político e tantas outras ameaças à dignidade da população que tem a sua existência limitada apenas a um teimoso exercício de sobrevivência.

Neste seu mais recente lançamento, Estranha entre nós (2022), a autora concentra a trama do romance no Hospital Colônia de Barbacena, na década de 1970, particularmente sobre as mulheres "condenadas" como insanas porque isso era o mais conveniente para a sociedade patriarcal e misógina da época. Na verdade, o suposto hospital, fundado em 1903 na cidade de Barbacena, Minas Gerais, nada mais era do que um autêntico campo de concentração nazista devido ao tratamento desumano dispensado aos pacientes. Na ficção de Sandra Godinho, Cassandra é uma jovem mulher recém-casada, primeiramente mantida alienada do mundo pela educação do pai e, após a morte do mesmo, trancafiada no manicômio por meio de um plano sórdido do marido.

"Não contei a Madalena que foi Jaime quem fez questão de permanecer na mansão, ficar próximo à papelada para melhor se inteirar dos negócios que papai deixou à sua única filha, criada na mais pura fé cristã, com os princípios morais que uma boa moça de família devia ter, e que supostamente achava que tinha. Jaime me disse: eu era completamente incapaz de tocar os negócios da família. Ou inábil. Vontade nunca me faltou, mas o acesso sempre me foi negado, fui mantida à parte pelo pai e, agora, pelo marido. Incapaz é o que você é. Não foi para isso que fui educada, apenas para casar, parir e perseverar. Talvez Madalena tivesse mesmo razão e uma viagem fosse o melhor a fazer, comentaria com Jaime a respeito quando possível. Sabia que meu marido não toparia desistir, assim irresponsavelmente, dos novos encargos de bem sustentar a família, nem de se desviar dos negócios que ia assumindo, mas tentar não era proibido. Segui para a cozinha para preparar o jantar, cantarolando 'Irene', de Caetano. Quero ver Irene dar sua risada.. Quando foi a última vez que ri?" (p. 38)

Barbacena também é conhecida como uma das maiores regiões produtoras de rosas do país, sendo esta a origem da fortuna do pai de Cassandra, um contraste irônico que a autora explora muito bem no livro entre as fazendas de rosas e os cemitérios de alienados da cidade, única libertação possível para os condenados à prisão perpétua no manicômio para onde eram enviadas as pessoas indesejadas na sociedade, tais como: opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos e outros grupos marginalizados, a maioria sem qualquer tipo de diagnóstico de doença mental, assim como Cassandra.

"Mesmo as enfermeiras não expressavam qualquer vestígio de humanidade em seus olhos. A mais forte, de rosto anguloso e sobrancelhas carregadas, estapeou a face de uma senhora que aparentava ter uns sessenta anos, primeiro com a palma da mão, depois com o dorso, enquanto a velhinha, tossindo muito, se moveu com dificuldade. A enfermeira robusta não se importou, continuou praguejando e só sossegou quando todas já estavam no pátio, fora do pavilhão, com a rotina se fazendo. / Pátio. Luz acesa. Mijar no canto. Cagar em outro canto. Lavar as mãos na água de esgoto. Passar os dedos nos tocos de cabelos que começavam a nascer. Fazer fila. Esperar na fila sua vez. Pegar o pão com manteiga numa mão. Pegar o café na caneca de alumínio com a outra. Comer. Pensar em Jaime. Perguntar-me o que ele estaria fazendo. Perguntar o que estava pensando em fazer comigo. Perguntar se Olívia estaria com ele. Perguntar-me como não percebi o que estava acontecendo. Parar de me perguntar. Preparar-me para o rosa e o azul. Engolir os comprimidos. Aquecer-me ao sol. Espantar as moscas que pousavam em mim. Andar pelo pátio, para cá e para lá, longe do esgoto. Andar. Andar. Andar até cansar. Andar até não ter mais forças." (p. 114)

A narrativa é conduzida, na sua maior parte, em primeira pessoa por Cassandra que passa os seus dias na "Floresta de Sombras", um lugar onde as pessoas se transformam em "estátuas negras circulando os horrores da humanidade, fazendo andar a vergonha que todos querem esconder. Exatamente por isso são ameaçadas de extinção. Bonecas, passarinhos, dentes, caldeirões crânio e merda, cada um se fortalece como pode, cada um se fecha para a renovação como lhe convém, até que o mundo se faça mundo, um novo que renove a lei e a ordem." Ao longo do romance, ficamos conhecendo a história de resistência dessas mulheres esquecidas à própria sorte no manicômio, algumas grávidas, que perdem aos poucos a própria sanidade em um ambiente de dor e sofrimento.

"A enfermeira mais velha cortou um pedaço de cobertor e com ele me encheu a boca, outra molhou minha testa com uma substância pegajosa e trouxe uma máquina estranha para mais perto da maca. Mas foi a última assistente que me surpreendeu, a que não era enfermeira, apenas uma cozinheira que temperava comida com lágrimas. Dordalma foi atando os eletrodos nos dois lados da minha cabeça à altura das têmporas. Eu quis suplicar: que me deixassem gritar minha dor, que um marido não podia tratar assim uma esposa que sempre o amou, que sempre foi uma mulher disposta à entrega, que sabia decifrar os significados das palavras não-ditas e dos pensamentos contidos. Meu marido nunca me deu qualquer pista de incômodo. Dordalma não me ouviu, fez questão de não me ouvir, mesmo com meus olhos suplicantes, seguindo seus movimentos com esperança de um entendimento tácito, daqueles entendidos entre as mulheres que sofrem." (p. 135)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas e antologias de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. É membro número 78 da Ailb, Academia Internacional de Literatura Brasileira. Publicou O Poder da Fé (2016), Olho a Olho com a Medusa (2017), Orelha Lavada, Infância Roubada (2018), foi agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), O Verso do Reverso (2019) ganhou o Prêmio de Melhor livro de contos regional da Cidade de Manaus, Terra da Promissão (2019), As Três Faces da Sombra (2020), Tocaia do Norte (2020) foi o romance agraciado com o Prêmio Cidade de Manaus, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2021. A Morte é a promessa de algum fim (2021) foi agraciado com o Prêmio Cidade de Manaus (2021). E Memórias de uma mulher Morta (inédito) foi finalista do Prêmio Leya 2021.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Estranha entre nós de Sandra Godinho

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