Os melhores livros e resenhas de 2020

Literatura contemporânea

Este foi um ano terrível e ficará marcado para sempre como o ano da Pandemia. A literatura ainda está nos ajudando a vencer a interminável quarentena e, mais uma vez, é chegado o momento das listas de final de ano com excelente desempenho das editoras independentes. Esta lista não reflete somente os lançamentos de 2020, mas também as melhores resenhas publicadas em ordem cronológica, como sempre com base apenas no meu gosto — sigam os links clicando no título dos livros para ler as resenhas completas. Desejo a todos um ótimo 2021 com muita literatura, cultura e arte em geral. Conto com a presença de vocês no Mundo de K.

Clássicos da literatura norte-americana
(01) Toni Morrison - O olho mais azul (resenha publicada em 04/01/2020)

Publicado originalmente em 1970, The Bluest Eye é o romance de estreia da escritora norte-americana Toni Morrison (1931-2019), Prêmio Nobel de Literatura de 1993, em relançamento pela Editora Companhia das Letras. É uma ótima oportunidade para conhecer a obra que se tornou um importante símbolo sobre a crueldade dos padrões de beleza impostos que influenciam a vida de meninas e mulheres negras, assim como as consequências do racismo associado às questões de gênero em uma sociedade patriarcal, um tema muito próximo à nossa realidade. Ao escolher como protagonista uma menina negra de onze anos chamada Pecola Breedlove, a autora evidencia a brutalidade do preconceito racial tanto por parte da sociedade quanto do próprio núcleo familiar.

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Poesia brasileira contemporânea
(02) Ruy Proença - Monstruário de fomes (resenha publicada em 25/01/2020)

Ruy Proença trabalha com o poema em forma de prosa e procura inspiração em elementos fora da poesia que se convencionou chamar de tradicional, como já deixa claro a partir do título. Em alguns trechos a ingenuidade nonsense e a leveza surrealista me lembram de Boris Vian: "guarda-chuvas são animais solitaríssimos. quando adoecem, são abandonados por seus donos. muitas vezes, os encontro no meio-fio, encolhidos, com uma costela quebrada. encontro-os gemendo baixinho, ensopados da cabeça às patas, como se já estivessem mortos. [...]" - ENFERMARIA (p. 23). Dividido em duas partes, Estetoscópio e Papel-carbono, os poemas em prosa ganham uma liberdade de estrutura que reforça muito o poder das imagens.

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Literatura brasileira contemporânea
(03) Fábio Mariano - Habsburgo (resenha publicada em 01/02/2020)

Um círculo de enigmáticos personagens convive nesta novela entre o mercado de artes plásticas e o ambiente universitário. Carlos, que é o condutor da narrativa em primeira pessoa, se dedica à carreira acadêmica e mantém uma peculiar relação de amizade com Coca Munhoz que ambiciona se tornar artista plástico, mas cada um tem uma forma diferente de lidar com suas escolhas e dilemas de formação. [...] Caco Munhoz é o ponto de convergência dessas pessoas que seguem um protocolo de conduta regido somente pela vaidade e interesses pessoais. O livro apresenta um charme globalizante muito original ao lidar com nacionalidades tão diferentes, oscilando de países do leste europeu até a fictícia cidade de Cartago no Brasil onde se localiza a Universidade no período inicial e final da novela.

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Literatura brasileira contemporânea
(04) T. K. Pereira - Vozes (resenha publicada em 24/02/2020)

Surpreende a segurança e a originalidade narrativa nesta antologia de 21 contos, livro de estreia de T. K. Pereira com apresentação de Luiz Antonio de Assis Brasil, responsável pela Oficina de Criação Literária da PUC-RS, na qual já passaram alguns escritores de destaque na literatura contemporânea brasileira, e que recomendou a obra como "uma experiência de transcendental humanidade e de autêntica literatura", nada mal para um jovem autor em início de carreira. Os contos não se enquadram no modelo tradicional, sendo narrados em primeira pessoa e seguindo uma espécie de fluxo de consciência que varia em extensão e formato, de acordo com o histórico e personalidade de cada protagonista.

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Literatura contemporânea africana
(05) Mia Couto - Estórias abensonhadas (resenha publicada em 10/03/2020)

É sempre um prazer renovado ler o moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões 2013 e primeiro autor em língua portuguesa a ser finalista do Booker International Prize na versão de 2015. A sua prosa poética é inspirada na rica tradição do folclore africano em contraste com a dura realidade das ex-colônias, depois dos efeitos devastadores de um movimento de guerrilhas pela independência de Portugal (1961 a 1974), sucedido por uma longa e violenta guerra civil (1977 a 1992) que deixou o país em destroços. Este livro, lançado originalmente em 1994, segundo Mia Couto, reúne contos escritos depois da guerra, "entre as margens da mágoa e da esperança", quando tudo parecia indicar que Moçambique não conseguiria superar a destruição.

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Poesia brasileira contemporânea(06) Pádua Fernandes - O desvio das gentes (resenha publicada em 15/03/2020)

O título desta coletânea de poemas de Pádua Fernandes, O desvio das gentes, é uma leitura irônica da expressão direito das gentes, definida em 1775 por Emer de Vattel como: "A ciência do direito que tem lugar entre Nações ou Estados, assim como das obrigações correspondentes a esse direito.", ou seja, a especialização que é conhecida hoje como Direito Internacional Público, e que deveria abranger também os Direitos Humanos. Outra inspiração para o livro vem do tratado do filósofo Immanuel Kant, A Paz perpétua, lançado em 1795, que se tornou a base do Direito Cosmopolita, considerando que os indivíduos devem se comportar pacificamente com o intuito de se alcançar a paz de convívio mútuo.

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Literatura brasileira contemporânea
(07) Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias (resenha publicada em 22/03/2020)

O livro de Viviane Ferreira Santiago apresenta uma estrutura com características de romance histórico, novela e conto, mas não pode ser enquadrado em nenhuma dessas categorias. A narrativa principal é conduzida em formato de diário e cartas por Maria Leopoldina da Áustria, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826, aos 29 anos. Múltiplas narrativas são Intercaladas, também em primeira pessoa, a partir de outras nove Marias, brasileiras de diferentes épocas, nem sempre famosas, mas todas compartilhando a mesma dor de sobreviver em uma sociedade injusta e patriarcal. Ao abordar, em uma mesma obra de literatura, personagens inspirados em fatos históricos e pessoas reais tão diferentes quanto Maria Leopoldina e Marielle Franco, a autora apresenta um importante painel sobre a experiência de ser mulher em dois séculos de história brasileira.

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Literatura brasileira contemporânea
(08) Adriana Vieira Lomar - Aldeia dos Mortos (resenha publicada em 04/04/2020)

Adriana Vieira Lomar utilizou um recurso narrativo semelhante ao imaginado por Ian McEwan em seu romance de 2016, Enclausurado, no qual um feto em gestação conduz toda a trama, só que a autora neste Aldeia dos Mortos vai ainda além ao fazer com que o seu improvável protagonista – uma menina, viremos a descobrir – se desloque até o passado para conhecer e tentar influir no destino dos antepassados. "No princípio, quando não se tem a capacidade de sonhar, talvez haja um vazio. Uma escuridão ou um clarão." Ao perceber o seu próprio corpo aumentar, da condição de uma bola gelatinosa e grudenta até uma espécie de gergelim indefinido, o feto escuta murmúrios e "desconfia" que exista alguém além dele no universo que habita.

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Literatura brasileira contemporânea
(09) Alê Motta - Velhos (resenha publicada em 11/04/2020)

Este mais recente lançamento de Alê Motta, uma antologia de narrativas curtas, todas associadas a protagonistas na terceira idade, me lembrou uma passagem de O Animal Agonizante de Philip Roth que resume bem o assunto: "Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive."

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Poesia brasileira contemporânea
(10) Fabio Weintraub - Quadro de Força (resenha publicada em 19/04/2020)

Fabio Weintraub retrata os urgentes desequilíbrios sociais do nosso tempo e confere uma voz para grandes parcelas da nossa população que têm o status de invisíveis, talvez porque ninguém se interesse realmente em enxergá-las, "perdedores" que insistem em sobreviver na paisagem urbana, ignorados por todos. Seja a partir do martírio de uma travesti no SUS para conseguir um corpo impossível, descrito em Sete poemas trans, ou por meio da dor de uma mãe (ou pai) ao perder o filho assassinado devido à violência policial em O rosto, essas pessoas se transformam em personagens-vítimas no cotidiano das nossas grandes e injustas cidades. Se a inspiração dos temas é brutal, o estilo tem como base uma técnica refinada na qual o ritmo dos versos livres se associa com a escolha cuidadosa da linguagem e rimas.

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Literatura brasileira contemporânea
(11) Ricardo Terto - Os dias antes de nenhum (resenha publicada em 26/04/2020)

Os 13 contos reunidos nesta antologia de Ricardo Terto obedecem à estrutura que foi consagrada por alguns mestres do gênero, ou seja, pequena extensão dos textos, narrados em primeira ou terceira pessoa, conquistando a atenção do leitor desde o início e finais surpreendentes. Contudo, seguem também uma orientação mais subjetiva que se torna clara à medida que avançamos na leitura: uma certa dificuldade de adaptação dos protagonistas aos padrões de conduta impostos pela sociedade, deslocados do meio em que vivem e envolvidos em atividades profissionais com as quais não se identificam, os personagens, em sua fragilidade, provocam a identificação do leitor e o conflito na trama, combustível da boa literatura.

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Literatura brasileira contemporânea
(12) Carla Bessa - Urubus (resenha publicada em 03/05/2020)

Uma linguagem seca e direta confere caráter de urgência aos contos reunidos nesta mais recente antologia de Carla Bessa que apresenta um recurso técnico original ao fazer com que as narrativas se desenvolvam em um mesmo recorte de tempo e espaço, produzindo múltiplos pontos de vista para uma dada situação em função dos personagens envolvidos e suas próprias motivações. Esses personagens podem ainda estar buscando um resto de felicidade possível (ou impossível) em meio aos escombros em que se transformaram suas próprias vidas. De fato, para alguns só resta o papel de presa ou carniça em uma sociedade injusta, eles insistem em sobreviver em um meio adverso, cercados por predadores que, assim como os urubus, seguem planando sobre suas vítimas, aguardando.

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Ensaios
(13) Grada Kilomba - Memórias da Plantação (resenha publicada em 30/05/2020)

A escritora e psicóloga portuguesa Grada Kilomba – com origens em Angola e São Tomé e Príncipe – é militante do feminismo negro e autora de Memórias da Plantação: Episódios do racismo cotidiano, livro publicado originalmente em inglês em 2008, que avalia o racismo e seus impactos sobre raça, gênero e classe. "Descolonizar o conhecimento" é a ideia que move esta obra, sabendo que, ainda hoje, todos os "conceitos de conhecimento, erudição e ciência estão intrinsicamente ligados ao poder e à autoridade racial", relegando o pensamento negro a discursos marginais, fora do contexto acadêmico. Grada Kilomba aborda questões importantes sobre as formas contemporâneas do racismo que adaptou as antigas concepções do colonialismo.

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Literatura brasileira contemporânea
(14) Lucila Losito Mantovani - Com o corpo inteiro (resenha publicada em 28/06/2020)

Surpreende a força e a originalidade da prosa de Lucila Mantovani em seu romance de estreia e nos deixamos levar pela correnteza do rio caudaloso formado por uma sequência de frases curtas e de expressão poética que formam uma densa narrativa, oscilando entre o passado e o presente de uma protagonista que parece resgatar as vivências da própria autora, assim como as mazelas sociais do nosso país, herança de um colonialismo predador, como nesta passagem: "Uma nação precisa ser capaz de reciclar o lixo que gerou no passado, antes de reclamar do cheiro ruim no corredor. Injustiças se ajustam ou se perpetuam com o tempo?"

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Poesia brasileira contemporânea
(15) calí boreaz - tesserato (resenha publicada em 11/07/2020)

Para tentar explicar o efeito de uma quarta dimensão, além do universo tridimensional conhecido, formado por largura, comprimento e profundidade, utiliza-se o efeito de uma figura geométrica que não existe na realidade, chamada de tesserato ou hipercubo. O conceito básico parte do princípio de que, assim como o quadrado é formado por linhas perpendiculares e o cubo é constituído por quadrados perpendiculares, o tessarato é gerado por cubos perpendiculares em uma suposta quarta dimensão, simultaneamente perpendicular às outras três. Uma interessante característica do tesserato é que, apesar de não mudar de forma, podemos vê-lo de maneiras diferentes, segundo nosso ponto de vista. Assim, começa a fazer sentido a relação dessa curiosa abstração geométrica com a poesia de calí boreaz.

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Literatura brasileira contemporânea
(16) Cinthia Kriemler - O sêmen do rinoceronte branco (resenha publicada em 25/07/2020)

O sêmen do rinoceronte branco é o título de um dos melhores contos na mais recente antologia de Cinthia Kriemler, inspirada por um fato verídico ocorrido em 2018, quando Sudan, o último rinoceronte-branco do norte, morreu no Quênia aos 45 anos, por meio de eutanásia, em um santuário natural – nada mais do que "um cativeiro cercado de boas intenções" – e o seu material genético foi congelado para o futuro. O conceito de extermínio é ampliado dos caçadores no Quênia até os estupradores do Boko Haram na Nigéria, passando pela destruição na Síria, até os assassinatos por "balas perdidas" no Morro do Alemão, Rio de Janeiro, onde "perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro".

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Literatura brasileira contemporânea
(17) Ney Anderson - O espetáculo da ausência (resenha publicada em 02/08/2020)

Esta antologia de contos, livro de estreia do escritor, jornalista e crítico literário Ney Anderson, vem com um invejável e duplo certificado de qualidade: uma elogiosa apresentação de Raimundo Carrero, assim como um prefácio de Luiz Antonio de Assis Brasil, dois dos mais conhecidos e renomados escritores e mestres de escrita criativa em oficinas literárias no nosso país. Neste livro, o Recife é apresentado como uma cidade sombria e chuvosa, cenário de histórias no gênero fantástico onde os personagens sofrem com a violência urbana e o próprio vazio existencial em um constante espetáculo da ausência no qual a vida se transforma às vezes. Ney Anderson, que também escreve resenhas literárias, faz uma ótima estreia ao utilizar as suas próprias experiências e memórias na construção geográfica e ficcional dos contos, contudo sem cair na armadilha da autoficção​.

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(18) William Shakespeare - A tragédia de HAMLET (resenha publicada em 08/08/2020)

O legado do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616) é fundamental não apenas para as artes e a literatura inglesa, mas representa também uma grande influência para a cultura mundial, encenado e publicado em vários idiomas, está sempre originando novas adaptações para o teatro, cinema ou referências em diversas áreas da atividade humana, inclusive na psicanálise. Segundo o renomado crítico Harold Bloom (1930-2019), um dos seguidores da "bardolatria", mais do que uma força da natureza, o mestre William Shakespeare é a própria natureza. Considerada como uma das "quatro grandes tragédias" de Shakespeare, juntamente com Rei Lear, Macbeth e Otello.

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Poesia brasileira ocntemporânea
(19) Alberto Bresciani - Hidroavião (resenha publicada em 15/08/2020)

Depois de Fundamentos de ventilação e apneia, Alberto Bresciani consolida o seu nome no cenário da poesia brasileira, lançando mais uma vez uma antologia com duas particularidades, um curioso título e um conceito bem definido. Hidroavião é dividido em três partes: Água, Terra e Ar, nos conduzindo por uma viagem onde sonho e realidade se confundem na rotina da nossa própria existência, como bem destacado pela também poeta Adriane Garcia em seu prefácio: "Exausto da luta diária de subir e descer a montanha, levando novamente a pedra, o poeta possui uma nave (poesia) incomum, com uma espécie de flutuador no casco. Do alto, a visão panorâmica permite que observe e registre os passos daqueles que o cercam – ou melhor – que partilham da mesma maldição: existir."

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Poesia brasileira contemporânea
(20) Angélica Freitas - Canções de Atormentar (resenha publicada em 05/09/2020)

Em seu terceiro livro, depois dos premiados Rilke shake (Cosac Naify, 2007) e Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2012), a poesia forte e feminina da gaúcha Angélica Freitas amadurece sem dúvida, mas continua afiada e divertida (mesmo quando trata de coisas sérias), sintonizada com a rebeldia dos corações jovens, essa postura tão necessária para confrontar a realidade de um mundo cada vez mais absurdo (a poetisa é legal / o que ela escreve não faz mal // a poetisa tem um blog / onde ela posta canções de rock // a poetisa lançou um livro // "o escaravelho do descalabro" // ela escreveu ajoelhada no milho // a poetisa é boa pra caralho [...]). Em Canções de Atormentar o arsenal da poeta pode variar da autobiografia até a crônica sobre a vida nas grandes cidades, algumas vezes divertida.

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Literatura brasileira contemporânea
(21) Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira - As Mãos Ásperas (resenha publicada em 12/09/2020)

Ao focar as narrativas de seus contos em uma pequena cidade – Cataguases, no interior de Minas Gerais – com personagens simples que resistem à violência diária de uma vida sem perspectivas, o autor nos ensina, assim como outros exemplos na literatura que, quanto mais regional e intimista o recorte, maior o caráter universal da obra. O desafio é mostrar nesses protagonistas de "mãos ásperas" os traços de uma humanidade ainda possível, que não se deixa eliminar apesar de tudo, seja pelo preconceito racial ou pela exclusão social. A cidade de Cataguases já foi cenário de uma importante obra da literatura nacional, Inferno Provisório, de Luiz Ruffato, uma responsabilidade ainda maior para Marcos Vinícius que demonstra, nesta antologia de contos, estilo próprio com segurança e requinte narrativo, vale a pena conhecer essas mãos ásperas.

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Literatura brasileira contemporânea
(22) Rafael Zoehler - Testado em Animais (resenha publicada em 18/09/2020)

A antologia de contos Testado em animais, livro de estreia de Rafael Zoehler, vem com um elogioso texto de orelha de Marcelino Freire que, no seu usual estilo sem papas na língua, resume bem os motivos pelos quais devemos prestar atenção no jovem autor: "Não é metido a besta. Escreve que é uma beleza. Com facilidade. Sem delongas. Sem firulas". Na minha avaliação, acrescentaria – sem a vivacidade descritiva de um Marcelino Freire – que a técnica utilizada no livro é eficiente porque desperta a curiosidade e prende a atenção do leitor com base em um ótimo ritmo narrativo e diálogos precisos que sempre acrescentam elementos ao detalhamento do enredo.

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Literatura brasileira contemporânea
(23) Jeferson Tenório - O avesso da pele (resenha publicada em 22/09/2020)

Com rara habilidade na condução das vozes narrativas, Jeferson Tenório surpreende em seu mais recente lançamento, tanto pela urgência do tema quanto pelo virtuosismo técnico da obra. O romance demonstra os mecanismos de perpetuação do racismo em nossa sociedade e os traumas causados pelo preconceito racial e exclusão social nas relações familiares e também na formação da identidade dos personagens. O narrador é Pedro, um estudante de arquitetura negro de 22 anos que tenta reconstituir a história do pai, Henrique, professor de literatura na rede pública, assassinado em um episódio de violência policial na cidade de Porto Alegre.

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Literatura brasileira contemporânea
(24) Guille Thomazi - Segure minha mão (resenha publicada em 28/09/2020)

O texto de apresentação de Daniel Galera dá uma boa pista do que iremos encontrar neste segundo romance de Guille Thomazi: "Há ecos do sulismo gótico de William Faulkner e Cormac McCarthy aqui. Mas Thomazi é original em tentar levar a poética da brutalidade encontrada nesses autores, a uma espécie de paroxismo estético, no qual a técnica e o engenho humano se contrapõem à essência selvagem e à carne mortal dos seres vivos. [...]". E, realmente, constatamos que o autor vai ainda mais além na estética da violência, construindo uma espécie de romance épico no qual o seu protagonista, Olek, um herói clássico, embora gago e epilético, mantém as suas virtudes morais, apesar do meio inóspito em que sobrevive.

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Literatura brasileira contemporânea
(25) Sandra Godinho - Tocaia do Norte (resenha publicada em 12/10/2020)

Em seu mais recente lançamento, Sandra Godinho nos apresenta um romance de cunho regionalista com a reconstituição de um período histórico ainda pouco conhecido do grande público: a época da construção da rodovia BR-174, conhecida como Manaus-Boa Vista, durante o regime militar, mais especificamente em 1968, ano do AI-5. Nessa época, infelizmente pouco diferente dos dias atuais, a floresta amazônica era considerada como uma força a ser conquistada em nome dos interesses econômicos de tradição colonial extrativista e os povos indígenas inimigos a serem vencidos a qualquer custo, caso não se mostrassem eficientes as estratégias de evangelização em curso.

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Clássicos da Poesia
(26) Wislawa Szymborska - Para o meu coração num domingo (resenha publicada em 18/10/2020)

Esta é a terceira antologia de Wislawa Szymborska (1923-2012), prêmio Nobel de Literatura de 1996, publicada pela Editora Companhia das Letras no Brasil, depois do sucesso de crítica e público de Poemas (2011) e Um amor feliz (2016), livros capazes de emocionar até aqueles que dizem não gostar de poesia. Sim, porque há quem não entenda a necessidade de poemas no mundo, mas isso antes de conhecer essa simpática bruxa polonesa que encanta a todos ao resumir com seus versos a essência de tudo que é verdadeiro na condição humana: a vida, o sonho, o amor e, por que não, a própria morte.

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Clássicos da Literatura
(27) James Baldwin - Notas de um filho nativo (resenha publicada em 31/10/2020)

Notas de um filho nativo do romancista, dramaturgo, ensaísta, poeta e ativista social norte-americano James Baldwin (1924-1987) foi lançado originalmente em 1955, reunindo dez ensaios publicados em diferentes jornais e revistas no período de 1948 a 1955 e se tornou um clássico na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, já que, um clássico, segundo Italo Calvino, "é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer", e este parece ser exatamente o caso desta obra, ainda tristemente atual. o valor dos ensaios não está apenas na avaliação crítica das obras, mas sim nas várias inserções e digressões nas quais o pensamento inteligente e sensível de James Baldwin aflora para as questões realmente importantes. Um dos autores mais importantes da literatura norte-americana do século XX e que vale muito a pena conhecer.

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Literatura inglesa contemporânea
(28) Bernardine Evaristo - Garota, mulher, outras (resenha publicada em 09/11/2020)

A anglo-nigeriana Bernardine Evaristo se tornou a primeira mulher negra a ganhar o prestigiado Booker Prize em 2019 com este romance, dividindo o prêmio com a canadense Margaret Atwood, uma decisão que só havia ocorrido duas vezes desde a criação do Booker em 1969, a primeira em 1974 (Nadine Gordimer / Stanley Middleton) e a segunda em 1992 (Michael Ondaatje / Barry Unsworth). O livro, que foi muito elogiado pela crítica internacional, narra a história de 12 personagens dos séculos XX e XXI, a maior parte das quais são mulheres negras vivendo no Reino Unido, mas isso é pouco para entender a genialidade desta obra, muito além do que apenas um bom romance.

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Literatura brasileira contemporânea
(29) Michel Laub - Solução de dois Estados (resenha publicada em 16/11/2020)

O título do oitavo e recém-lançado romance do gaúcho Michel Laub é uma referência ao improvável acordo de paz entre judeus israelenses e árabes palestinos na região do Oriente Médio, uma citação que remete ao conflito entre dois irmãos: Alexandre e Raquel Tomazzi, protagonistas muito pouco confiáveis e, cada um ao seu próprio modo, com discursos radicais de violência e ódio. A obra está inserida em um contexto incontornável e reproduz, em seu microcosmo, o sistema político polarizado que hoje divide a nossa sociedade, não há como evitar a comparação. Na verdade, nada é o que parece inicialmente na trama e o leitor só percebe aos poucos as verdadeiras motivações dos personagens à medida em que as três vozes narrativas, Alexandre, Raquel e Brenda, interagem e se contradizem.

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Poesia brasileira contemporânea
(30) Adriane Garcia - Eva-proto-poeta (resenha publicada em 02/12/2020)

Um livro que, em outros tempos, seria um candidato inquestionável à fogueira, juntamente com sua autora, condenada por heresia ou uma acusação ainda mais grave, questionar os dogmas de uma religião que reflete a estrutura patriarcal dominante. Felizmente, para a poeta Adriane Garcia e as mulheres de uma forma geral, hoje os procedimentos de "caça às bruxas" estão organizados de uma forma mais sutil, contudo, embora a fogueira tenha ficado no passado, não há quem duvide que a misoginia e a violência contra a mulher ainda se mantêm presentes em nossa sociedade. Os curtos poemas de Eva-proto-poeta aparentam uma falsa simplicidade, construídos de forma concentrada, explodem em múltiplos sentidos que podem até escapar ao leitor mais desatento, um livro deliciosamente subversivo e essencial como toda obra de arte deve ser​.

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Comentários

kamilla disse…
Eu estava doida atrás de um blog de resenhas e fiquei tão feliz de encontrar o seu, é o primeiro que e vejo que tem resenha de livros que não são romance juvenil. E já virou meu favorito, com toda certeza.
"Este foi um ano terrível" é a frase que mais resume meu ano, com toda certeza, nunca imaginei que fazer faculdade fosse tão difícil.
"Quadro de Força" foi a resenha que mais me chamou atenção e fiquei muito curiosa para ler, e com certeza eu vou. E também vou acompanhar por aqui.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Kamila, fico feliz que tenha gostado das resenhas! Obrigado pela visita e comentário, seja bem-vinda no Mundo de K!
Celso Traub disse…
Parabéns Alexandre pelo teu trabalho. Muito importante.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Celso, obrigado pela visita e comentário!

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